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Virou um imperativo democrático impedir a manipulação hierárquica das mídias sociais

Volto mais uma vez ao assunto. O assunto é: as mídias sociais estão sendo usadas contra as redes sociais. No plano global, contra a emergência de uma sociedade-em-rede. No plano local, no caso, dos países, contra um suposto globalismo e a favor de projetos populistas (ditos de esquerda ou de direita) que, objetivamente, têm por propósito enfrear processos de democratização.

Já tratei do tema nos seguinte artigos (meus ou reproduzidos por mim) (*).

É MAIS GRAVE DO QUE PARECE

As mídias sociais (no Brasil incorretamente chamadas de redes sociais) são chamadas de ‘sociais’ porque são interativas. Ao contrário da mídia tradicional, em que as mensagens são enviadas num padrão um-para-muitos (ou seja, broadcasting) e há emissor (ativo) e receptor (passivo), nas mídias sociais as pessoas tanto recebem quanto emitem mensagens e, o que é mais importante, interagem: não apenas replicam as mensagens recebidas, mas comentam, corrigem, modificam e, fundamentalmente, podem conversar entre si (havendo possibilidade de debate, réplica, tréplica – esta última um excelente indicador de interatividade).

Não é isto, todavia, o que vem acontecendo com a mídias sociais nos últimos anos. Usuários, em geral organizados em grupos privados e protegidos da interação fortuita, com o outro-imprevisível, enviam mensagens para serem replicadas, num fluxo descendente com topologia de árvore, não de rede mais distribuída do que centralizada. Ou seja, as mídias sociais estão sendo usadas para o que vamos chamar de ‘broadcasting privado de replicação’ quase mecânica. Uma pessoa emite uma mensagem para um certo número de hubs que, por sua vez, replicam a mensagem original para outros (sub-hubs, digamos) e assim sucessivamente ampliando o broacasting. Não há conversa, não há debate, não há réplica nem tréplica e sim simples alinhamento. As pessoas localizadas nos diversos ramos dessa árvore viram meras estações repetidoras. Uma das mídias mais usadas para esse tipo de operação é o WhatsApp (e também o Telegram), pois essas tecnologias permitem a formação de grupos secretos, sem qualquer interação horizontal entre si (clusters sem atalhos) e não há nem um site onde se possa visualizar os diferentes grupos existentes, que são ligados apenas por cima (e para baixo). Cada pessoa convertida em estação repetidora manda a mesma mensagem para os seus grupos. Pessoas desses grupos repetem a mesma operação e é assim que se realiza o broadcasting privado de replicação. Usando o WhatsApp dessa maneira, um pequeno grupo de pessoas pode fazer um (incorretamente) chamado “meme” ter milhares de compartilhamentos no Facebook ou uma hashtag subir para os TT no Twitter em poucas horas (ou até minutos).

Quando isso acontece, as mídias sociais deixam de ser propriamente ‘sociais’ (muitas vezes, dependendo das mensagens adversariais ou de ódio que são replicadas, antissociais) e passam a ser instrumentalizadas como uma mídia tradicional piorada. E piorada porque os receptores-replicadores das mensagens não podem nem verificar a autenticidade dos conteúdos, nem podem protestar ou reclamar nada num espaço público.

As mídias sociais assim manipuladas promovem uma privatização da esfera pública de opiniões, fragmentando-a em miríades de ilhas privadas de informação e, pior, de comunicação. Isso altera a configuração da rede social (a verdadeira rede social, quer dizer, as pessoas interagindo, não as ferramentas), provocando uma deformação no espaço-tempo dos fluxos. Em vez de ser igualmente atingido por ondas transparentes, esse meio torna-se discreto (no sentido físico do termo), vira um campo pontilhado por partículas ou pequenas esferas opacas em torno dos indivíduos, no limite transformando as pessoas em indivíduos vulneráveis ao fluxo vertical descendente mas incapazes de se modificar horizontalmente pelos seus pares (o que é a definição de pessoa, em termos de rede).

Como se pode ver, é mais grave do que parece.

OS RESPONSÁVEIS PELAS GRANDES MÍDIAS SOCIAIS DEVERIAM TOMAR PROVIDÊNCIAS

Depois que os populistas (ditos de esquerda ou de direita) aprenderam (sobretudo usando o WhatsApp e, em menor escala, o Telegram) a manipular as mídias sociais (como Twitter, Facebook, Instagram, etc.) a responsabilidade de criar proteções contra tal instrumentalização está nas mãos dos donos dessas plataformas. Não adianta tirarem o corpo fora dizendo que não é com eles. É, sim!

Tem de começar quebrando o broadcasting privado no WhatsApp, impedindo o fluxo descendente em árvore, pelo qual alguns hubs espalham mensagens para serem replicadas para clusters sem atalhos entre si, praticamente sem qualquer interação (ou será que as mídias sociais – no Brasil incorretamente chamadas de “redes sociais” – não são ditas ‘sociais’ exatamente porque são interativas?)

Depois existem medidas simples que podem ser adotadas no sentido de estimular o sentido de comunidade (como declarou querer Zuckerberg), neutralizar a pesca em aquário (“fish in a barrel”) e exigir reciprocidade (em especial no Twitter, que virou vitrine de famosos exibicionistas, permitindo que uma pessoa tenha 50 milhões de seguidores e siga apenas 50 pessoas e revelou-se altamente vulnerável à manipulação de militantes industriados, que conseguem subir hashtags para as TT em poucos minutos, deixando o usuário comum à mercê de grupos organizados e macacas de auditório de líderes salvadores da pátria).

Isso é vital neste momento em que antidemocratas de todos os matizes estão conseguindo difundir nas sociedades ideias e práticas autoritárias. Estão conseguindo até eleger chefes de Estado e levar países a tomarem soluções altamente prejudiciais para suas populações (como foi o caso da Inglaterra com o Brexit).

O fato, não adianta negar, é que as mídias sociais estão sendo empregadas contra a democracia e isso não poderia ficar assim.

Virou um imperativo democrático, portanto, resolver o problema (se é que tem solução). Isso só pode ser feito, praticamente, a curto prazo, por uma decisão dos donos das grandes mídias sociais (Facebook, WhatsApp, Telegram, Twitter, Instagram etc.). A médio e longo prazo devemos inventar novas tecnologias de netweaving menos manipuláveis pela intervenção hierárquica.


(*) Cf. Poder computacional: automação no uso do WhatsApp nas eleições, disponível em
<http://dagobah.com.br/poder-computacional-automacao-no-uso-do-whatsapp-nas-eleicoes/>

Cf. também: Vivemos hoje mais netwar do que política (democrática): mas o problema é a guerra, não o WhatsApp, disponível em <http://dagobah.com.br/vivemos-hoje-mais-netwar-do-que-politica-democratica-mas-o-problema-e-a-guerra-nao-o-whatsapp/>

Cf. ainda: Da libertação à desordem: redes sociais [leia-se: mídias sociais] e democracia, disponível em <http://dagobah.com.br/da-libertacao-a-desordem-redes-sociais-leia-se-midias-sociais-e-democracia/>

E: As mídias sociais ameaçam a democracia?, disponível em <http://dagobah.com.br/as-midias-sociais-ameacam-a-democracia/>

Mais:

As mídias sociais contra as redes sociais, disponível em <http://dagobah.com.br/as-midias-sociais-contra-as-redes-sociais/>

Contra a manipulação: precisamos de mídias sociais a favor e não contra as redes sociais, disponível em <http://dagobah.com.br/contra-a-manipulacao-precisamos-de-midias-sociais-a-favor-e-nao-contra-as-redes-sociais/>

Como destruir a cultura política democrática manipulando as mídias sociais, disponível em <http://dagobah.com.br/como-destruir-a-cultura-politica-democratica-manipulando-as-midias-sociais/>

Por que temos tanta dificuldade de comunicação nas mídias sociais, disponível em <http://dagobah.com.br/por-que-temos-tanta-dificuldade-de-comunicacao-nas-midias-sociais/>


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