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Uma teonomia totalitária fundamentalista cristã-militar

A culpa pela ascensão de ideologias antidemocráticas, como as de Olavo de Carvalho e dos bolsonaristas, é – em grande parte – do PT

Mais uma altercação agora, na Jovem Pan, entre Marco Antonio Villa e Felipe Moura Brasil, justamente sobre Olavo de Carvalho. Felipe, é claro – olavista de carteirinha – tomou logo as dores do autocrata religioso (e ficamos nos perguntando onde os antagonistas Diogo e Mario estavam com a cabeça para contratar um tipo como este). Claro que Olavo e seu seguidor Felipe são bolsonaristas também. Boi preto cheira boi preto.

O incrível disso tudo não é que existam um Olavo e um Bolsonaro. Nas democracias esses tipos fronteiriços sempre remanescem, à margem da opinião pública (seja à esquerda, como um Partido da Causa Operária ou, à direita, como uma TFP – Tradição, Família e Propriedade). O inacreditável é que, no Brasil atual, existam contingentes razoáveis de pessoas mesmerizadas por eles. É um indicador (inverso) de democracia (sobretudo de cultura política) a audiência desses malfeitores ideológicos.

A responsabilidade maior por isso é do PT. Depois de trinta anos colonizando consciências nas escolas e universidades, nos meios artísticos e culturais, nos sindicatos e movimentos sociais, nas ONGs, nos meios de comunicação e em todo lugar, o PT gerou uma rejeição que forneceu a base para a proliferação de um pensamento que já não se poderia dizer conservador, senão retrógrado (ou retrogradador). Aproveitadores, como Olavo e Bolsonaro, apenas surfaram na onda da insatisfação com o hegemonismo petista.

E aí floresceu uma pauta enferma, dita da “nova direita”, baseada na defesa dos valores de uma (imaginária) civilização ocidental cristã (ou judaico-cristã) e na volta ao nacionalismo contra a conspiração globalista bancada por capitalistas como Soros, os Clinton e outros membros do Clube de Bilderberg em aliança (ou convergência) com o comunismo internacional, no estímulo ao armamentismo popular, na proposta de intervenção estatal no ensino escolar (para coibir a doutrinação comunista e o proselitismo partidário da esquerda em sala de aula), na defesa do controle estatal da expressão artística, na redução da maioridade penal e, é claro, no velho anticomunismo (ainda na vibe da guerra fria). A isso se juntou a defesa incondicional de Trump (um inexplicável trumpismo caboclo), do Brexit e a paranoia com a invasão islâmica.

A questão é que tudo isso isso é iliberal, mas não é nem populismo (que, na atualidade, revelou-se o mais comum adversário da democracia). É ainda mais retrógrado.

Com efeito, Olavo não é populista, é um autocrata típico, como aqueles de manual. Olavo é muito mais perigoso para a democracia do que os olavistas (que não sabem da missa a metade). Quando ele diz que não há democracia no céu, os babacas que o seguem aplaudem porque não percebem o caráter maligno dessa ideia-implante. Vejamos algumas pérolas do pensamento de Olavo:

Não é nem necessário comentar.

Já Bolsonaro, sim, é um populista-autoritário, mas – atenção – os bolsonaristas não. Os bolsonaristas são muito mais perigosos para a democracia do que Bolsonaro (que é apenas um oportunista eleitoreiro que viu que dava voto no Rio de Janeiro dizer que bandido bom é bandido morto e aproveitou esse tipo de marketing cafajeste para acumular sete mandatos consecutivos e empregar toda a família na política – tirando ainda uma com a gente ao se apresentar como não-político).

Um mundo construído por Olavo e pelos bolsonaristas seria uma distopia das mais apavorantes, capaz de matar de inveja Margaret Atwood (1985), autora de The Handmaid’s Tale, que desenha um futuro sob o jugo de uma teonomia totalitária fundamentalista cristã-militar. O romance virou uma interessante série de televisão estadunidense, criada por Bruce Miller (2017). Vale a pena assistir.


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