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Uma análise da carta mentirosa e enganadora de Antonio Palocci

Quem não conhece o PT anda supervalorizando a tal carta escrita por Antonio Palocci para Gleisi Hoffmann, presidente de mentirinha do PT. De mentirinha porque quem manda de fato no PT é o partido dentro do partido, que obedece totalmente e somente à Lula, Dirceu e mais três dezenas de membros do núcleo duro da organização política criminosa que, aliás, estão soltos, com uma única exceção: João Vaccari (o único que permanece em regime fechado).

A carta de Palocci foi importante por confirmar o que já sabíamos. Ele, porém, não contou nada do que sabe e que nós ainda não sabemos.

É uma carta que mais esconde do que revela. De vital para o desbaratamento da organização criminosa não há nada na carta.

Palocci não revelou nada sobre a verdadeira natureza do PT. O que ele disse é que o PT e Lula se corromperam, como os demais partidos e líderes de partidos tradicionais, que são corruptos mesmo. Palocci está seguindo fielmente o script de redução de danos: o PT só fez o que todo mundo faz (como disse Lula em Paris, no final de 2005: a explicação-padrão inventada por Thomaz Bastos).

Já tratei do assunto em vários artigos escritos antes da redação da carta, como o intitulado Cuidado com o caso Palocci.

Vejamos o que ele, Palocci, ainda não disse e o que jamais vai dizer.

O QUE PALOCCI AINDA NÃO DISSE

O Antagonista, num raro post de utilidade (que não é jornalismo marrom) resumiu o que Palocci pode estar guardando para uma delação premiada. Citemos um trecho:

“Até agora Palocci não disse nada, por exemplo, sobre as negociatas da mansão do lobby e da quebra de sigilo do caseiro Francenildo.

Tampouco falou do estranhíssimo perdão da dívida do Congo de US$ 280 milhões – no governo Dilma – que beneficiou o grupo Asperbras, cujo dono é amigo do italiano.

E dos US$ 348 milhões bloqueados numa conta de um banco em Miami e que teriam origem em negócios do PT em Angola?

E a propina do caso Portugal Telecom? E a compra de silêncio de Marcos Valério? E as negociatas com o Grupo Petrópolis? A sociedade da Oi com a Gamecorp, de Lulinha?

Nada sobre as empresas dos filhos de Lula que funcionavam no mesmo endereço da consultoria Projeto? Nada sobre a venda de decisões no Carf ou a aprovação de Medidas Provisórias? Nada sobre empresas de saúde?

Por que Palocci não entrega as contas bancárias usadas para o repasse da propina de Lula no esquema da Sete Brasil? Não vai admitir que os US$ 98 milhões devolvido por Pedro Barusco eram seus?

Palocci poderia falar também da propina que recebeu na intermediação do contrato da WTorre para a construção do Estaleiro Rio Grande (o primeiro dedicado a sondas do pré-sal). E a propina no contrato de US$ 6,5 bilhões para a construção das sondas?

Quem mais recebeu naquele episódio? Paulo Bernardo assinou o ato de entrega do terreno da União à WTorre e Dilma firmou de próprio punho o contrato da obra.

Tudo indica que a relação com Palocci rendeu à WTorre outro estrondoso contrato para erguer a bilionária – sim, bilionária – sede da Petrobras no Rio. Até agora, infelizmente, nenhuma palavra do ex-ministro sobre o negócio.

Palocci já contou sobre quanto custou a aprovação no Congresso da capitalização da Petrobras do modelo de partilha do pré-sal – projetos capitaneados por ele?

A delação de Palocci precisa esclarecer os R$ 2 milhões que ele recebeu da JBS para prestar ‘consultoria’ na compra da Pilgrim’s e na enroscada incorporação do grupo Bertin. Palocci faria um bem ao país se explicasse por que o BNDES injetou R$ 2,5 bilhões no Bertin, mesmo ciente de que estava quebrado.

No setor de proteína animal, quem melhor do que Palocci para corroborar a versão de Joesley sobre os US$ 150 milhões pagos pela JBS a Guido Mantega, por acesso a recursos do BNDES. Esse dinheiro foi realmente usado na campanha de Dilma em 2010 – coordenada pelo próprio ‘italiano’?

Ninguém melhor do que Palocci também para dizer se Joesley mentiu ao poupar Lula em sua delação premiada. Esse último tema, inclusive, deveria estar no topo da lista dos anexos que o italiano negocia com a Lava Jato”.

O QUE PALOCCI JAMAIS VAI DIZER

Vamos selecionar apenas sete exemplos do que ele, Palocci, não vai dizer:

1 – Não vai revelar o mapa das contas secretas, no Brasil ou no exterior, em nome de laranjas ou de offshores, onde está guardado o dinheiro obtido em mais de uma década de assalto ao Estado e de achaque à empresas nacionais e estrangeiras (ou alguém é tão tolo para achar que Barusco era o único exemplar de uma espécie exótica em extinção?).

2 – Não vai revelar o esquema de financiamento da rede suja de veículos de comunicação dedicada a falsificar notícias, de aluguel de pessoas para escrever em blogs e sites alternativos e, inclusive, de suborno da grande imprensa (quem sabe até via bancos).

3 – Não vai revelar os endereços onde está o dinheiro cuidadosamente poupado para uma aposentadoria milionária (ou para uma espécie de fundo comum para vários membros da organização), talvez escondido, por meio de artifícios financeiros intrincados, por um banco. Não vai denunciar esse banco. Não vai denunciar outros bancos que participaram de algum dos esquemas.

4 – Não vai revelar (se houver – e parece que há) os nomes do alto judiciário envolvidos.

5 – Não vai revelar os nomes de oficiais militares de alta patente que sabiam de licitações fraudulentas (por exemplo, para compra dos caças, do submarino nuclear e de outros armamentos).

6 – Não vai revelar os detalhes do assassinato de Celso Daniel.

7 – Não vai revelar as relações do PT (quer dizer, do Partido Interno que dirige de fato o PT) com a ditadura cubana, que são mais profundas do que se pensa. E não vai revelar também a associação ao plano castrista de capturar a Venezuela, construir o bolivarianismo a partir do chavismo e de colonizar a Nicarágua entregando o governo do país aos sandinistas de segunda geração. E, ainda, não vai revelar ainda as relações com as FARC, com a FMLN de El Salvador e etc. e etc.

Não, nenhum membro do núcleo duro da organização política criminosa (a verdadeira e única ORCRIM estratégica) vai confessar ou delatar nada disso. Nem Lula, nem Vaccari, nem Dirceu, nem os demais membros do partido dentro do partido, vão tocar nestes sete pontos. Estas são as informações estratégicas necessárias para que se possa desbaratar a organização política criminosa que dirige de fato o PT.

Basta ver o comportamento de Dirceu. Condenado a mais de 30 anos, por que ele não confessa? Por que não delata em troca de redução da sua pena? Ora, porque ele sabe que não pode revelar o que é estratégico para que a organização continue organizada e, em algum dia futuro, consiga voltar ao poder e libertá-lo.

Palocci, ao que tudo indica, não tem conhecimento suficiente e detalhado (a não ser por ouvir dizer) dessas operações da segunda lista (da maioria das quais é improvável que tenha participado diretamente ou com papel dirigente).

Em parte ele não revelou nada disso porque não sabe mesmo (já faz tempo que não pertence ao núcleo duro, que dirige o partido dentro do partido). Mas, em parte, ele – que tem boa memória – sabe muita coisa que poderia fornecer o fio da meada para futuras investigações: mas isso ele não quer (e não vai) fazer.

Examinemos a carta de Palocci, interpolando alguns comentários:

DESCONSTRUINDO A CARTA DE PALOCCI

Curitiba/PR, 26 de setembro de 2017

Ao Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores

A/C Sra. Presidente GLEISI HOFFMANN

Senhora Presidente.

Soube pela imprensa da abertura do processo disciplinar pelo PT-RP, bem como de minha suspensão pelo Diretório Nacional por 60 dias. Confesso minha estranheza sobre o conteúdo do referido processo. Neste último período, havia me preparado para enfrentar junto ao partido um procedimento de natureza ética frente à recente condenação que sofri na 13ª Vara Federal de Curitiba, pelo DD. Juiz Sérgio Fernando Moro. Pensava ser normal que o partido procurasse saber as razões que levaram a tal condenação e minhas eventuais alegações. Mas nada recebi sobre isso.

Recebo agora as notícias de abertura de procedimento ético em razão das minhas declarações no interrogatório judicial ocorrido no último dia 06/09/2017, sobre ilegalidades que cometi durante os governos de nosso partido.

Esta introdução é no mínimo estranha, muito além de protocolar. Palocci, depois do que fez – e conhecendo como conhece o PT – esperava o quê?

O procedimento questiona minhas afirmações a respeito do ex-Presidente Lula. Sobre isso, tenho a dizer que:

1) Há alguns meses decidi colaborar com a Justiça, por acreditar ser este o caminho mais correto a seguir, buscando acelerar o processo em curso de apuração de ilegalidades e de reformas na legislação de procedimentos públicos e na legislação partidária-eleitoral que reclamam urgente modernização.

Quer dizer que Palocci agiu, pelo menos em parte, por espírito público, buscando aperfeiçoar os institutos do Estado de direito? Ele quer reformar a legislação para impedir que alguém venha a cometer os crimes que ele cometeu? Quem pode acreditar nisso? Esses crimes teriam sido cometidos em razão de nossas leis não estarem mais adequadas aos novos tempos (e precisam, como ele diz, ser urgentemente modernizadas)? Ora… fosse qual fosse a legislação vigente, uma organização política criminosa como a que dirige o PT buscaria fraudá-la, posto que estruturada para tanto: para usar a democracia contra a democracia. Assim como ele diz, dá a impressão de que foram cometidos erros porque a legislação está ultrapassada.

2) Defendo o mesmo caminho para o PT. Há pouco mais de um ano tive oportunidade de expressar essa opinião de uma maneira informal a Lula e Rui Falcão, então presidente do PT, que naquela oportunidade transmitia uma proposta apresentada por João Vaccari, para que o PT buscasse um processo de leniência na Lava Jato.

Não se sabe se essa conversa de Palocci com Lula e Falcão ocorreu de fato. É até possível que sim. Mas, novamente: conhecendo o PT como conhece, Palocci deveria estar careca de saber que jamais isso seria aceito pelo verdadeiro comando da organização (sim, Gleisi é apenas mais uma testa de ferro).

3) Estou disposto a enfrentar qualquer procedimento de natureza ética no partido sobre as ilegalidades que cometi durante nossos governos, as razões e as circunstâncias que me levaram a estes atos e, mesmo considerando a força das contingências históricas, suportar pessoalmente as punições que o partido julgar cabíveis.

Afinal, Palocci está rompendo com o PT (pelas declarações que fez e pelo próprio teor da presente carta) ou continua subordinado à disciplina e ao comando partidário? A afirmação acima não cola. Se o PT virou tudo isso que ele próprio, Palocci, descreve na carta, então por que ele se dispõe a “suportar pessoalmente as punições que o partido julgar cabíveis”? Não faz sentido.

4) Não vejo possibilidade, entretanto, de colaborar no processo aberto pelo partido sobre minhas afirmações quanto às responsabilidades do ex-Presidente Lula nas situações citadas por ocasião do interrogatório de 06/09/2017. Isso porque tais questões fazem parte do processo de negociação com o MPF, e tal procedimento encontra-se envolto em sigilo legal. Foi por isso que naquela oportunidade limitei-me a fatos relacionados aquele processo. Dito isto, declaro minha disposição de responder aos questionamentos do partido sobre qualquer tema, logo após os prazos.

A mesma coisa do parágrafo anterior. Por que Palocci, que fez o que fez e disse o que disse, ainda se dispõe a “responder aos questionamentos do partido”? Ele quer permanecer no partido ou quer sair do partido?

5) De qualquer forma„ quero adiantar que, sobre as informações prestadas em 06/09/2017 (compra do prédio para o Instituto Lula, doações da Odebrecht ao PT, ao Instituto e a Lula., reunião com Dilma e Gabrielli sobre as sondas e a campanha de 2010, entre outros) são fatos absolutamente verdadeiros. São situações que presenciei, acompanhei ou coordenei normalmente junto ou a pedido do ex-Presidente Lula.Tenho certeza que, cedo ou tarde, o próprio Lula irá confirmar tudo isso, como chegou a fazer no “mensalão”, quando, numa importante entrevista concedida na França, esclareceu que as eleições do Brasil eram todas realizadas sob a égide do caixa dois, e que era assim com todos os partidos. Naquela oportunidade ele parou por aí, mas hoje sabemos que é preciso avançar na abertura da caixa preta dos partidos e dos governos, para o bem do futuro do país.

Aqui começa a falsificação aberta, a enrolação e a repetição da explicação padrão de Thomaz Bastos para controle de danos. A entrevista de Paris foi dada por Lula como parte de um plano para dizer que o PT só fez o que todos fazem: o que é mentira. O PT delinquiu com motivos estratégicos, não apenas copiou ou repetiu o que é feito tradicionalmente pelos demais partidos. A corrupção do PT foi inédita, quer pela sua estrutura centralizada de comando, quer pelos seus objetivos. Ainda que políticos do PT tenham roubado para si, para enriquecer e se dar bem na vida (como o próprio Palocci também fez, basta ver onde e como ele mora), o objetivo maior era financiar uma estrutura paralela como parte de uma estratégia de desferir um golpe de Estado em doses homeopáticas no Brasil. O propósito era conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado controlado pelo partido. E isso requeria a montagem dessa estrutura paralela que precisava ser financiada com recursos de toda ordem, inclusive financeiros, que não poderiam ser captados legalmente. Esta é a natureza da corrupção tipicamente petista e Palocci quer nos enganar escondendo a verdade na sua carta e reforçando a explicação padrão.

6) Ressalto que minha principal motivação nesse momento é que toda a verdade seja dita, sobre todos os personagens envolvidos.

Falso. Palocci não quer revelar verdade alguma que já não saibamos. Pelo contrário, ele quer nos manter na ignorância (para que não saibamos nem que não sabemos). Basta ver tudo que ele omitiu até agora (e que ainda pode vir a revelar e, sobretudo, o que jamais vai revelar).

7) Sob o ponto de vista político, estou bastante tranquilo em relação a minha decisão. Falar a verdade é sempre o melhor caminho. E, neste caso não posso deixar de registrar a evolução e o acumulo de eventos de corrupção em nossos governos e, principalmente, a partir do segundo governo Lula.

Vocês sabem que procurei ajudar no projeto do PT e do presidente Lula em todos os momentos. Convivi com as dificuldades e os avanços. Sabia o quanto seria difícil passar por tantos desafios políticos sem qualquer desvio ético. Sei dos erros e ilegalidades que cometi e assumo minhas responsabilidades. Mas não posso deixar de destacar o choque de ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu governo. Com o pleno emprego conquistado, com a aprovação do governo a níveis recordes, com o advento da riqueza (e da maldição) do pré-sal, com a Copa do Mundo, com as Olimpíadas, “o cara”, nas palavras de Barack Obama„ dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem crítica, do “tudo pode”, do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos.

Ora, isso é mais blá-blá-blá. Lula não deixou de ser o “menino retirante” após a descoberta do pré-sal. Antes disso houve o mensalão. Antes disso houve a construção da estratégia de bolivarianizar (ou lulopetizar) o nosso regime. Antes disso Celso Daniel e Toninho já haviam sido assassinados. Antes disso Dirceu – com as bençãos de Lula – já havia profissionalizado o partido, a partir de meados da década de 1990, para transformá-lo em instrumento de tomada do Estado, aproveitando as vias democráticas para alcançar o governo, para perverter as instituições e para nunca mais sair do governo. Antes disso a organização política criminosa que dirige de fato o PT já estava estruturada. Tudo isso aconteceu bem antes da reeleição de Lula, antes mesmo de ele ser eleito pela primeira vez.

Alguém já disse que quando a luta pelo poder se sobrepõe à Iuta pelas ideias, a corrupção prevalece. Nada importava, nem mesmo e erro de eleger e reeleger um mau governo, que redobrou as apostas erradas, destruindo, uma a uma, cada conquista social e cada um dos avanços econômicos tão custosamente alcançados, sobrando poucas boas lembranças e desnudando toda uma rede de sustentação corrupta e alheia aos interesses do cidadão. Nós, que nascemos diferentes, que fizemos diferente, que sonhamos diferente, acabamos por legar ao país algo tão igual ao pior dos costumes políticos.

Mais enganação. Palocci tem a cara de pau de escrever: “nós que nascemos diferente, que fizemos diferente, que sonhamos diferente”, como se isso fosse uma coisa boa. Na verdade o PT se organizou para alterar o DNA da nossa democracia e isso foi, sim, uma coisa bem diferente do que fazem os partidos tradicionais. Mas foi diferente no pior sentido, pois guiado por uma finalidade antidemocrática. Não. O PT não legou ao país algo igual ao que fazem os partidos tradicionais que, com todas as suas mazelas e corrupções, não atentam abertamente contra a nossa democracia. O PT legou ao país algo infinitamente pior. E se não fosse o impeachment poderíamos estar vivendo hoje uma situação semelhante à da Venezuela.

Um dia, Dilma e Gabrielli dirão a perplexidade que tomou conta de nós após a fatídica reunião na biblioteca do Alvorada, onde Lula encomendou as sondas e as propinas, no mesmo tom sem cerimônias, na cena mais chocante que presenciei do desmonte moral da mais expressiva liderança popular que o pais construiu em toda nossa história.

Palocci continua mentindo: no parágrafo acima, mentindo com a verdade. A tal reunião ocorreu mesmo. Mas não foi apenas uma reunião que decidiu extrair propinas: isso vinha sendo feito desde o início do primeiro governo Lula. Do jeito que Palocci descreve o episódio dá a impressão de que Lula fraquejou subitamente numa reunião, resolvendo aceitar propina (e fazer “o que todo mundo faz”). A quem Palocci espera enganar com essa versão de que teriam ficado perplexos, com a proposta de Lula, Dilma, Gabrielli e ele próprio? Como eles poderiam ter ficado perplexos se esse tipo de corrupção era um método de governo do PT, uma prática cotidiana de seus dirigentes?

Enfim, é por todas essas razões que não compreendo o processo aberto agora. Enquanto os fatos me eram imputados e eu me mantive calado não se cogitava minha expulsão. Ao contrário, era enaltecido por um palavrório vazio. Agora que resolvo mudar minha linha de defesa e falar a verdade, me vejo diante de um tribunal inquisitorial dentro do próprio PT. Qual o critério do partido? Processos em andamento? Condenações proferidas? Se é este o critério, o processo de expulsão não deveria recair apenas contra mim.

É mesmo? E deveria recair sobre quem mais? Palocci não dá nenhuma dica sobre quem planejava tudo isso? Era Lula sozinho?

Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do “homem mais honesto do país” enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa?

Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?

Trata-se de uma encheção de linguiça para passar a ideia de que ele está “entregando” e reprovando Lula (que teria decaído porque cedeu à tentação que assola todos os políticos), mas não revela nada – nenhum fato concreto – que possa levar à condenação de Lula como chefe da organização política criminosa.

Chegou a hora da verdade para nós. De minha parte, já virei essa página. Ao chegar ao porto onde decidi chegar, queimei meus navios. Não há volta. Depurar e rejuvenescer o partido, recriar a esperança de um exercício saudável da política será tarefa para nossos novos e jovens líderes. Minha geração talvez tenha errado mais do que acertado. Ela está esgotada. E é nossa obrigação abrir espaço a novas lideranças, reconhecendo nossas graves falhas e enfrentando a verdade. Sem isso, não haverá renovação.

Quer dizer que, apesar de tudo o que aconteceu, Palocci ainda quer salvar o partido? Quer atrair novas lideranças para renová-lo? Se ele já virou a página, como diz, porque ainda se submete ao julgamento do partido (que tornou-se ilegítimo – segundo ele próprio alega – para julgá-lo)?

E. tenho razões ainda maiores. Nas últimas décadas, sempre me decidi pelo PT, pela política, e minha família sempre aceitou, suportou e sofreu com isso. Agora decidi pela minha família! E o fiz com a alma tranquila.

A família não poderia faltar na carta. Uma família que está vivendo, aliás, muito bem: com o dinheiro que ele – Palocci – roubou.

Desde que fundei o PT há 36 anos, em Ribeirão Preto com um grupo de amigos na sede do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina, entre 1980/1981, dediquei-me totalmente ao partido, à política e a nossos governos.

Tive a honra e a felicidade de ser vereador e prefeito de minha cidade por duas vezes, tive a honra de servir aos governos de Lula e Dilma. Enfrentei como Ministro da Fazenda uma das mais duras crises econômicas de nossa história, mas a competência de meus assessores permitiu um trabalho com fortes e duradouros resultados. Nunca supus que o governo tenha desandado com minha saída em 2006. Na verdade, o caminho até a crise de 2008 foi, do ponto de vista do projeto de desenvolvimento, de grande sucesso. Mas, como o ovo da serpente, já se via, naqueles melhores anos, a peçonha da corrupção se criando para depois tomar conta do cenário todo.

Coordenei várias campanhas eleitorais, em vários níveis e pude acompanhar de perto a evolução de nosso poder e nossa deterioração moral. Assumo toda as minhas responsabilidades quanto a isso, mas lamento dizer que, nos acertos e nos erros, nos trabalhos honrados e nos piores atos de ilicitudes, nunca estive sozinho.

Bem… Quer dizer que Palocci teve “a honra de servir aos governos de Lula e Dilma”? Que honra? Como pode haver honra em servir a uma quadrilha de ladrões vulgares e, pior do que isso, em servir a uma organização política criminosa que tinha por objetivo autocratizar o nosso regime político? O mais descarado, contudo, vem em seguida. Segundo Palocci houve um projeto de desenvolvimento de grande sucesso que, no entanto, guardava em seu seio, meio que embrionariamente, o monstro da corrupção. Ora, isso é absolutamente falso. É como se, só depois de Palocci abandonar formalmente o governo, o embrião maligno tivesse se desenvolvido.

Por isso concluo:

1) Continuo a apoiar a proposta de leniência do PT.

2) Após respeitar os prazos legais de sigilo quanto a minha colaboração com a justiça, terei toda a disposição para esclarecer e depor perante o partido sobre todos esses temas.

3) Com humildade, aceitarei qualquer penalidade aprovada. Mas ressalto que não posso fazê-lo neste momento e neste formato proposto pelo partido onde quem fala a verdade é punido e os erros e ilegalidades são varridos para debaixo do tapete.

Por todas essas razões, ofereço a minha desfiliação e o faço sem qualquer ressentimento ou rancores. Meu desligamento do partido fica então à vossa disposição.

Saudações cordiais,

ANTONIO PALOCCI FILHO

O final não merece comentários. Ele apoia a salvação do PT por meio de um acordo de leniência. Ele tem toda a disposição para depor perante o partido. Ele aceitará com humildade a penalidade que o partido lhe quiser impor. Palocci não afirma claramente, mas lendo esse patético final ficamos com a impressão de que ele fará tudo isso se Lula se arrepender e confessar seus crimes, num grande acordo em que todos – Lula, o PT e ele, Palocci – sinceramente arrependidos, serão perdoados por terem trilhado o mesmo caminho errado dos outros partidos e lideranças políticas. Chega a ser asqueroso.

Os analistas políticos – que viraram, em sua maioria, comentaristas (ao estilo daqueles narradores futebolísticos de segunda linha) – não viram nada disso nesta carta de Palocci? Isto chega a ser ainda mais espantoso do que a carta do falso arrependido da “República de Ribeirão Preto”.


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