in

Uma análise do que está ocorrendo no Brasil

Muitas pessoas estão assustadas com os acontecimentos mais recentes na política nacional. Um festival de denúncias, acusações, processos, delações, condenações e (na verdade, considerando o tamanho do escarcéu, poucas) prisões. A impressão que se tem, acompanhando o noticiário, é que todos os políticos são corruptos, não escapa um. E a maioria não sabe explicar direito por que, de repente, surge um (ou mais de um) grande escândalo por dia.

UMA DESCRIÇÃO DO QUE ESTÁ ACONTECENDO

O que está ocorrendo no Brasil é muito simples. Após o ocaso dos governos petistas, a corrupção e o combate à corrupção ocuparam definitivamente as manchetes. O PT, entretanto, não inventou a corrupção na política. Ele aproveitou a corrupção que já havia, assinalando-lhe outros objetivos: além de roubar em benefício próprio e enriquecer, os agentes petistas começaram a roubar para o partido.

Então os políticos do PT fizeram “o que todo mundo faz”, como eles dizem, mas foram além. Como os chavistas, que passaram a explorar (e comandar) o narcotráfico na Venezuela com objetivos de, além de amealhar fortunas pessoais, financiar a ditadura bolivariana, os petistas praticaram a corrupção para financiar um projeto de poder de longo prazo que tinha por finalidade bolivarianizar (ou lulopetizar) o nosso regime. É claro que eles roubaram também para si, mas havia um propósito coletivo, partidário, coordenado centralizadamente, que era (e é) o de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido, para nunca mais sair do governo. Ora, esse projeto revolucionário não poderia ser financiado apenas com recursos legais. Seria necessário arrecadar muito mais dinheiro para realizá-lo. É o que o saudoso poeta Ferreira Gullar chamou de “a revolução pela corrupção”.

Para fazer isso, porém, eles – os petistas – foram espertos. Eles envolveram, superficialmente (apenas na última camada da cebola), os corruptos comuns que já infestavam o cenário político. Dirigentes do PT, como Delúbio, chegaram a procurar pessoas da oposição e seus familiares para propor vantagens em financiamentos camaradas e outros negócios escusos. O propósito era envolver todos na corrupção que ele – o PT – fazia, com objetivos estratégicos, mas sem revelar tais objetivos, de sorte a criar um círculo de ferro de silêncio e impunidade. E muitas vezes os petistas nem precisavam aparecer: seus antigos aliados – como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral – saiam oferecendo dinheiro ilegal aos seus correligionários. Com todo mundo de rabo preso, quem iria ter a coragem de denunciá-los?

Como o plano não deu certo, eles – os petistas – partiram então para o tudo ou nada. Se nós vamos ser condenados e presos – pensaram – então vamos levar todo mundo junto. Proclamada essa disposição, eles ainda têm chances de diluir suas culpas na lama geral, esperando até o último momento ser salvos pelo velho sistema político que apodreceu, mas não quer ser enterrado. Ou por uma virada eleitoral em 2018.

Esta é a situação atual.

Quase não há político tradicional que, depois de 13 anos de governo do PT – nos quais a corrupção foi promovida a método de governo, deixando de ser apenas desvio de conduta pessoal – não tenha levado alguma vantagem, mesmo indireta, seja por iniciativa própria, estimulado e protegido pelo clima geral de ilegalidade e impunidade instalado no país, seja aliciado por algum dirigente petista ou da base aliada.

Ocorre que o PT não apenas praticou a corrupção, mas ele validou a corrupção como algo aceitável. Ser acusado de corrupção deixou de ser uma vergonha. Passou a fazer parte da luta do povo contra as elites. Antes um corrupto pego com a boca na botija se escondia do público. Agora os corruptos acusam seus juízes e desafiam o Estado de direito abertamente, em comícios e caravanas pelo país. Assim, mesmo tendo sido acusados e condenados por corrupção, os principais dirigentes petistas, como Dirceu, Vaccari e Lula, continuaram sendo aclamados, pelos militantes do PT, como “guerreiros do povo brasileiro”.

Como é que os políticos, inclusive os que não eram tão corruptos, sobretudo os da base parlamentar do governo (que estão no atual governo e que antes integraram os governos Lula e Dilma), mas também até alguns da oposição, começaram a pensar? Se todos roubam, especialmente o governo, então essa agora é a regra (oficial) do jogo. Se nós não roubarmos também, vamos desaparecer, não teremos dinheiro para fazer campanha, para montar esquemas de apoio político e, inclusive, para pagar advogados (e eventualmente subornar policiais, procuradores e juízes), caso aconteça um acidente e algum malfeito seja descoberto.

Esta é a descrição muito simples do que está realmente acontecendo no Brasil atual. Agora vamos à análise.

LULA E O PT NÃO ESTÃO MORTOS

O PT (incluindo a organização política criminosa que dirige o PT) sofreu dois grandes reveses: com o mensalão (de que se recuperou inteiramente) e com o petrolão (de que ainda está se recuperando). O PT começou a ser desconstruído, na verdade, com as grandes manifestações de junho de 2013 (perdendo o monopólio presuntivo das ruas) e, mais ofensivamente, com as manifestações de 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto de 2015 e de 13 de março de 2016, que foram determinantes para o impeachment (além de terem sido as maiores manifestações políticas de nossa história). A operação Lava Jato contribuiu sobremaneira para tudo isso, mas foi a voz das ruas o fator decisivo.

A despeito de tudo isso, nem o PT, nem a organização interna que dirige de fato o PT, comandada por Lula e Dirceu, estão mortos. Basta ver que apenas um membro do núcleo duro dessa organização política criminosa continua preso em regime fechado: João Vaccari. Até José Dirceu, o “capitão do time” (segundo Lula) está solto.

Lula foi condenado em primeira instância, mas continua fazendo política e atacando o Estado democrático de direito como se nada tivesse acontecido. Conta ainda com o apoio de amplos setores da sociedade brasileira, em especial de celebridades dos meios artísticos e culturais, de corporações sindicais e movimentos sociais, de entidades como OAB, UNE e CNBB, de praticamente todo o staff das organizações internacionais com representação no Brasil, de grandes bancas de advogados, de categorias profissionais com enorme influência sobre o público, como os professores e jornalistas, da maior parte dos acadêmicos que opinam sobre política, além dos reitores das universidades, professores, funcionários e alunos, da maioria das organizações não-governamentais e, como se não bastasse, conta com o apoio de procuradores, juízes, desembargadores e ministros dos tribunais superiores. Toda essa base social que apoia o PT não foi construída da noite para o dia. E não se pode erradicar, da noite para o dia, um processo de enraizamento social e organização política estratégica de, pelo menos, três décadas.

As pesquisas de opinião sobre intenção de voto em 2018 – apesar de tudo o que aconteceu, inclusive da derrota acachapante do PT nas últimas eleições de 2016 – ainda colocam Lula em primeiro lugar. É duvidoso se Lula ficará inelegível. Os últimos sinais emitidos pelo TRF-4, a segunda instância que o julgará, não são tão animadores quanto se esperava.

Os cerca de trinta dirigentes que compõem o núcleo duro da organização política criminosa estão soltos e nem sequer chegaram a ser muito incomodados pela polícia, pelo Ministério Público ou pela justiça. Essa organização, que não foi desbaratada, segue praticamente intacta e funcionando, com alguns dirigentes homiziados no Instituto Lula e, outros, dispersos em várias organizações políticas, inclusive naquelas disfarçadas de movimentos sociais (como o MST).

O Foro de São Paulo continua organizado e seus dirigentes petistas prosseguem articulados à ditaduras e protoditaduras de esquerda mundo afora, ainda com força para defender governos autocráticos, como o de Maduro na Venezuela e de Raul Castro em Cuba, e contando, para tanto, com apoio desses países e dos chamados regimes bolivarianos da Nicarágua, da Bolívia, do Equador etc.

Ou seja, a despeito de tudo – da responsabilidade por ter montado o maior esquema de corrupção política, com objetivos estratégicos, da nossa história – o PT continua sendo a principal ameaça à democracia no país.

E o fato é que o PT, derrotado nas mídias sociais, nas ruas, no parlamento e nas urnas de 2016, se recuperou, ainda que parcialmente, dos reveses que sofreu.

A LUTA MORALISTA CONTRA A CORRUPÇÃO FOI DECISIVA PARA A RECUPERAÇÃO DO PT

Exalta-se frequentemente a operação Lava Jato como um divisor de águas. Segundo essas narrativas, repetidas ad nauseam pelos meios de comunicação e pelos analistas políticos, agora, finalmente, a lei passou a valer para todos no Brasil. Em parte isso é verdade – no que tange aos exemplos sempre citados: os dos grandes empresários presos – mas, em parte, não. Para a extensão dos escândalos, poucos políticos foram condenados e muito poucos permanecem presos (em regime fechado). De dirigentes do PT contam-se nos dedos de uma mão os que permanecem na cadeia (na verdade, como já foi assinalado, só um dirigente do núcleo duro, João Vaccari e um petista famoso, Antonio Palocci).

Para que a culpa não recaísse inteiramente sobre o PT armou-se um formidável esquema de demonização de ex-aliados petistas. Eduardo Cunha, não só por vingança (em razão de ter acatado o pedido de impeachment de Dilma), mas por frio cálculo político, foi construído como inimigo universal e responsável por todo mal que assola o país, uma espécie assim de Goldstein (do romance 1984 de George Orwell). Vale o mesmo para o processo de demonização que veio em seguida, que atingiu Michel Temer (e, em menor escala, Aécio Neves). Não que esses atores sejam mais honestos do que a média dos políticos (isso não se sabe), mas o objetivo era diluir a culpa do PT no grande oceano da corrupção que existiria no Brasil desde Cabral (o outro, não o atual, o presidiário). E enviar uma mensagem clara à população: se todos roubam, então é melhor ficar com Lula que, pelo menos, se preocupa com os pobres.

Para operar tudo isso o PT contou: a) com um esforço voluntário de seus agentes, simpatizantes ou devedores, incrustados no Estado, em especial no Ministério Público e no Supremo Tribunal Federal, e na sociedade, sobretudo nos meios de comunicação; b) com a colaboração interessada de pessoas que queriam se capitalizar politicamente a partir do marketing do combate à corrupção, como Bolsonaro – que seria o único realmente honesto; e c) com a colaboração involuntária de pessoas indignadas com a corrupção, sem vivência política e sem experiência democrática, que se mobilizaram a partir de um apelo moralista (sendo que os segundos instrumentalizaram esse sentimento generalizado de revolta e de nojo com a corrupção, visando apenas a consecução de seus propósitos).

Merece menção especial neste quadro a força-tarefa da operação Lava Jato, composta por membros da corporação dos procuradores, com uma visão pedestre de democracia, que resolveu iniciar uma cruzada de limpeza da política e que, para tanto, para dizer que não tinha lado, nem partido, passou a não fazer distinção entre a corrupção praticada pelo PT com motivos estratégicos de poder e a corrupção endêmica na nossa política tradicional, igualando Lula à Cabral, Dirceu à Cunha e Geddel à Vaccari, quer dizer, o Hezbollah ao PCC (só porque eles fazem eventualmente negócios escusos entre si).

Ao que tudo indica – mesmo com Janot desmoralizado em razão dos últimos escândalos envolvendo os espantosos benefícios concedidos ao bandido Joesley Batista em troca da sua gravação incriminadora do presidente da República e do comportamento delinquente de seus auxiliares diretos na Procuradoria Geral da República – a corporação dos procuradores não vai parar, no curto prazo, de tentar reproduzir a antipolítica robespierriana da pureza, nem abandonar o espírito jacobino, retroalimentado socialmente pelo moralismo e pelo analfabetismo democrático reinantes. Poderosos meios de comunicação – como a Globo, que se engajou desde a primeira hora na armação Joesley-Janot-Fachin – também tendem a não dar o braço a torcer e apoiarão qualquer nova armação (inclusive, no caso da Globo, para tentar se recuperar do vexame de ter participado, com tanto ativismo, da tentativa frustrada de depor um presidente constitucional, obrigando-o a renunciar em uma semana).

A questão é que tudo isso contribuiu para a recuperação do PT, que estava praticamente na lona depois das eleições de 2016. Agora o quadro ficou confuso. A impressão geral é a de que todos são corruptos, e até mais corruptos do que o próprio PT. Na sua sanha purificadora, os jacobinos foram além: plantaram a versão delirante (por intermédio de Joesley Batista) de que Temer seria o chefe da maior e mais perigosa organização criminosa do Brasil e de que Aécio Neves seria o segundo chefe criminoso mais perigoso do país.

Ao mesmo tempo, objetivamente (quer dizer, independentemente da vontade dos sujeitos), o jacobinismo fez (e continua fazendo) a campanha de Bolsonaro, com isso reforçando, pelo avesso, a candidatura de Lula (ou de outro candidato de esquerda apoiado pelo PT), para evitar o desastre de colocar o Estado nas mãos de um capitão boçal e autocrático, completamente desqualificado para o cargo..

O DESFECHO ELEITORAL

Tudo isso terá um desfecho eleitoral em 2018. O Fora Temer – seja o do PT, seja o de Janot e seus procuradores auxiliares, seja o dos jacobinos da força-tarefa da Lava Jato, seja o dos aproveitadores bolsonaristas, seja o dos moralistas, inocentes úteis manipulados por todos os anteriores – não vai parar (até outubro de 2018). Inclusive porque ele é agora mote de campanha dos que querem polarizar a eleição entre esquerda e direita, aprisionando a disputa no campo autocrático, entre Lula (ou outro candidato apoiado pelo PT) e Bolsonaro.

Ocorre que, entrementes, instituições decisivas para investigar e punir continuam aparelhadas (ou infiltradas) pela esquerda. Isso significa que, mesmo que não possa ou não queira ser candidato, dificilmente Lula será preso e o PT extinto. O Supremo Tribunal Federal, cuja maioria dos membros foi indicada por Lula e Dilma, jamais terá coragem de confirmar, em última instância, qualquer medida que varra do mapa a organização política criminosa que montou o maior esquema de corrupção, com objetivos estratégicos, da história humana. Ademais, o que restou do PSDB vai continuar, até o último momento, tentando salvar o PT (e inclusive impedir a prisão de Lula). Eles – PT e PSDB – fazem parte, cada qual a seu modo, de um processo político sintonizado com um mesmo universo mental.

Se não surgir um candidato novo e competitivo no campo democrático, a possibilidade de uma polarização Lula (ou outro candidato apoiado pelo PT) x Bolsonaro é real. A candidatura de Alckmin (ou de outro velho cacique qualquer tucano) – com pouco apelo popular – é um passo nessa direção. Se surgir, porém, um candidato novo e competitivo no campo democrático, a candidatura de Bolsonaro tem grandes chances de ser um voo de galinha (semelhante aos de Russomanno).

De qualquer modo, a cruzada contra a corrupção tende a ser refreada com a posse do novo presidente eleito em 2018, seja ele qual for. Nenhum presidente, com a legitimidade auferida nas urnas – aceitará governar (dando uma de Dâmocles) com a espada do Ministério Público pendendo sobre sua cabeça e até os moralistas darão uma trégua no exercício do seu papel de faxineiros da galáxia.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Quem vigia o Ministério Público?

Como os democratas devem apoiar a Lava Jato