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Você vai apoiar o “picolé de chuchu”, mesmo depois das alianças com o “centrão”?

Todos os candidatos buscam apoio (às vezes secretamente, para fazer o discurso da pureza) e, quando não conseguem, dizem que os apoios (que queriam, mas não obtiveram porque foram) conseguidos pelos adversários são imorais.

Ora, apoio é apoio. Apoio em campanha não governa. No entanto, se alguém for eleito sem amplos apoios vai ter de adquiri-los de qualquer jeito (a preço bem mais caro) depois de eleito, até para aprovar uma única e miserável lei (quanto mais uma emenda constitucional que exige, salvo engano, 308 votos). E, aí sim, os apoios podem passar a governar (ou a chantagear o governo).

Sabendo disso, no campo autocrático, o PT busca apoio, Ciro busca apoio e Bolsonaro busca apoio. E no campo democrático é a mesma coisa. Do contrário ninguém governa. E, se bobear, sofre impeachment.

Os democratas defendemos todos os candidatos do campo democrático: Geraldo Alckmin, Alvaro Dias, João Amoêdo, Paulo Rabello, Henrique Meirelles ou Marina Silva (se ela quiser). Ah!… Mas alguns desses nomes são representantes da velha política. OK! Mas você tem uma política nova, mais pura e prontinha para colocar no lugar da velha? Não? Então deve abrir a cabeça e entender que a democracia não é o regime dos puros, dos bons, dos honestos ou somente dos que querem se apresentar como novos.

Convém examinar o que seria realmente esta nova política. Os que fazem marketing da nova política dizem que a velha política é a que garante o domínio dos mesmos, em geral corruptos. Mas é preciso ver que a velha política se mantém não apenas para servir à impunidade dos corruptos. O principal motivo não é este e sim porque (ainda) não há outra política no mundo real. A velha política é a política realmente existente. A nova política ainda é futurível (e não está pronta para ser colocada no lugar da velha). Um discurso onírico, nefelibata, ainda que bem intencionado, não é capaz de inaugurar uma nova política. É preciso construí-la na sociedade e encontrar espaços para que as inovações políticas repercutam no âmbito do Estado. Está é a real. Todo resto é conversa fiada de vendedores de ilusões.

Muita gente não tem paciência para ouvir isso. É uma falta de paciência para a democracia. Assim de chofre, por um golpe ou uma vitória eleitoral episódica, não se produzirá, da noite para o dia, novos céus e nova terra. Quem não tem paciência para a democracia, acaba decaindo para uma perspectiva antipolítica, ou claramente autocrática. O melhor exemplo é aquele manifesto do Unabomber, lembram?

Vamos relembrar. O matemático Ted Kaczynski (Harvard / Michigan / Berkeley) virou terrorista para fazer barulho, chamando a atenção para sua mensagem redentora. Já apontei sobre isso duas pistas para uma ulterior abordagem do ponto de vista da democracia:

1) Ele não acreditou na rede e sim na propaganda (como se a divulgação tipo broadcasting de uma ideia tivesse o condão de modificar o comportamento dos agentes do sistema);

2) Embora tivesse admitido teoricamente que a mudança pode ser lenta, ele não teve paciência para esperar (quis ensinar quando a democracia é um deixar-aprender); talvez movido por uma compulsão egoica, queria causar uma comoção capaz de provocar uma alteração de estado do sistema (e daí as bombas que mataram 3 pessoas e feriram outras 23, entre cientistas, engenheiros e executivos): desprezando os pequenos estímulos que podem se propagar na rede, jogou bombas para fazer um barulhão.

A constatação de Kaczynski foi a de que “o nível de corrupção política numa determinada sociedade tende a permanecer constante ou muda paulatinamente apenas com a evolução da sociedade”. O que ele chama de “evolução” (um termo incorreto, usado presumivelmente na falta de outro, posto que a sociedade não evolui: evolução é um conceito biológico, que não se aplica ao social na medida em que pressupõe fidelidade a uma origem, genética ou epigenética, enquanto que o social é o campo da liberdade) se refere aos níveis do capital social ou à configuração da rede (conceitos que ele desconhecia). Cruzadas de limpeza (prestem atenção que ele, no seu famoso Manifesto, fala de “limpar a corrupção”) – sejam desencadeadas por matanças, com bombas, ou por um tour de force judicial-policial – não são capazes de alterar os níveis do capital social. Se feitas na Somália, jamais terão como resultado equipará-la à Noruega.

Nenhuma das pessoas movidas pela ideia de mudar o mundo, limpá-lo dos maus, varrer as imundícies, subordinar a política à ética (como se a ética não derivasse de um ethos, de uma cultura que se reproduz e do ambiente que favorece a sua reprodução) entendeu realmente a democracia. Essas pessoas não chegaram a perceber o seu genos, isto é, que a democracia, como escreveu Ésquilo, em Os Persas, é apenas o regime sem um senhor.

Voltemos ao Brasil pré-eleitoral de julho de 2018. Estamos agora diante de três candidatos a senhores (todos estatistas, quer dizer, i-liberais – no sentido político desses termos): o do PT (seja quem for), Ciro e Bolsonaro. São estes os candidatos com mais chances do campo autocrático (tem também a Manuela e o Boulos, mas não contam muito). Qualquer candidato do campo democrático que for capaz de quebrar uma polarização entre quaisquer destes últimos deve ser apoiado por nós. Quem não é capaz de entender isso não está propriamente tratando de política (democrática): talvez de religião; ou está achando que as eleições são para a gente votar no nosso candidato preferido (ficando com nossas consciências tranquilas, independentemente da efetividade do nosso voto).

Não é necessário declarar agora o voto em nenhum candidato do campo democrático, mas também não é conveniente descartar nenhum deles (seja Alckmin, Amoêdo, Alvaro, Meirelles, Rabello, não confundir com Rebelo, ou Marina – se ela quiser sair da penumbra fronteiriça onde acampou na esperança de amealhar os votos dos órfãos de Lula – e vir para a luz) antes de saber qual desses terá mais condições de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático, materializando a diretriz: “PT nunca mais. Ciro ou Bolsonaro, jamais”.

É claro que os democratas, se quiserem, também podem declarar o seu voto. O que não é o meu caso, mas é o do Alberto Aggio, que publicou hoje (20/07/2018) no grupo Roda Democrática do Facebook:

Algumas considerações sobre o apoio do chamado Centrão a Geraldo Alckmin (PSDB).

1. É uma decisão defensiva desse grupo. Ele esperava ter candidato próprio, o que não vingou, nem mesmo com um candidato do governo, que existe, mas sem nenhuma chance; negociou com Ciro e se dividiu. Por fim, decidiu por Alckmin porque vê nele a possibilidade de vencer as eleições e poder influenciar. Esse Centrão poderia ir à extrema-direita de Bolsonaro, mas conhece as tradições da politica brasileira e vislumbrou o desastre que poderia ocorrer. Repito: fez uma opção defensiva.

2. Esse Centrão não é igual àquele da Constituinte. É outra coisa: sabe fazer o jogo do poder, sabe se manter vivo e não perder espaço. É uma direita que emergiu com a democracia. Sim, na democracia existem direitas políticas nos países mais avançados; faz parte da sua legitimidade. Portanto, não é a direita bolsonarista e estar junto com Alckmin significa o isolamento da extrema direita, o que é altamente positivo para a democracia.

3. Para as forças democráticas, neutralizar a direita democrática e trazê-la para o campo da democracia e das reformas e isolá-la da extrema direita, é um ganho eleitoral e político notável. Tomara que isso se efetive realmente.

4. Geraldo Alckmin é um político tradicional da democratização brasileira. É um político de centro, um democrata-cristão ao velho estilo, como foi Franco Montoro. Alckmin tem experiência politica e administrativa suficiente para montar um governo de grande coalizão, refazendo a frente que se formou e se conectou com as ruas no processo do impeachment de Dilma Rousseff.

5. O bloco democrático e reformista, ou seus apoiadores, deve dar sustentação a essa ampliação do apoio à candidatura Alckmin e trabalhar como uma verdadeira vertente de centro-esquerda nessa grande coalizão. Deve estar atento para o fato de que sem essa grande coalizão as possibilidades de vitória são remotas. Alckmin pode ser efetivamente um candidato desse bloco, mas não será certamente o candidato apenas desse bloco. O campo democrático no Brasil, é bom que se diga, vai além da candidatura Alckmin, mas será um equivoco enorme imaginar que, inclusive com essa ampliação, a candidatura Alckmin perde a legitimidade de fazer parte do campo democrático. Muito ao contrário.

6. Por fim, caso essa grande coalizão vença ela deverá fazer um governo democrático, dentro do que foi e do que será possível construir na atual conjuntura brasileira e mundial. Governos democráticos existem com diversos perfis de alianças políticas ao redor do mundo e nas grandes democracias. Alckmin tem que deixar claro isso no seu programa mínimo.

Pois é. Toda vez que se cogita o nome de Alckmin aparece alguém falando do “picolé de chuchu” para dizer por que não podemos votar nele (porque ele não teria gosto, nem cheiro). Embora eu goste de um bom ensopadinho de chuchu (de preferência com camarão, hehe), também não sou muito simpático a Geraldo Alckmin (em quem identifico falta de inteligência política e excesso de conservadorismo), mas e daí? O que conta não são minhas preferências pessoais e sim os efeitos das nossas opções para a democracia.

Não devemos mesmo votar em Alckmin se não concordarmos com suas propostas, se avaliarmos que ele é perigoso para o regime democrático, que não é um administrador competente ou, ainda, se tivermos evidências sólidas de que ele é um mega corrupto que fará do governo um grande balcão de negócios escusos. Não porque não gostamos de chuchu: um vegetal que, nunca se ouviu dizer, faça mal para a saúde pública.

Sim, qual o problema do chuchu? Você quer comidas fortes, apimentadas, pretende “comer” o governante? Preferiria ingerir um alimento tóxico (como verduras cruas muito ricas em ácido oxálico e ácido cianídrico)? Acha que deve apostar numa gastronomia arriscada, com cogumelos venenosos (por exemplo, das espécies Amanita Lulopetensis ou Clitocybe Bolsonarensis) cheios de amatoxinas ou muscarina?

Tomemos o exemplo de uma democracia consolidada: a Suíça. Quem é o chefe de governo da Suíça? Dificilmente alguém de outro país saberá o seu nome (mesmo porque lá não há chefe de governo e sim um colegiado que escolhe, a cada ano, um Presidente da Federação Helvética apenas para fins de representação) e os próprios suíços não estão tão preocupados assim com o seu “sabor” e suas outras propriedades, digamos, organolépticas. Provavelmente, Alain Berset (veja a foto que ilustra este artigo), o atual presidente, aqui no Brasil seria chamado de picolé de chuchu. O bom governante (como administrador eficiente) é aquele que, respeitando o Estado democrático de direito, faz bem o seu trabalho, não precisa aparecer muito e não atrapalha a vida das pessoas, nem quer arrebanhá-las, mesmerizá-las, torná-las suas fãs. Quem gosta de fieis, seguidores, sequazes, militantes dispostos a dar a vida pelo seu mito, são líderes autoritários cujas cabeças jamais foram violadas pela ideia de democracia.

Espero que nenhum leitor conclua, tolamente, que estou fazendo campanha para Alckmin: só votarei nele em último caso (e o mesmo vale para Alvaro Dias, Amoêdo, Paulo Rabello, Meirelles ou Marina), se – digo, se – ele for o único capaz de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático no primeiro turno. Neste caso, prefiro comer chuchu, numa boa, do que cair de boca num quibebe de mandioca brava.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

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