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Uma classificação das forças políticas no Brasil do ponto de vista da democracia

Um resumo esquemático das categorias propostas no texto Os diferentes adversários da democracia no Brasil para uma classificação das forças políticas do ponto de vista da democracia (no sentido forte do conceito, como processo de democratização, quer dizer, de desconstituição de autocracia e não apenas no seu sentido fraco, como modelo de administração política do Estado-nação):

A – NO CAMPO DA AUTOCRACIA (ou seja, dos adversários da democracia):

A-1 – Há dois tipos de autocratas (que não aceitam a democracia):

A-1.1) os reacionários

Aqui temos os intervencionistas, os monarquistas religiosos tradicionalistas, os conspiracionistas antiglobalistas, os nacionalistas-estatistas, trumpistas alt-right e protofascistas. Como exemplos de atores políticos desse tipo: Olavo de Carvalho, os olavistas e boa parte dos fiéis bolsonaristas (ou bolsominions) e dos que se dizem da “nova direita” no Brasil pós-impeachment.

A-1.2) os “revolucionários”

Aqui temos os comunistas, marxistas-revolucionários, marxistas-leninistas, anarquistas capturados pelo marxismo e estatistas de esquerda. Exemplos: Stedile do MST, Boulos do MTST, José Maria do PSTU, Rui Costa Pimenta do PCO, Sérgio Rubens Torres, do PPL (MR8) e o Bira da Central Geral dos Trabalhadores, Edmilson Costa do PCB e a turma do MPL (incluindo os Black Blocs). Na fronteira com o neopopulismo temos os integrantes do partido ultra-oportunista PCdoB e do PSOL.

A-2 – Há dois tipos de populistas (que usam a democracia contra a democracia):

A-2.1) os populistas-autoritários

O melhor exemplo é a famiglia Bolsonaro (ainda que os bolsominions estejam na categoria A1.1, dos autocratas reacionários). Mas temos também os jacobinos e moralistas, sintonizados, em parte, com a cultura conservadora que predomina em amplos setores populares.

A-2.2) os neopopulistas

São os iliberais que usam a democracia contra a própria democracia (para enfrear o processo de democratização). Igualmente ao primeiro grupo (classificatório) temos aqui os que concorrem às eleições com o fito de tomar o poder de Estado. Mas diferentemente dos mencionados anteriormente, a via eleitoral é aqui adotada não apenas como tática e sim como estratégia principal para chegar ao governo e, a partir daí, tomar o poder. Os melhores exemplos são Lula, Dirceu, seus assessores diretos e capangas e os demais dirigentes da organização política criminosa que comanda de fato o PT, parte do movimento sindical apelegado pelo petismo oficial (sobretudo da CUT), a maioria dos jornalistas, dos intelectuais orgânicos lulopetistas (que são meio marxistas-gramscistas e tentam dar um sentido estratégico ao neomaquiavelismo realpolitik de Lula e Dirceu e aos bolivarianismos), dos setores artísticos e culturais, das organizações não-governamentais, de movimentos sociais e de minorias etc. Estão também nesta categoria, embora na fronteira, ora com os populistas não-autoritários, ora com os democratas formais, uma parte do pessoal da Rede de Marina Silva (sendo que uma parte dessa organização, minoritária, ainda namora com os autocratas “revolucionários”).

B – NO CAMPO DA DEMOCRACIA

B-1) Há dois tipos de agentes políticos que tomam a democracia no sentido fraco do conceito (como modo político de administração do Estado):

B-1.1) os populistas não-autoritários

Aqui entra boa parte (talvez a maior parte) da chamada “classe política”, composta por demagogos e políticos profissionais que fazem da política um negócio, muitas vezes escuso (mas que não têm o objetivo de autocratizar a democracia, ao contrário dos populistas-autoritários e dos neopopulistas). No meio desse tipo de populistas proliferam as organizações criminosas compostas por políticos para cometer crimes comuns (que não são a mesma coisa que a organização política criminosa estruturada para cometer crimes contra a democracia, que floresceu no campo do neopopulismo). Os exemplos são numerosíssimos e vão de meliantes como Cunha, Cabral e Geddel, passando pelos caciques tradicionais, como Sarney, Jader e Jefferson, até chegar aos administradores e operadores fisiológicos da velha política, como Temer e a direção do PMDB, do PP, de parte do PSDB etc.

B-1.2) os democratas formais

Aqui estão os liberais-conservadores e os legalistas, a maior parte dos liberais-econômicos, os ditos social-democratas (e que, na verdade, estão mais para estatal-democratas – como os tucanos de origem marxista que aderiram às ideias liberais em economia e, em menor escala, em política). Uma parte (minoritária) dos políticos profissionais também pode ser enquadrada nesta categoria, assim como alguns movimentos políticos surgidos mais recentemente para renovar a política, mas que não chegam a ser liberais no sentido político do termo e, muito menos, inovadores democráticos (categorias B-2.1 e B-2.2, examinadas abaixo). Os exemplos são muitos e vão desde um jornalista como Reinaldo Azevedo, passando por boa parte dos operadores do direito (o chamado “mundo jurídico”), pelos cientistas políticos não-marxistas ou pós-marxistas etc.

B-2) Há dois tipos de agentes políticos que tomam a democracia no sentido forte do conceito (como processo de democratização, quer dizer, de desconstituição de autocracia):

B-2.1) os liberais-políticos

São muito raros no Brasil atual (onde a maioria dos que se dizem liberais são, na verdade, conservadores). São pessoas que têm como referência Tocqueville, Mill, Dewey, Arendt, aos quais se juntaram, depois, Lefort, Castoriadis, Maturana, Sen, Rancière e vários outros e que absorveram ideias básicas como “sociedade aberta” (Karl Popper), “liberdade negativa” (Isaiah Berlin), “consenso sobreposto” (John Rawls). Exemplos: talvez uma parte do pessoal do Livres ou do Novo e de movimentos similares – como Fabio Osterman, João Amoedo, Flávio Rocha – conquanto estes sejam mais liberais-econômicos (e, assim, recaiam na categoria B1.2).

B-2.2) os inovadores democráticos

Estes são raríssimos. São pessoas que têm uma visão social da democracia, que trabalham com redes e com a lógica da abundância, que aventam ou experimentam zonas autônomas temporárias ou bolhas, os interativistas (não-participacionistas, nem assembleistas), que defendem a radicalização ou democratização da democracia na linha não-autoritária, alguns libertários não-marxistas, não-utopistas e não-economicistas, além dos pluriarquistas.

Desnecessário afirmar que as fronteiras entre algumas categorias que estão num mesmo campo não são rígidas.

E necessário dizer que a maior ameaça imediata à democracia no Brasil vem dos neopopulistas.

Para entender melhor esta classificação, aqui exposta esquematicamente, é necessário ler o artigo original: Os diferentes adversários da democracia no Brasil.

O diagrama que ilustra este post foi elaborado por Renato Jannuzzi Cecchettini


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