Agressão PT Dagobah

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Um surto reacionário na política brasileira

De onde surgiram – ou de que tumba se levantaram – legiões de pessoas que assimilaram ideias conspiracionistas, já não direi conservadoras, mas retrogradadoras e, em grande parte, anti-humanizantes (como as do autocrata religioso Olavo de Carvalho) e também ideias excludentes, militaristas, baseadas em ordem top down (como as do autocrata eleitoreiro Jair Bolsonaro)?

Esse pessoal não apareceu de repente. Eles estavam aí o tempo todo, só que interagindo em outros clusters, sem atalhos para nós, que frequentávamos os meios políticos há mais tempo. Eles não tinham voz pública e não interferiam no debate político. Foi na reação ao governo do PT que eles cresceram e apareceram, sobretudo nas mídias sociais e nas manifestações de rua.

Não é mais um fenômeno marginal. São milhões de pessoas que agora viraram, de algum modo, atores políticos, no estilo militante e, pior do que isso, com a vibe intolerante do seguidor, do fiel.

É preocupante. Pois se trata de gente normal, que não teve oportunidade de exercitar seu senso crítico, que em geral nunca participou de movimentos sociais e políticos, nem mesmo teve atuação estudantil ou comunitária. Gente com pouco trato intelectual, moralista e analfabeta democrática.

De certo modo a grande responsável, senão pela existência desses conservadores do senso comum, e sim pela sua recente emergência como novos atores políticos, foi a hegemonia cultural estabelecida pela esquerda nas últimas décadas. O PT estiolou os ambientes intelectuais de tal maneira que só deixou como saída, para os que não concordavam com as suas maneiras de ver e interagir com o mundo, a fuga para trás, a reação não-criadora e não-inovadora. Sim, trata-se, essencialmente, de um surto reacionário na política brasileira (semelhante, em alguns aspectos, ao que ocorreu nos USA com o trumpismo e na Inglaterra com o Brexit). Tanto hegemonismo, tanta militância esquerdista agressiva, tanta intolerância, tanto marxismo de cartilha, tanta patrulha ideológica, tanto corporativismo, tanto multiculturalismo, tanta ditadura do politicamente correto, só podiam dar nisso mesmo.

Em todas as sociedades existe esse tipo de gente. É o padrão, aliás. Para usar a metáfora das Wachowskis, são os cativos da Matrix. O problema maior não são eles e sim os que os usam como massa de manobra, seja para emplacar suas visões de mundo e para arrebanhar seguidores (como Olavo), seja para consumar suas pretensões eleitorais (como Bolsonaro).

O caso de Olavo é bem mais grave do que o do capitão boçal e oportunista Bolsonaro, pois se trata de alguém querendo reeditar e espalhar uma visão retrógrada, baseada na reafirmação das ideias-implante da civilização patriarcal: ordem, hierarquia, disciplina, obediência, comando-e-controle e fidelidade impostas top down. E é bem fácil mostrar isso, a partir dos livros, textos e notas que ele mesmo publica diariamente.

Não subestimo o papel de pessoas como Olavo. Codificadores de doutrinas – por mais inconsistentes e retrógradas que sejam suas formulações – são sempre perigosos para a democracia. Mas vamos tratar disso em outro artigo.

Açuladas ou não (e o foram, em parte) por candidatos a líderes, condutores ou mestres, ou por simples aventureiros que querem apenas fazer carreira, se eleger e eleger seus parentes para qualquer posto no Estado (como é o caso da famiglia Bolsonaro) muitas pessoas – contrariadas com a esquerda e com o PT ou mesmo indignadas com a roubalheira que grassa na nossa política tradicional – resolveram apostar em uma saída não-democrática. O problema não é que elas se digam “de direita” para se contrapor à esquerda. É necessário mesmo resistir ao projeto autocrático (bolivariano) do PT e seus aliados. O mais problemático é que elas estão optando por tomar um atalho autocrático para tanto. E isso é preocupante.


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