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Vem Pra Rua e MBL na encruzilhada da democracia

Dois tipos de movimentos de rua convocaram o impeachment de Dilma Rousseff:

a) os olavistas, intervencionistas, monarquistas e bolsonaristas (que foram muitos – todos autocráticos, quer dizer, sem compromisso com a democracia como um valor – e agora desembocam, em sua imensa maioria, na candidatura de Bolsonaro);

b) os não-olavistas, não-intervencionistas, não-monarquistas e não-bolsonaristas (como o VPR e o MBL, que ainda não encontraram um candidato presidencial viável).

Mas as grandes manifestações de 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto de 2015 e de 13 de março de 2016, que constelaram multidões em todo o Brasil, foram feitas pelas pessoas, uma-a-uma, comovidas por uma insatisfação difusa com o governo Dilma, não por esses movimentos. Todos esses grupos convocaram (e com isso ajudaram a desencadear os eventos), mas não organizaram e lideraram propriamente os protestos, quer dizer, não causaram o que ocorreu (e que, se não tivesse ocorrido, Dilma e o PT ainda estariam nos governando). Isso não desmerece o imenso (e correto) trabalho que tiveram o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre. Apenas elucida que os fenômenos de alta interatividade que ocorrem nas sociedades contemporâneas não podem mais ser industriados, organizados e conduzidos por pequenos ou grandes grupos, como ocorria nas manifestações políticas anteriores.

Deposta Dilma, não há mais qualquer laço que ligue esses dois tipos de grupos (para simplificar: os bolsonaristas e os não-bolsonaristas). Se eles já não tinham unidade programática e ideológica antes, agora então passaram a se confrontar, não raro, como forças políticas opostas.

O que os uniu – ou melhor, o que ensejou que caminhassem juntos – foi a oposição ao governo anterior (já que os partidos que deveriam fazê-lo, se omitiram, foram vacilantes, lenientes e coniventes). Predominou uma espécie de pauta tácita que consistia em três pontos: impeachment de Dilma, prisão de Lula e extinção do registro partidário do PT (basta olhar os cartazes e faixas levados às ruas pelos manifestantes para comprovar).

O que fez as pessoas saírem de suas casas, atendendo às convocações para se manifestar contra o governo, foi um emocionar de repulsa à situação. Sem esse emocionar generalizado (que vem antes do racionalizar) não teriam ocorrido os swarmings civis que assistimos. E nada teria dado certo. Nas alterações profundas dos fluxos interativos da convivência social, o emocionar é tudo (não a escolha racional).

O antipetismo, porém, não é suficiente para dar unidade alguma a grupos tão díspares. Descobriu-se que havia um antipetismo instrumental e antidemocrático, que queria apear o PT do poder para colocar no lugar um outro tipo de populismo-autoritário, capitaneado pelo oportunista-eleitoreiro Jair Messias Bolsonaro (e também, embora minoritários, havia grupos que queriam a volta da ditadura militar ou a instalação de uma monarquia-conservadora e salvacionista, delirando numa espécie de “Brasil Paralelo”).

E que havia um antipetismo democrático, um tanto vago, que não queria usar as pessoas para seus próprios objetivos de poder, nem violar a Constituição, mas não tinha um foco político claro. Dentre estes:

a) alguns centraram sua pauta no combate à corrupção (aderindo, pelo menos em parte, ao antitemerismo militante e sendo, objetivamente, caudatários do restauracionismo jacobino, dos que queriam reformar a política sem política, de certo modo pela antipolítica, a partir de estamentos-corporativos do Estado – sobretudo para não perder audiência popular, sabedores de que a maioria da população não suportava mais a corrupção),

b) enquanto que outros queriam liderar uma alternativa dita de direita, liberal na economia e conservadora nos costumes (estes últimos disputando com os bolsonaristas a hegemonia sobre as massas indignadas com o status quo, sobretudo com a corrupção, mas também com o aparelhamento do Estado, a doutrinação marxista nas escolas e universidades, o progressismo e a ditadura do politicamente correto impostos pelas elites de esquerda e, desgraçadamente, passaram também a incorporar algumas pautas insanas como o armamentismo popular, que é diferente de defender o direito das pessoas de terem uma arma).

Não tendo dado certo o Fora Temer (que nunca contou com o apoio do povo), não tendo sido aprovadas as tais 10 medidas dos procuradores da Lava Jato contra a corrupção e, muito menos, as pautas conservadoras propostas pela outra vertente do segundo tipo (os bolsonaristas, para simplificar), esses grupos (não-bolsonaristas, idem) enveredaram pelo caminho tradicional de lançar seus próprios candidatos às próximas eleições; nada contra, mas observe-se que (a não ser durante o breve momento da prisão de Lula) eles nunca mais se juntaram para tentar desencadear grandes manifestações que apontassem uma saída democrática para a crise política (que, queiram ou não, passa pelas eleições de 2018).

Agora, porém, há uma chance de convergência dos grupos do segundo tipo (que não são bolsonaristas ou antidemocráticos), em torno de uma pauta reformista e da iniciativa de articulação de um polo democrático que evite o cenário do horror: um estatista-neopopulista (dito de esquerda) x um estatista-populista-autoritário (dito de direita).

Vamos ver se isso será possível. Com a palavra o VPR e o MBL. E eles estão sendo chamados (pela história, se isso existisse) a se posicionar, inclusive porque, enquanto ambos ziguezagueavam, crescia subterraneamente – como vimos no recente caminhonaço – uma nova base social para aventuras autoritárias, composta por elites econômicas do Brasil profundo que estão trocando suas representações políticas tradicionais num sentido que não tem nada de liberal em termos políticos (ou seja, de democrático).

VPR e MBL estão diante da bifurcação. Sem querer encontram-se agora na encruzilhada da democracia.


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