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Vivemos hoje mais netwar do que política (democrática): mas o problema é a guerra, não o WhatsApp

No artigo Estudem as redes para entender o que está acontecendo, dissemos que vivemos hoje mais netwar do que política (democrática). Por isso, em pleno desfecho do segundo turno da campanha eleitoral de 2018, é quase inútil tentar convencer alguém com argumentos e, o que é pior, com a exposição de fatos. Se Bolsonaro ou Haddad fossem surpreendidos, gravados, filmados, cometendo um crime em praça pública, por exemplo, um homicídio testemunhado por centenas de pessoas, mesmo assim isso de pouco valeria para seus seguidores. Assim como há quem ache que a chegada do homem à lua foi filmada na cinemateca da CIA, os fanáticos de ambos os lados diriam que tudo não passou de armação, do PT ou de Bolsonaro (conforme o caso).

A verdade deixou de ser relevante. A adequação entre a descrição de um fato e o que de fato aconteceu, não importa mais. Trata-se de emplacar versões que servem a um determinado propósito ou interesse, para nada importando que não sejam verdadeiras. Vencer é o único critério.

A dinâmica que prevalece é a da guerra. Estamos em guerra. Na guerra a primeira vítima é a verdade. Mas na política pervertida como continuação da guerra por outros meios, a primeira vítima também é a verdade.

Este é o pior dos mundos. Era previsível que uma polarização entre dois projetos populistas, ambos subversores da democracia, seria o pior dos mundos: o cenário do horror. Estamos no cenário do horror porque a guerra (quente ou fria) é o horror.

Por isso, talvez, tenha passado despercebido – ou não tenha surtido nenhum efeito (no caso, sobre os bolsonaristas) – o artigo, publicado na Folha de São Paulo do último 14 de outubro, com algumas ideias do antropólogo Piero Leirner. Vai reproduzido abaixo, com alguns comentários ao final.

Comunicação de Bolsonaro usa tática militar de ponta, diz especialista

Para antropólogo, não se trata de uma propaganda, mas sim um conjunto de informações dissonantes

Folha de São Paulo, 14/10/2018

Os recursos escassos, a estética do material de divulgação e as constantes contradições de Jair Bolsonaro (PSL) e seus aliados podem levar à impressão de que a estratégia de comunicação do candidato é amadora. 

Contudo, segundo o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos que estuda instituições militares há quase 30 anos, a comunicação de Bolsonaro tem se valido de métodos e procedimentos bastante avançados de estratégias militares, manejados de maneira “muito inteligente, precisa, pensada”. Os recursos escassos, a estética do material de divulgação e as constantes contradições de Jair Bolsonaro (PSL) e seus aliados podem levar à impressão de que a estratégia de comunicação do candidato é amadora. 

“Não se trata exatamente de uma campanha de propaganda; é muito mais uma estratégia de criptografia e controle de categorias, através de um conjunto de informações dissonantes”, explica Leirner.

“É parte do que tem sido chamado de ‘guerra híbrida’: um conjunto de ataques informacionais que usa instrumentos não convencionais, como as redes sociais, para fabricar operações psicológicas com grande poder ofensivo, capazes de ‘dobrar a partir de baixo’ a assimetria existente em relação ao poder constituído”.

Nesse novo paradigma político descrito por Leirner, gestado em guerras “assimétricas” como a do Vietnã — nas quais os poderes e táticas militares são muito discrepantes entre os adversários — e colocado em prática nas “primaveras” do Oriente Médio, as redes sociais têm papel central, pois “descentralizam e multiplicam as bombas semióticas”.

A cúpula bolsonarista conta com a participação de diversos membros das Forças Armadas, que tiveram contato com essas doutrinas. Reportagem da Folha mostrou que Bolsonaro é o candidato preferido da maioria dos 17 generais de quatro estrelas da corporação – o topo da hierarquia. Uma dos protagonistas do grupo de Bolsonaro é o general quatro estrelas da reserva Augusto Heleno, que chegou a ser cotado como seu vice.

Há diversos recursos de “guerra híbrida” identificáveis na campanha bolsonarista com a participação de seus eleitores: a disseminação de “fake news” e as contradições (chamadas por Bolsonaro de “caneladas”) entre as figuras de proa da campanha são alguns deles.

As divergências entre o presidenciável e o vice, general Hamilton Mourão (PRTB), sobre o 13º salário, e também entre ele e o economista Paulo Guedes sobre a criação de imposto aos moldes da CPMF, são ilustrativas desse vaivém que, ao fim, gera dividendos políticos para Bolsonaro.

“Esses movimentos criam um ambiente de dissonância cognitiva: as pessoas, as instituições e a imprensa ficam completamente desnorteados. Mas, no fim das contas, Bolsonaro reaparece como elemento de restauração da ordem, com discurso que apela a valores universais e etéreos: força, religião, família, hierarquia”, analisa Leirner.

Nesse ambiente de dissonância, a troca de informações passa a ser filtrada pelo critério da confiança. As pessoas confiam naqueles que elas conhecem. Nesse universo, então, as pessoas funcionam como “estações de repetição”: fazem circular as informações em diversas redes de pessoas conhecidas, liberando, assim, o próprio Bolsonaro de produzir conteúdo.

“Ele aparece só no momento seguinte, transportando seu carisma diretamente para as pessoas que realizaram o trabalho de repetição. As pessoas ficam com uma sensação de empoderamento, quebra-se a hierarquia. O resultado é a construção da ideia de um candidato humilde, que enfrenta os poderosos, que é ‘antissistema’”, diz o antropólogo.

Esses poderosos contra os quais se voltam Bolsonaro e seus seguidores são justamente os agentes que tradicionalmente transmitem as informações de maneira vertical, como políticos, imprensa, instituições, que são lançados ao descrédito.

Concorrentes como o tucano Geraldo Alckmin e o petista Fernando Haddad, então, sofrem para atingir o eleitorado com ferramentas clássicas de propaganda. Torna-se difícil estabelecer um laço com os eleitores, especialmente com aqueles que já participam da rede bolsonarista.

“O trabalho dos marqueteiros dos outros partidos ficou a anos luz de distância. A tática de Alckmin foi um incrível laboratório: quanto mais atacou, mais aumentou a resistência de Bolsonaro. E isso com ele lá no hospital.  Os ataques ao Bolsonaro foram então encarados como ataques a essas ‘estações de repetição’, e sua mobilidade tornou eles inócuos”, afirma Leirner.

Se está claro que essas “fake news” geram desinformação e desorientação, o antropólogo acredita que ainda não se sabe exatamente o que se pode fazer para combatê-las. Nestas eleições, o Tribunal Superior Eleitoral tem sido pressionado para tomar alguma providência em relação a elas, mas tem tido dificuldades em fornecer respostas.

“Se uma fake news é punida, outras são geradas e estações novas entram na artilharia. No fim o que vai se fazer? Punir todas as redes? Prender milhões de pessoas? O que a gente vai ver é se as instituições vão continuar assistindo sua própria implosão.”

Para Leirner, por fim, a proliferação de notícias falsas colabora para o deslocamento de poder dentro de instituições centrais à democracia, como a Justiça e as Forças Armadas.

“Hoje vemos  setores do Estado, especialmente do judiciário, entrando em modo invasivo, cada um se autorizando a tentar estabelecer uma espécie de hegemonia própria”, diz.

Para ele, a especificidade da instituição militar, aquela que tem um poder que no limite só ela mesmo controla, deveria motivar reflexões sobre o perigo de misturá-la à política.

“O que me pergunto é se o pessoal da ativa está preparado para perceber que um pedaço desse ‘caos’ está saindo de uma força política que se juntou com alguns dos seus ex-quadros (…) A instituição militar diz: ‘obedecemos a Constituição e nos autocontemos’. Invadir esse poder com a ‘política’ não é boa ideia”, diz Leirner, concluindo com reflexão sobre a conjuntura.

“Parece-me que estamos vivendo um Estado bipolar: resta saber como, depois da fase eufórica, vamos encarar a fase maníaco-depressiva”.

ALGUNS COMENTÁRIOS

Deixemos de lado qualquer alegação de Leirner que possa dar margem a conspiracionismos (e à ridicularização do conspiracionismo), como a de que os militares da campanha de Bolsonaro estão aplicando estratégias e táticas de guerra que aprenderam nas forças armadas. Isso não se sabe, seria difícil provar e, na verdade, não tem grande importância.

O que importa é o que está acontecendo. O que está acontecendo é que a campanha de Bolsonaro é baseada na replicação acrítica (quase automática) de mensagens emitidas centralizadamente, usando para tanto as mídias sociais e uma mídia especificamente, que tem caraterísticas diferentes das incorretamente chamadas (no Brasil) de “redes sociais” (como Facebook e Twitter): o WhatsApp.

Forma-se um rede descentralizada, com altos graus de centralização na primeira onda, em que uma mensagem é enviada, no padrão broadcasting, um-para-muitos (por limitação do WhatsApp, no caso, 1 para 256 pessoas que funcionam como hubs em cada emissão). A topologia é a de árvore. Quem recebe o estímulo inicial não interage com o emissor (o comando da campanha), mas apenas replica a mensagem para suas redes de militantes (que também funcionam, em segundo grau de separação, como hubs, replicando a mesma mensagem para ativistas locais que a publicam em grupos públicos ou privados). Milhares de pessoas são atingidas com apenas dois passos.

O WhatsApp facilita que tudo isso seja feito em grupos fechados, protegidos da interação fortuita, imunes à polinização mútua e a modificação de opiniões que constitui o cerne do debate público em democracias.

Mesmo que os programas de pacotes de envio de mensagens pelo WhatsApp, que estão disponíveis no mercado, sejam comprados, isso não é ilegal (a menos que sejam pagos por empresas e configurem contribuição ilegal de campanha, como denunciou matéria de ontem da Folha de São Paulo, que ainda carece de comprovação). Mas este não é o ponto, a não ser para manobras de anulação do pleito (ou cassação de uma candidatura) na guerra em que se transformaram as eleições. O ponto é que isso é uma manipulação da sociedade, quer dizer, da rede social, stricto sensu, da rede de pessoas que interagem para a formação da opinião pública. É uma falsificação do processo democrático que usa o mecanismo eleitoral como meio de verificar a formação da vontade política coletiva. Eleições só são procedimentos democráticos quando precedidas pelo debate público, formando, por emergência, uma opinião pública: do contrário, bastaria fazer uma pesquisa de opinião censitária, totalizando as opiniões privadas que foram colhidas.

O processo descrito acima é, rigorosamente falando, uma privatização da esfera pública, por meio da formação de miríades de micro-clusters privados (e fechados). Há um estilhaçamento, uma pulverização e uma desconstituição do ‘social’ propriamente dito envolvidos aqui.

Não se trata, como sugeriram alguns pesquisadores identificados com a esquerda, de obrigar o WhatsApp (quer dizer, o Facebook) a restringir os compartilhamentos para grupos, sob a alegação de que as mensagens assim emitidas e replicadas são, em sua ampla maioria, fake news. Os males da democracia se resolvem com mais liberdade e não com restrições de fluxos (quer dizer, com menos liberdade). Trata-se de ver como a democracia poderá metabolizar essa intervenção centralizada que, no limite, torna ineficaz o debate público sem o qual a qual as eleições seriam dispensáveis. Atenção, essa perturbação no campo aconteceria mesmo que as mensagens enviadas e replicadas não fossem fake news e sim interpretações que favorecem um candidato ou desqualificam seus adversários.

Quanto ao uso e abuso de fake news – de notícias simplesmente inverídicas – para acabar com a (relevância da) distinção (social) entre verdade e mentira, isto não depende das mídias e dos artifícios para manipular a opinião pública (na verdade, para impedir a sua formação, substituindo-a por legiões de grupos fechados à interação, portadores de opiniões privadas que se impõem avassaladoramente) e sim da dinâmica de guerra instalada (e das lideranças com alta gravitatem que comandam verdadeiros exércitos) que deforma a rede. Não se pode esquecer que, em qualquer caso, a guerra não tem como objetivo matar pessoas (um efeito colateral) e sim matar a rede.

Mais cedo ou mais tarde, a rede aprenderá a metabolizar essas disfunções introduzidas por mídias mais vulneráveis à manipulação, como o WhatsApp. O problema é a guerra, não o WhatsApp.


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