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Uma década de guerra civil fria pela frente, a menos que…

Uma força autocrática politicamente organizada, socialmente enraizada e portadora de uma narrativa ideológica estruturada, que chegou ao governo pelo voto, não costuma sair do governo apenas pelo voto. Uma vez chegando ao governo, ela domina a tecnologia eleitoral e aparelha as instituições da democracia formal para ganhar eleições sucessivamente e nunca mais sair do governo até que o objetivo do seu projeto seja alcançado: conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. É um projeto de dominação – que usa as eleições contra a democracia – por meio de uma guerra de posição que visa conquistar maiorias em todas as organizações do Estado, do mercado e da sociedade civil.

Mas se, por acaso, houver um processo legal capaz de remover do governo essa força autocrática (eleições, como ocorreu na Argentina ou impeachment, como está em curso no Brasil), então ela – na oposição – instaurará uma guerra civil fria de longa duração cujo objetivo é inviabilizar o novo governo e não se desconstituir como força politicamente organizada, socialmente enraizada e ideologicamente estruturada.

A menos que haja forte resistência democrática da sociedade, tanto a Argentina quanto o Brasil podem se preparar para, pelo menos, uma década de guerra civil fria. Os neopopulismos kirshnerista e lulopetista vão se refugiar nos seus bunkers e de lá moverão uma luta sem trégua contra a democracia. A guerra é funcional para esse projeto de poder: sem guerra, quer dizer, sem a prática da política pervertida como arte da guerra ou como continuação da guerra por outros meios (a famosa fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin), não há como manter coesa a força autocrática neopopulista cuja via para o poder é parasitar o regime democrático para autocratizá-lo.

No Brasil, mesmo estando fora dos governos e das empresas estatais que foram aparelhados por partidos estatistas e até dos fundos de pensão de empresas estatais, o neopopulismo se entrincheirará nos partidos estatistas, nos sindicatos, centrais e associações profissionais, nos incorretamente chamados de movimentos sociais (como MST e MTST e muitos outros, que funcionam como correias de transmissão do partido), nos meios artísticos e culturais que se beneficiaram na última década de financiamento público (via renúncia fiscal), nas ONGs que atuaram, durante o período em que o PT esteve no governo, como verdadeiras organizações neo-governamentais (financiadas com dinheiro público), nos veículos de comunicação da rede suja financiada com dinheiro público (sobretudo via patrocínio de estatais) e que agora serão financiadas por um banco em rede que foi montado com os frutos do crime (composto por contas fantasmas em nome de laranjas e de offshores no exterior), nas áreas de ciências humanas das universidades e em alguns escritórios de advocacia (que seguem a linha do falecido Consiglieri Marcio Thomaz Bastos).

Tudo isso explica porque os petistas – a não ser que queiram se suicidar, ou seja, se desconstituir como corpo orgânico – não podem mesmo aceitar a solução constitucional do impeachment, assim como não aceitariam passivamente um revés eleitoral em 2018 (como os kirshneristas não aceitaram a derrota para Macri e vão infernizar a sua vida até que ele caia). Eles são uma espécie de organismo social que só pode sobreviver e proliferar (recrutar mais militantes e se reproduzir) num ambiente de guerra.

Por isso o impeachment está sendo narrado como golpe. Uma eventual (e mais improvável) cassação no TSE também seria qualificada como golpe. Qualquer procedimento constitucional que fosse capaz de interromper extra-eleitoralmente a marcha de uma força autocrática neopopulista para o poder, teria que ser apresentada como golpe. A narrativa do golpe é uma preparação necessária para o revide, de preferência nas próximas eleições (quando esperam que “o povo” corrija a injustiça), mas o propósito central dessa narrativa é continuar, mesmo fora do governo, o processo de recrutamento e enraizamento em todas as organizações em que isso for possível e fornecer o cimento ideológico capaz de manter coesa a força orgânica neopopulista.

O impeachment não vai resolver a questão. Porque estamos diante, na verdade, de agentes da guerra fria, de contingentes de combate que só sobrevivem em um mundo dividido em lados, para os quais o muro de Berlim ainda não caiu. Sob um novo governo, eles vão continuar combatendo os inimigos de classe. Vão tentar, por todos os meios, legais e ilegais, inviabilizar qualquer presidente que não seja do “seu lado”. Vão apresentar, se for possível, outros cinquenta pedidos de impeachment (como os que já apresentaram de 1990 a 2002, os quais nunca foram e agora também não serão encarados como golpe). Vão tentar tumultuar a política e arruinar a economia. Sobretudo vão atentar contra a chamada paz social, com paralisações, greves, bloqueios em estradas, sabotagens… enfim: para eles não é – nunca foi – política (democrática) e sim guerra mesmo. Não há como negociar com eles, não há como levá-los no bico, não há como incluí-los em alianças amplas de salvação nacional. Eles podem até aceitar taticamente participar dessas iniciativas, mas apenas para acumular forças e para, no fundo, dificultar e destruir por dentro as forças que consideram inimigas.

Não adianta nem mesmo extinguir legalmente o PT (embora isto talvez vá ser necessário, diante dos milhares de crimes cometidos por esse partido) e os demais partidos estatistas seus aliados. Eles se reagruparão em outras agremiações legais, informais ou clandestinas, se refugiarão novamente em sindicatos, associações e movimentos sociais, montarão núcleos de resistência nas universidades, ONGs e escritórios de advocacia (enquanto administram centenas de milhões de reais provenientes da corrupção sistêmica e centralizada que praticaram nos últimos 13 anos). O único processo capaz de, no médio prazo (e deve-se considerar aqui um horizonte de duas décadas ou de uma geração), desconstituir uma força autocrática politicamente organizada, socialmente enraizada e ideologicamente estruturada, é romper os laços que a constituem como corpo orgânico, extraí-la das organizações em que se incrustou e desconstruir as narrativas ideológicas que engendrou. Se isso for feito apenas de fora para dentro, não é trabalho de um dia, nem mesmo de uma década. A menos que haja uma formidável fermentação na sociedade que comece a expelir esse corpo estranho, produzindo anticorpos suficientes em todos os espaços públicos e privados (das universidades às instituições estatais, das ONGs e movimentos sociais às empresas e aos meios de comunicação).

A menos que haja essa fermentação social persistente e resiliente, como ambiente favorável ao crescimento de uma oposição popular que exerça cotidianamente a resistência democrática – ou um movimento interno de desconstituição dessa força (até agora um hipótese remota) – o mais provável é que a próxima década seja de guerra civil fria no Brasil. A menos que…

Esse ‘a menos que…’ é a esperança dos democratas. A irresistível emergência, no dealbar deste século 21, de uma sociedade-em-rede, conspira contra os planos novecentistas dos projetos neopopulistas e descredencia os comportamentos políticos estatistas que lhe dão base. A maioria das pessoas não quer mais saber de pertencer a rebanhos, não quer mais seguir líderes, não quer mais vestir camisas de clubes hierárquicos, não quer mais que a sociedade seja dominium do Estado e não confia mais no velho sistema político apodrecido como intermediário das suas aspirações, como estamos constatando desde as manifestações de junho de 2013 e, sobretudo, nos enormes enxameamentos sociais de 2015 e 2016.

Em outras palavras, a nossa esperança está na vitalidade da rede social.


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