Direita Dagobah

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Você se acha de direita?

Eis um breve perfil da pessoa que se acha de direita. É uma caricatura, por certo, mas talvez ajude alguém a cair na real…

Os temas de política, economia e costumes que, em geral, são tomados como critérios para saber se alguém é de direita (ou de esquerda), não devem ser levados em consideração sem grandes reservas. Em geral a esquerda classifica como de direita quem não é de esquerda (ou não está subordinado à esquerda). Aí cabe um largo espectro que vai dos liberais-econômicos (que não deveriam ser chamados de direita e, muito menos, aceitar tal rótulo), passando pelos conservadores (e pelos liberais-conservadores), até chegar aos autocratas conspiracionistas religiosos ou laicos, aos anticomunistas, aos militaristas e outros estatistas assemelhados.

Esses critérios, é claro, foram urdidos pela esquerda para uso dos trouxas. Vejamos.

Segundo a narrativa da esquerda, quanto aos temas políticos, a direita seria composta por quem é a favor da democracia representativa ou da democracia burguesa (com exceção dos militaristas e estatistas exacerbados), que subordina a igualdade à liberdade de explorar, por quem é a favor do federalismo (idem), por quem é contra o nacionalismo (idem, sendo que muitos conservadores não têm uma posição clara sobre isso), por quem é contra a intervenção militar no processo político (idem-idem) e por quem é antipetista e anticomunista.

No campo da economia, a confusão urdida instrumentalmente pela esquerda é para dizer que de direita é quem é a favor do capitalismo e do livre-mercado, quem é contra a participação do Estado na economia (exceção feita aos militaristas e estatistas exacerbados), quem é a favor da responsabilidade fiscal (idem), quem é a favor do corte de impostos (idem-idem), quem é a favor das privatizações (idem-ibidem).

No campo dos costumes, a direita seria composta por quem é contra o aborto (exceção feita aos liberais-econômicos), por quem é contra a legalização da maconha e outras drogas (idem), por quem é contra os casamentos LGBT (idem-idem), por quem é contra a doutrinação marxista nas escolas, por quem é contra a política de cotas e por quem é a favor da posse de armas.

Tudo isso, entretanto, é meio papo furado. A esquerda criou uma taxonomia, não propriamente para classificar e sim para constituir mesmo uma direita. E muitas pessoas ingênuas, em geral analfabetas democráticas, que são contra a esquerda, caíram na armadilha, não apenas aceitando o rótulo de direita, mas ostentando essa qualificação com orgulho. Tipo assim:

Ufa! Até que enfim teremos agora uma direita no país, depois de décadas de hegemonia cultural da esquerda!

Em termos práticos, o sujeito que se acha de direita – a julgar pelo que declara nas mídias sociais – é mais ou menos o que:

1 – Acha que ser de direita é a única maneira de combater a esquerda (validando, com isso, a contraposição esquerda x direita, inventada como esquema explicativo e critério axiológico-normativo, é claro, pela esquerda). A divisão esquerda x direita como esquema interpretativo é o problema. Virou um malware (capaz de transformar a política, de uma questão de modo – modo de regulação de conflitos, o que ela é realmente – em uma questão de lado: de que lado você está, a favor do povo ou contra o povo). Isso foi uma invenção dos jacobinos, na Assembléia da Revolução Francesa, que não inventou a democracia (como diz a esquerda), mas inventou, isto sim, a antipolítica, a política como questão de lado e, com isso, a esquerda. Muitos que não concordavam com a esquerda caíram na esparrela e começaram a se intitular de direita, com isso comprando e validando o esquema.

2 – Defende Trump, porque descobriu (já se sabe onde) que Hillary e os Clinton, Obama et caterva, são todos financiados por Soros, pelo Clube de Bilderberg (e, nas versões mais piradas, pelos Illuminati) que estão erigindo uma nova ordem mundial de esquerda para sepultar a civilização judaico-cristã. Na mesma linha, defende o Brexit e qualquer movimento localista do tipo “Meu pirão, primeiro” – como o de Le Pen, na França – que se coloque contra o globalismo (o globalismo seria a ideologia da nova ordem mundial e ser contra ele é a desculpa perfeita para ser contra a globalização, inclusive a globalização cultural e, a rigor, contra a emergência de uma sociedade-em-rede).

3 – Pensa que deve defender o armamento da população, supostamente baseado na Segunda Emenda à Constituição dos USA, para autodefesa contra tiranias, sem explicar como as pessoas armadas de revólveres e rifles vão se defender das armas de destruição em massa do Estado (que é o instrumento universal para impor tiranias). Até agora há a dúvida de se os que defendem que as pessoas se armem com pequenas armas letais de defesa (e ataque) pessoal, também propõem que elas tenham o direito de construir ou adquirir armas químicas, biológicas, nucleares, para não falar em tanques, caças supersônicos, submarinos atômicos, drones predadores, lançadores de obuses, morteiros, granadas e mísseis balísticos, bazucas, bombas termobáricas, metralhadoras pesadas, armas de pulso eletromagnético etc.

4 – É contra a doutrinação marxista nas escolas, mas não diz uma palavra sobre a doutrinação levada a efeito por qualquer escola com base nas noções de ordem, hierarquia, disciplina, obediência, punição e recompensa e fidelidade impostas top down, que mata a criatividade (seja em países ditos capitalistas ou socialistas, democráticos ou ditatoriais). Se o professor não for marxista, tudo bem: pode doutrinar à vontade com base na cultura patriarcal. Alguns defendem, inclusive, o homeschooling (em princípio uma coisa boa, não fosse tanto superavit de home e de schooling), mas dando aos pais o direito de doutrinar seus filhos no bunker familiar, afastando-os das influências profanas e protegendo-os dos perigosos vírus culturais alienígenas.

5 – Será, gostando ou não (em geral gostando), eleitor de Jair Bolsonaro em 2018 (sobretudo se o adversário for Lula: e aí sua justificativa para eleger um boçal militarista para presidente da República será a de que assim está evitando um mal-maior).

6 – Admira Olavo de Carvalho (um dos autocratas conspiracionistas que ajudaram a difundir essa balela de nova ordem mundial), embora, às vezes, fazendo críticas ao seu comportamento irascível nas mídias sociais. Engole a baba de que Olavo é um grande filósofo, que sempre tem razão, que sabe mais do que todos e de que o saber professoral – sacerdotal – é a maior valorização possível na humanidade, que coloca seu detentor numa posição hierárquica superior aos demais na sociedade de castas (como é toda sociedade, segundo ele próprio, Olavo, escreveu em O Jardim das Aflições).

7 – Toma como valor principal a ordem e não a liberdade (que, na prática, só é valorizada na medida em que reforça o direito de propriedade). Como Hobbes, acha que, entregues à sua própria sorte, os homens se engalfinharão numa luta de todos contra todos e que, portanto, é necessário que exista um poder acima deles, capaz de domesticar a besta-fera que cada um trás dentro de si, cabendo, em especial, no plano cultural, às religiões cristãs, promover esse papel civilizatório (pois, afinal, se não há um deus onisciente e onipresente, tudo é possível).

8 – Imagina que para ser contra o comunismo é necessário ser anticomunista, ainda na vibe da guerra fria, sem se dar conta de que combater um sistema autocrático não torna ninguém democrata (Mussolini era anticomunista, Hitler era anticomunista, Franco era anticomunista, Salazar era anticomunista, Pinochet era anticomunista, Videla era anticomunista, Médici era anticomunista, Bordaberry era anticomunista – e todos eles foram ditadores sanguinários).

9 – Em geral não faz ideia do que seja a democracia, que toma apenas como um modo político de administração do Estado via eleições + Estado de direito.

Se alguém critica quaisquer dos pontos acima, o direitista autodeclarado diz que as críticas partem de quem sucumbiu à hegemonia cultural da esquerda, de sorte que só existe uma alternativa ético-política aceitável: ser de direita.

Talvez depois de ler tudo isso você continue se achando de direita. Se este for o seu caso, você é uma prova de que, sim, a esquerda venceu. Você foi idiotizado a ponto de servir de carniça para que a esquerda possa continuar existindo (quer dizer, tendo a quem combater) e espalhando inimizade no mundo.


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