in ,

Uma leitura indispensável para quem quer aprender democracia

Publiquei – aqui no site Dagobah, em 17 posts – o livro inteiro de I. F. Stone (1988), O Julgamento de Sócrates, tradução brasileira de Paulo Henriques Britto, do original em inglês The Trial of Socrates, publicada pela Editora Schwarcz (São Paulo: Companhia das Letras, 2005).

Por que estou de acordo com a interpretação de Isidor Feinstein Stone (1988) no seu livro O Julgamento de Sócrates?

Porque ela bate com tudo que li, nos últimos 47 anos, sobre a filosofia grega (comecei em 1972, com o Teeteto de Platão, o que tive que fazer em grego – ainda que eu trapaceasse na cara dura com o francês de uma edição bilíngue da Belle Lettres, se não me falha a memória).

A visão de Stone bate também com a dos autores que lograram captar o genos da democracia, em especial com a de Hannah Arendt (1950-59) em O que é política?, mas também com a de Cornelius Castoriadis (1980-1986), nos seus famosos seminários Sobre O Político de Platão.

Bate, igualmente, com as considerações de Humberto Maturana (1993) sobre a democracia, inseridas no seu fabuloso Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano (escrito em parceria com Gerda Verden-Zöller).

Bate, ainda, com o primeiro volume de A sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper (1945), onde fica claro o caráter totalitário das ideias platônicas.

E bate com minhas próprias visões sobre a democracia (contidas em alguns livros que publiquei e cursos que venho ministrando sobre o assunto desde 2007) e com as investigações, ainda em curso, sobre os sofistas, baseadas em múltiplas leituras – sobretudo com as que tive acesso através de W. K. C. Guthrie (1969) e de G. B. Kerferd (1981).

E, por fim, bate com as minhas reflexões sobre uma abordagem social da democracia (a partir da descoberta das relações de condicionamento recíproco entre democracia como modo de regulação e as redes distribuídas como padrão de organização).

É curioso que Stone tenha chegado à conclusões semelhantes às que cheguei percorrendo outros caminhos. Acho que é uma evidência de que ele encontrou aquele DNA da democracia que muitos cursos acadêmicos de ciência política não conseguem captar. Por isso considero a narrativa de Izzy Stone como fundamental para quem quer iniciar qualquer estudo sério sobre a democracia.

Para quem não gosta de política, a leitura de O Julgamento de Sócrates de I. F. Stone (1988) também é recomendável. Platão e seu Sócrates também não gostavam. Stone escreve:

“Podemos estabelecer três períodos. No primeiro, a era dos pré-socráticos, os filósofos nem sequer se davam conta da extraordinária liberdade de que gozavam e por isso não se davam ao trabalho de analisá-la, quanto mais de defendê-la.

Isso e notável, porque os pré-socráticos foram os primeiros livres-pensadores. Eles abalaram as fundações da religião, tanto da moderna quanto da antiga, e suas formulações arrojadas constituem a base sobre a qual se assentam 2500 anos de especulação filosófica. No entanto, sua liberdade de expressão era irrestrita.

No segundo período, que podemos denominar de socrático-platônico, os filósofos gozavam da liberdade de expressão, porém julgavam que os outros não faziam jus a ela. Sócrates, em particular, parecia não questionar sua liberdade de expressão – ele a merecia devido a sua superioridade, ainda que a ocultasse por trás de sua “ironia”.

No terceiro período, com o fim da liberdade política sob o domínio macedônio e posteriormente romano, os filósofos de modo geral recolheram-se a seus mundos individuais, tornando-se indiferentes à política, como os deuses distantes e eternamente felizes de Epicuro e Lucrécio”.

Este é um tema importante no programa Novos Pensadores. Estamos conversando sobre o assunto há quase um ano. De um modo geral, os que foram chamados de filósofos (na tradição pitagórico-platônica) não gostavam de política (e, portanto, eram adversários da democracia). Queriam viver nos seus clusters de sábios, arrogando-se direitos acima dos demais. Queriam sodalícios de seres mais puros, mais retos e mais perfeitos porque, supostamente, sabiam mais.

Toda a nossa história universitária ocidental tem como raiz a separação entre sábio e ignorante, uma separação de corpos que vigia não apenas entre a universidade e a cidade, mas dentro da própria instituição (docente x discente).

Toda academia tem raiz platônica. Na verdade, não nasceu para promover, como se diz hoje, o “progresso da ciência” e sim a prevalência da filosofia (da qual eram possuidores os doutores que compunham seus tribunais epistemológicos) sobre a ciência. O que foi a escolástica (cujo sentido literal é “propriedade da escola”) senão isso? E quando foi que superamos a escolástica? Nunca, a rigor, embora no século 17 – não por acaso na época em que os modernos reinventaram a democracia – uma janela se abriu, uma brisa fresca soprou e só então retomou-se o tipo de abordagem investigativa livre que foi experimentada pelos (incorretamente) chamados filósofos pré-socráticos e pelos sofistas (maltratados pelos filósofos). Estes, sim, foram os primeiros cientistas, não os platônicos e seus seguidores. Não é por acaso que eles só tenham podido florescer com a liberdade de expressão própria da democracia.

Sobre isso, aliás, Humberto Maturana tem uma excelente reflexão. Ele desenvolveu uma visão muito particular das diferenças entre ciência e filosofia. Escreveu um tópico sobre isso justamente no capítulo dedicado à democracia do seu texto seminal Conversações Matrísticas e Patriarcais, que compõe a primeira parte do livro, em coautoria com Gerda Verden-Zoller (1993), já citado acima (Amar e Brincar: Fundamentos esquecidos do humano, traduzido e publicado no Brasil pela Palas Athena Editora, São Paulo: 2009).

Para Maturana, ciência e filosofia são “duas formas diferentes de pensar e lidar com o mundo da experiência”. Vale a pena prestar atenção ao seu argumento, ainda que, para tanto, seja necessário ler o texto todo e não apenas o trecho que reproduzi no artigo As diferenças entre filosofia e ciência e a democracia.

O fato é que a tradição pitagórico-platônica é antidemocrática, não aceita a liberdade de expressão para todos, não aceita que a opinião (doxa) tenha qualquer valor diante do conhecimento (episteme). O DNA da academia é anticientífico porque é antidemocrático. Talvez por isso, os professores e alunos da chamada ciência política tenham alguma dificuldade de captar a essência da democracia.

Aos interessados no assunto recomendo vivamente a leitura do livro. Podem começar pelos links abaixo:

Prefácio: como este livro veio a ser escrito

Prelúdio

1 – As divergência básicas

2 – Sócrates e Homero

3 – Uma pista no episódio de Tersites

4 – A natureza da virtude e do conhecimento

5 – A coragem como virtude

6 – Uma busca inútil: Sócrates e as definições absolutas

7 – Sócrates e a retórica

8 – O ideal de vida: a terceira divergência socrática

9 – Os preconceitos de Sócrates

10 – Por que esperaram tanto?

11 – Os três terremotos

12 – Xenofonte, Platão e os três terremotos

13 – O principal acusador

14 – Como Sócrates fez o possível para hostilizar o juri

15 – Como Sócrates poderia facilmente ter obtido a absolvição

16 – O que Sócrates deveria ter dito

17 – As quatro palavras

18 – A questão final

19 – Epílogo: teria havido uma caça às bruxas em Atenas?

Para quem está disposto a fazer uma leitura mais profunda do livro de Stone estou preparando um curso online de 10 semanas para uma turma pequena, com questões provocativas sobre cada capítulo (incluídos o prefácio, o prelúdio e o epílogo) e indicações complementares de estudo.

A ideia é começar no final de março (no mais tardar abril) de 2019.

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Não houve caça às bruxas – O Julgamento de Sócrates de I. F. Stone – 17

Clipping de 24/02/2019 – A intervenção militar legal no Brasil