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Uma fatwa bolsonarista para comandar e controlar o rebanho dos fiéis

Leiam abaixo a mensagem que um amigo recebeu no WhatsApp. Corrigi os erros de português – de grafia, de pontuação e de concordância – para ficar legível. Comento abaixo, ponto por ponto, esse tipo de salve jihadista (uma verdadeira fatwa contra os infiéis).

DIREITA VOLVER!

Nós, cidadãos de bem, conservadores e eleitores de Jair Bolsonaro precisamos continuar engajados no projeto de direita do país, mas para isso é fundamental entender algumas premissas básicas:

1. O governo não é perfeito… vai errar… a diferença é que é honesto.

2. Os ministros vão divergir… isso é normal… toda unanimidade é burra.

3. O presidente vai voltar atrás toda vez que sentir que errou… isso se chama humildade.

4. O partido do presidente nem sempre concordará com as propostas… isso é democracia.

5. A grande mídia foi derrotada nas eleições… vai criticar sempre e vai procurar desconstruir a imagem do presidente e de seus ministros… podem acostumar… serão 4 anos de braço de ferro.

6. A esquerda está de mudança para o Nordeste, onde montará sua plataforma de enfrentamento junto à população mais carente e desinformada do país. Muitas crises surgirão de lá.

7. Sempre haverá um “especialista” convocado para os programas de TV descendo a lenha na direita, mentindo descaradamente.

8. Vai demorar para derrotar os comunistas que mamavam nas tetas gordas dos governos petistas. Precisamos continuar unidos e saber que a guerra será de longo prazo… provavelmente uma geração… 25 anos.

Isto posto, vamos parar de cair na corda de bombas plantadas por esquerdistas diariamente na imprensa e apoiar cada vez nosso presidente e seu projeto.

Vamos ter que ser inteligentes, ativos e corajosos e principalmente FIÉIS aos nossos princípios.

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!

Vamos agora comentar cada frase.

Antes, porém, uma observação preliminar. O método de mobilização bolsonarista já é conhecido.

O mesmo amigo que me repassou a mensagem acima já havia me alertado há alguns dias que os grupos de bolsonaristas no WhatsApp continuam a toda. Respondi que os desdobramentos disso podem ser trágicos. O bolsonarismo não é um fascismo (e sim um populismo-autoritário), mas é fascistoide. Os grupos do WhatsApp podem se transformar em milícias e não apenas para efeitos de “guerra cultural”. Aliás, quem tem dúvidas de que as milícias (as verdeiras e violentas milícias, compostas por agentes criminosos das forças de segurança) apoiam Bolsonaro?

Mídias como o WhatsApp e o Telegram são anti-rede (distribuída): permitem uma centralização (a rigor uma descentralização) da rede, numa topologia de árvore, na qual só alguns hubs, comandáveis por um ou poucos hubs-centrais, têm acesso aos grupos secretos. Sim, no WhatsApp todos os grupos são fechados ou secretos (não há um site onde se possa vê-los, nem sequer saber que eles existem) e não têm conexões horizontais entre si; são clusters com pouquíssimos atalhos, que verticalizam o tecido social e o fragmentam em miríades de células: seria uma mídia ideal para organizações descentralizadas – não distribuídas – como uma Al-Qaeda.

Veja-se o que seria uma topologia de rede (distribuída, no caso do diagrama da direita), segundo o esquema desenhado por Paul Baran (1964):

Agora veja-se a topologia de árvore (que corresponde, topologicamente, ao diagrama do meio na figura acima):

Aliás, o WhatsApp é usado de forma militante para travar guerras, inclusive no terreno de mídias sociais propriamente ditas, como o Facebook e o Twitter. Quando você vê que o campo de comentários de um post foi invadido por legiões de jihadistas, pode saber que essa interação foi manipulada. Há uma combinação prévia do ataque, feita em grupos do WhattsApp sob comando. Esses WhatsApp-Haters, agem e pensam sob comando.

Passemos agora ao salve bolsonarista.

DIREITA VOLVER!

O título já é estranho. É um comando militar, de ordem unida. A palavra volver significa que a tropa estava, supostamente, olhando ou marchando para a esquerda e agora vai olhar e marchar para a direita?

Nós, cidadãos de bem, conservadores e eleitores de Jair Bolsonaro precisamos continuar engajados no projeto de direita do país, mas para isso é fundamental entender algumas premissas básicas:

“Cidadãos de bem, conservadores e eleitores de Jair Bolsonaro” significa que os que não são conservadores e não apoiaram Bolsonaro não são “cidadãos de bem”? Esses “cidadãos de bem” seriam os que estão “engajados no projeto de direita do país” (esse projeto é “do país”?). Ou seja, a direita – no caso, a extrema-direita reacionária (que não é a mesma coisa que a direita liberal conservadora que aceita a democracia: isso chega a ser uma ofensa aos verdadeiros conservadores) – é o bem. Quem não for de direita (a mente rude do robô humano bolsonarista concluirá prontamente), é de esquerda, portanto, “do mal”. O mundo está irremediavelmente dividido apenas em dois polos: a extrema-direita x a esquerda, o bem x o mal.

1. O governo não é perfeito… vai errar… a diferença é que é honesto.

Não se sabe ainda se este governo é honesto, a julgar pelo seu presidente e pelos seus filhos. Temos casos não explicados de apropriação privada de recursos públicos, como o da Valdirene do Açaí e o do Fabrício Queiroz. Aliás, Flávio Bolsonaro pediu ao STF (no que foi atendido pelo ministro Fux) para interromper as investigações das irregularidades ou crimes de Queiroz, solicitando, inclusive, a invalidação das provas. E isso depois de afirmar que tinha todo interesse no esclarecimento das movimentações suspeitas do seu assessor, motorista e amigão do peito da família Bolsonaro e do cheque inexplicável que foi parar na conta da primeira-dama.

Essa história de um suposto empréstimo de Bolsonaro a Queiroz é a coisa mais escandalosamente falsa que poderia ser inventada. Não há registro de movimentação financeira do emprestador para o tomador, não há nada. Sinceramente, como as pessoas podem fingir que acreditam nisso? Ele levou a dinheirama numa sacola de supermercado que entregou para Queiroz no estacionamento do shopping? Se não foi ele, quem levou então? E por que o tomador não devolveu também em espécie e sim em depósito bancário? E por que Queiroz depositou a devolução do empréstimo na conta da mulher de Bolsonaro? Ele, Bolsonaro, não tinha tempo de ir na agência? Mas por que uma pessoa precisa ir fisicamente ao banco para receber um depósito?

Jair Bolsonaro jamais respondeu a nenhuma dessas perguntas. E seu filho, Flávio Bolsonaro, recorreu ao STF para não responder a uma pergunta básica: por que seus funcionários depositavam regularmente dinheiro na conta de Queiroz?

2. Os ministros vão divergir… isso é normal… toda unanimidade é burra.

Vão divergir? Ora… então por que os que não são ministros e nem pertencem ao governo não podem também divergir do governo? Por que, quando divergem, são chamados de comunistas traidores?

3. O presidente vai voltar atrás toda vez que sentir que errou… isso se chama humildade.

Não se chama humildade e sim incompetência e despreparo para o cargo. Um presidente pode errar, mas não quase todo dia, às vezes mais de uma vez num só dia.

4. O partido do presidente nem sempre concordará com as propostas… isso é democracia.

Ótimo. Se o próprio partido do presidente pode discordar dele, por que não os partidos de oposição? O teor da mensagem, no seu conjunto, é o de que as oposições são contrárias ao país e não seriam necessárias numa democracia. A oposição seria composta por infiéis.

5. A grande mídia foi derrotada nas eleições… vai criticar sempre e vai procurar desconstruir a imagem do presidente e de seus ministros… podem acostumar… serão 4 anos de braço de ferro.

Essa demonização da “grande mídia” é típica das forças políticas antidemocráticas e dos governos autoritários. A atitude bolsonarista é exatamente a mesma atitude petista. Não é verdade que a mídia foi derrotada nas eleições só porque expôs a folha corrida e as contradições do candidato Bolsonaro (como era mesmo o seu papel fazer). A imprensa tem de criticar os governos numa democracia. A mensagem prevê uma guerra (“braço de ferro”) entre o presidente (ou o governo) e a mídia durante todo o mandato (“serão 4 anos…”).

6. A esquerda está de mudança para o Nordeste, onde montará sua plataforma de enfrentamento junto à população mais carente e desinformada do país. Muitas crises surgirão de lá.

No Brasil não existem apenas os bolsonaristas (direitistas) e os petistas (esquerdistas). A maioria esmagadora da população não é uma coisa nem outra. Ademais, a grande maioria dos 39% que votaram em Bolsonaro o fez porque queria renovação, não queria a volta do PT, estava atemorizada com a escalada da insegurança e revoltada com a corrupção. Essa maioria eleitoral (longe de ser a maioria da população ou mesmo dos eleitores) não é composta por bolsonaristas (que devem somar mais ou menos 10% dos 58 milhões que votaram em Bolsonaro, sendo que 90 milhões não votaram).

7. Sempre haverá um “especialista” convocado para os programas de TV descendo a lenha na direita, mentindo descaradamente.

Por que criticar a extrema-direita bolsonarista (pois que direita liberal não é) é mentir descaradamente? Por acaso essa extrema-direita nunca fará nada que mereça críticas ou deveria ser imune a críticas numa democracia?

8. Vai demorar para derrotar os comunistas que mamavam nas tetas gordas dos governos petistas. Precisamos continuar unidos e saber que a guerra será de longo prazo… provavelmente uma geração… 25 anos.

Os bolsonaristas nunca dizem quem são estes “comunistas que mamavam nas tetas dos governos petistas”. O PT saiu do governo, por força do impeachment, no início de 2016. Houve depois o governo Temer, que não era comunista, nem manteve petistas em cargos de direção. Os bolsonaristas querem que acreditemos que todos que não apoiam Bolsonaro são comunistas (e corruptos). Neste parágrafo fica claro que os bolsonaristas não estão cogitando de política democrática e sim de guerra contra inimigos (e inimigos são todos os que não estão do lado de Bolsonaro e do bolsonarismo): “a guerra será de longo prazo”. O bolsonarismo precisa da guerra – ou da perversão da política como guerra – para sobreviver. E os bolsonaristas estão imaginando que ficarão no poder por “uma geração… 25 anos”.

Isto posto, vamos parar de cair na corda de bombas plantadas por esquerdistas diariamente na imprensa e apoiar cada vez nosso presidente e seu projeto.

Quer dizer que todos que criticam o governo Bolsonaro e o bolsonarismo são esquerdistas? Não existe mais um centro democrático no país? Aqui há um chamamento para que os fiéis apoiem “cada vez mais nosso presidente e seu projeto”. Quer dizer que esse projeto não é da sociedade brasileira, não é do país e sim do líder?

Vamos ter que ser inteligentes, ativos e corajosos e principalmente FIÉIS aos nossos princípios.

De quais princípios se trata aqui? Não conhecemos nenhum princípio político considerável, nem mesmo as propostas, do projeto de Bolsonaro – por que ele passou toda a campanha e não disse. É um chamamento aos fiéis, contra os infiéis.

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!

Claro que, no final, só poderia aparecer o lema nacionalista (estatista em termos políticos), tradução remedada do América First trumpista e contrário ao Estado laico. O Estado-nação brasileiro não está acima de tudo, sobretudo não está acima da sociedade (que não é seu dominium). Deus – e qual deus, o de Trump? – só estará acima de todos os que acreditarem nele (e que acreditarem num deus hierárquico, a rigor estranho à mensagem de Jesus de Nazaré, pois o deus dos Evangelhos, o Espírito Santo, está no meio de nós e não acima de nós). Um governo numa democracia não pode erigir um deus acima das pessoas que têm outros deuses ou que não acreditam em deuses.

Enfim… a mensagem deixa claro que o governo atual não se destina a todos os brasileiros e sim aos fiéis de uma seita, que é comandada e controlada, via WhatsApp e outras mídias, pelos pastores ou condutores de rebanhos do staff de Bolsonaro.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Versão conceitual da declaração ‘Paixão pela liberdade, resistência sem guerra e inovação democrática’

Conservadores x inovadores não é a mesma coisa que reacionários x revolucionários