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Yuval Harari e a pós-verdade

Pós-verdade é o capítulo 17 do último livro do historiador isralense Yuval Harari: HARARI, Yuval (2018). 21 lessons for the 21st century. New York: Spiegel & Grau, 2018. Usamos a tradução brasileira de Paulo Geiger. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Pós-verdade

Algumas fake news duram para sempre

Atualmente se repete que estamos vivendo uma nova e assustadora era da “pós-verdade”, e que estamos cercados de mentiras e ficções. Não é difícil oferecer exemplos. No final de fevereiro de 2014, unidades especiais russas, sem ostentar insígnias de um exército, invadiram a Ucrânia e ocuparam instalações-chave na Crimeia. O governo russo e o presidente Putin em pessoa negaram repetidamente que eram tropas russas, e as descreveram como “grupos de autodefesa” espontâneos que poderiam ter adquirido equipamento parecido com o russo em lojas locais (1). Ao fazer essa declaração absurda, Putin e seus assessores sabiam perfeitamente bem que estavam mentindo.

Nacionalistas russos são capazes de desculpar essa mentira alegando que ela atende a uma verdade maior. A Rússia estava engajada numa guerra justa, e, se é válido matar por uma causa justa, também não seria válido mentir? A causa mais elevada que alegadamente justificaria a invasão da Ucrânia era a preservação da sagrada nação russa. Segundo mitos nacionais, a Rússia é uma entidade que perdurou por mil anos apesar de repetidas tentativas de inimigos perversos de invadi-la e desmembrá-la. Depois dos mongóis, dos poloneses, dos suecos, da Grande Armée de Napoleão e da Wehrmacht de Hitler, na década de 1990 foi a Otan, os Estados Unidos e a União Europeia que tentaram destruir a Rússia, desmembrando partes de seu território e formando com eles “falsos países”, como a Ucrânia. Para muitos nacionalistas russos, a ideia de que a Ucrânia é uma nação separada da Rússia é uma mentira muito maior do que qualquer coisa pronunciada pelo presidente Putin durante sua missão sagrada de reintegrar a nação russa.

Cidadãos ucranianos, observadores externos e historiadores podem sentir-se ultrajados por essa explicação, e encará-la como uma espécie de “bomba atômica da mentira” no arsenal russo de embustes. Alegar que a Ucrânia não existe como nação e como país independente é desconsiderar uma longa lista de fatos históricos — por exemplo, que durante os mil anos de suposta unidade russa, Kíev e Moscou foram parte do mesmo país por somente trezentos anos. Isso também viola numerosas leis e tratados internacionais que a Rússia tinha aceitado e que salvaguardaram a soberania e as fronteiras da Ucrânia independente. Mais importante, ignora o que milhões de ucranianos pensam de si mesmos. Será que eles não têm o direito de dizer quem são?

Os nacionalistas ucranianos certamente concordariam com os nacionalistas russos de que existem por aí alguns falsos países. Mas a Ucrânia não é um deles. E, sim, esses falsos países são a “República Popular de Lugansk” e a “República Popular de Donetsk”, que a Rússia estabeleceu para mascarar sua não provocada invasão da Ucrânia (2).

Seja qual for o lado que você apoia, parece que estamos realmente vivendo uma era terrível da pós-verdade, quando não só incidentes militares específicos, mas narrativas e nações inteiras podem ser falsificadas. Mas, se essa é a era da pós-verdade, quando, exatamente, foi a era de ouro da verdade? Na década de 1980? De 1950? 1930? E o que desencadeou a transição para a pós-verdade — a internet? A mídia social? A ascensão de Putin e Trump?

Uma análise superficial da história revela que a propaganda e a desinformação não são nada novas, e até mesmo o hábito de negar nações inteiras e criar países falsos tem um longo pedigree. Em 1931 o Exército japonês encenou ataques simulados a si mesmo para justificar sua invasão da China, e depois criou o país falso de Manchukuo para legitimar suas conquistas. A própria China negou durante muito tempo que o Tibete alguma vez tenha existido como país independente. A colonização britânica na Austrália foi justificada com a doutrina legal de terra nullius (“terra de ninguém”), que efetivamente apagou 50 mil anos de história aborígene.

No início do século XX, um dos lemas favoritos do sionismo falava do retorno de “um povo sem terra [os judeus] a uma terra sem povo [Palestina]”. A existência de uma população árabe local foi convenientemente ignorada. Em 1969 a primeira-ministra israelense Golda Meir disse que não existe e nunca existiu um povo palestino. Essas ideias são muito comuns em Israel até hoje, apesar de décadas de conflitos armados contra algo que não existe. Por exemplo, em fevereiro de 2016, a parlamentar Anat Berko fez um discurso no Parlamento de Israel no qual duvidava da realidade e da história do povo palestino. Sua prova? A letra “P” nem sequer existe em árabe, então como pode haver um povo palestino? (Em árabe, usa-se “f” em lugar de “p”, e o nome árabe para a Palestina é Falastin.)

A ESPÉCIE DA PÓS-VERDADE

Os humanos sempre viveram na era da pós-verdade. O Homo Sapiens é uma espécie da pós-verdade, cujo poder depende de criar ficções e acreditar nelas. Desde a Idade da Pedra, mitos que se autorreforçavam serviram para unir coletivos humanos. Realmente, o Homo Sapiens conquistou esse planeta graças, acima de tudo, à capacidade exclusiva dos humanos de criar e disseminar ficções. Somos os únicos mamíferos capazes de cooperar com vários estranhos porque somente nós somos capazes de inventar narrativas ficcionais, espalhá-las e convencer milhões de outros a acreditar nelas. Enquanto todos acreditarmos nas mesmas ficções, todos nós obedecemos às mesmas leis e, portanto, cooperamos efetivamente.

Assim, se você culpa o Facebook, Trump ou Putin por introduzir a nova e assustadora era da pós-verdade, lembre-se de que séculos atrás milhões de cristãos se fecharam dentro de uma bolha mitológica que se autorreforçava, nunca ousando questionar a veracidade factual da Bíblia, enquanto milhões de muçulmanos depositaram sua fé inquestionável no Corão. Por milênios, muito do que era considerado “notícia” e “fato” nas redes sociais humanas eram narrativas sobre milagres, anjos, demônios e bruxas, com ousados repórteres dando cobertura ao vivo diretamente das mais profundas fossas do submundo. Temos zero evidência científica de que Eva foi tentada pela serpente, que as almas dos infiéis ardem no inferno depois que morrem ou que o criador do universo não gosta quando um brâmane se casa com um intocável — mas bilhões de pessoas têm acreditado nessas narrativas durante milhares de anos. Algumas fake news duram para sempre.

Estou ciente de que muita gente poderá se aborrecer por eu equiparar religião com fake news, mas este é exatamente o ponto. Quando mil pessoas acreditam durante um mês numa história inventada — isso é fake news. Quando 1 bilhão de pessoas acreditam durante milhares de anos — isto é uma religião, e somos advertidos a não chamar de fake news para não ferir os sentimentos dos fiéis (ou incorrer em sua ira). Observe, no entanto, que não estou negando a efetividade ou benevolência potencial da religião. Exatamente o contrário. Para o bem ou para o mal, a ficção está entre os instrumentos mais eficazes na caixa de ferramentas da humanidade. Ao unir pessoas, credos religiosos possibilitam a cooperação em grande escala. Eles inspiram a construção de hospitais, escolas e pontes, além de exércitos e prisões. Adão e Eva nunca existiram, mas a catedral de Chartres continua linda. Grande parte da Bíblia pode ser ficcional, mas ainda é capaz de trazer alegria a bilhões, e ainda é capaz de incentivar os humanos a serem compassivos, corajosos e criativos — assim como outras grandes obras de ficção, como Dom Quixote, Guerra e paz e Harry Potter.

De novo, algumas pessoas podem se ofender com minha comparação da Bíblia com Harry Potter. Se você é um cristão com mente científica poderia minimizar todos os erros e mitos na Bíblia alegando que nunca se pretendeu que o livro sagrado fosse lido como um relato factual, e sim como uma narrativa metafórica que encerra profunda sabedoria. Mas isso não vale para Harry Potter também?

Se você é um cristão fundamentalista é mais provável que insista em que cada palavra da Bíblia é verdade. Suponhamos por um momento que você tem razão, e que a Bíblia realmente é a infalível palavra do único e verdadeiro Deus. O que, então, você faz com o Corão, o Talmude, o Livro dos Mórmons, os Vedas, o Avesta, o Livro dos Mortos egípcio? Você não fica tentado a dizer que esses textos são elaboradas ficções criadas por humanos de carne e osso (ou talvez por demônios)? E como vê você a divindade de imperadores romanos como Augusto e Cláudio? O Senado Romano alegava ter o poder de transformar pessoas em deuses, e depois esperava que os súditos do império cultuassem esses deuses. Isso não era ficção? De fato, temos pelo menos um exemplo na história de um falso deus que reconheceu a ficção numa declaração por sua própria boca. Como já observado, o militarismo japonês na década de 1930 e início da de 1940 apoiava-se na crença fanática na divindade do imperador Hirohito. Após a derrota do Japão, Hirohito proclamou publicamente que isso não era verdade, e que ele afinal de contas não era um deus.

Assim, mesmo se concordarmos que a Bíblia é a verdadeira palavra de Deus, isso ainda nos deixa com bilhões de devotos hindus, muçulmanos, judeus, egípcios, romanos e japoneses que durante milhares de anos depositaram sua confiança em ficções. De novo, isso não quer dizer que essas ficções são necessariamente desprovidas de valor ou danosas. Ainda podem ser belas e inspiradoras.

É claro que nem todos os mitos religiosos foram igualmente benevolentes. Em 29 de agosto de 1255, o corpo de um menino inglês de nove anos de idade chamado Hugh foi encontrado num poço, na cidade de Lincoln. Mesmo sem Facebook nem Twitter, rapidamente espalhou-se o boato de que Hugh tinha sido vítima de um assassinato ritual realizado pelos judeus locais. A história foi crescendo à medida que era recontada, e um dos mais renomados cronistas ingleses da época — Matthew Paris — criou uma detalhada e sangrenta versão de como judeus proeminentes de toda a Inglaterra reuniram-se em Lincoln para engordar, torturar e finalmente crucificar o menino sequestrado. Dezenove judeus foram julgados e executados pelo suposto assassinato. Libelos de sangue semelhantes tornaram-se populares em outras cidades inglesas, levando a uma série de pogroms nos quais comunidades inteiras foram massacradas. Posteriormente, em 1290, toda a população judaica da Inglaterra foi expulsa do país (3).

A história não termina aí. Um século depois da expulsão dos judeus da Inglaterra, Geoffrey Chaucer — o pai da literatura inglesa — incluiu um libelo de sangue modelado na história de Hugh de Lincoln em seus Contos da Cantuária (“Conto da Prioresa”). O texto culmina com o enforcamento dos judeus. Libelos de sangue semelhantes tornaram-se subsequentemente componentes básicos de todo movimento antissemita, da Espanha medieval à Rússia moderna. Pôde-se ouvir um eco distante disso na fake news de que Hillary Clinton chefiava uma rede de tráfico humano que mantinha crianças como escravas sexuais no porão de uma pizzaria muito frequentada. Não foram poucos os americanos que acreditaram na história, destinada a prejudicar a campanha eleitoral de Clinton, e uma pessoa até veio armada à pizzaria e exigiu ver o porão (constatou-se que a pizzaria nem tinha porão) (4).

Quanto ao próprio Hugh de Lincoln, ninguém sabe realmente como ele morreu, mas foi enterrado na catedral de Lincoln e venerado como um santo. Foi reputado como o realizador de vários milagres, e seu túmulo continua a atrair peregrinos até mesmo séculos depois da expulsão de todos os judeus da Inglaterra (5). Foi somente em 1955 — dez anos após o Holocausto — que a catedral de Lincoln repudiou a versão do libelo de sangue, colocando uma placa junto ao túmulo, onde se lê: Histórias inventadas de “assassinatos rituais” de meninos cristãos por comunidades judaicas eram comuns em toda a Europa durante a Idade Média, e mesmo muito mais tarde. Essas ficções custaram a vida de muitos judeus inocentes. Lincoln teve sua própria lenda, e a alegada vítima foi sepultada na Catedral no ano de 1255. Essas histórias não redundam em crédito para a Cristandade (6).

Bem, algumas fake news duram apenas setecentos anos.

UMA VEZ MENTIRA, SEMPRE VERDADE

Religiões antigas não foram as únicas que usaram ficção para cimentar cooperação. Em tempos mais recentes, cada nação criou sua própria mitologia nacional, enquanto movimentos como o comunismo, o fascismo e o liberalismo modelaram elaborados credos que se autorreforçam. Diz-se que Joseph Goebbels, o maestro da propaganda nazista, e talvez o mais realizado mago da mídia da era moderna, explicou seu método sucintamente declarando que “uma mentira dita uma vez continua uma mentira, mas uma mentira dita mil vezes torna-se verdade” (7). Em Mein Kampf, Hitler escreveu que “a mais brilhante técnica de propaganda não vai ter sucesso a menos que se leve sempre em conta um princípio fundamental — ela tem de se limitar a alguns pontos e repeti-los sem parar” (8). Será que algum vendedor de fake news atual é capaz de fazer melhor do que isso?

A máquina de propaganda soviética foi igualmente ágil com a verdade, reescrevendo a história de tudo, desde guerras inteiras até fotografias individuais. Em 29 de junho de 1936, o jornal oficial Pravda (“verdade”, em russo) trazia na primeira página uma foto de um sorridente Josef Stálin abraçando Gelya Markizova, uma menina de sete anos. A imagem tornou-se um ícone stalinista, consagrando Stálin como o Pai da Nação e idealizando a “Feliz Infância Soviética”. Gráficas e fábricas por todo o país produziram milhões de pôsteres, esculturas e mosaicos da cena, que foram exibidos em instituições públicas de uma extremidade da União Soviética a outra. Assim como nenhuma igreja ortodoxa russa está completa sem um ícone da Virgem Maria segurando o menino Jesus, nenhuma escola soviética poderia dispensar um ícone de papai Stálin segurando a pequena Gelya.

Infelizmente, no império de Stálin a fama era quase sempre um convite à catástrofe. Um ano depois da foto, o pai de Gelya foi preso sob a espúria acusação de que era um espião japonês e um terrorista trotskista. Em 1938 foi executado, uma das milhões de vítimas do terror stalinista. Gelya e sua mãe foram exiladas para o Cazaquistão, onde a mãe logo morreu em circunstâncias misteriosas. O que fazer agora com os incontáveis ícones mostrando o Pai da Nação com a filha de um condenado “inimigo do povo”? Sem problema. Daquele momento em diante, Gelya Markizova desapareceu, e a “Feliz Criança Soviética” na imagem ubíqua foi identificada como Mamlakat Nakhangova — uma menina tadjique de treze anos que recebeu a Ordem de Lênin colhendo diligentemente grandes quantidades de algodão nos campos (se alguém achasse que a menina na foto não parecia ter treze anos, pensava duas vezes antes de mencionar tal heresia antirrevolucionária) (9).

A máquina de propaganda soviética era tão eficiente que conseguiu esconder as atrocidades monstruosas em casa ao mesmo tempo que projetava uma visão utópica no exterior. Hoje os ucranianos se queixam de que Putin conseguiu enganar grande parte da mídia ocidental quanto às ações da Rússia na Crimeia e em Donbas. Mas na arte da enganação ele dificilmente se equipara a Stálin. No início da década de 1930, jornalistas e intelectuais ocidentais de esquerda louvavam a União Soviética como uma sociedade ideal, enquanto ucranianos e outros cidadãos soviéticos morriam de fome aos milhões por causa das políticas orquestradas por Stálin. Apesar de, na era do Facebook e do Twitter, ser às vezes difícil decidir em quais versões de um acontecimento acreditar, pelo menos já não é mais possível um regime matar milhões sem que o mundo saiba.

Além de religiões e de ideologias, empresas comerciais também se apoiam em ficção e fake news. Divulgar uma marca envolve recontar a mesma narrativa ficcional várias vezes, até as pessoas ficarem convencidas de sua veracidade. Que imagens ocorrem quando você pensa em Coca-Cola? Você pensa em pessoas jovens e saudáveis praticando esportes e se divertindo? Ou pensa em pessoas com diabetes e sobrepeso deitadas numa cama de hospital? Beber Coca-Cola não te deixará mais jovem, mais saudável, nem mais atlético — e sim mais propenso a sofrer de obesidade e diabetes. Mas durante décadas a Coca-Cola investiu bilhões de dólares associando sua imagem a juventude, saúde e esportes — e bilhões de humanos subconscientemente acreditam nessa associação.

O fato é que a verdade nunca teve papel de destaque na agenda do Homo Sapiens. Muita gente supõe que se uma determinada religião ou ideologia não representa a realidade, cedo ou tarde seus adeptos acabarão descobrindo, porque não serão capazes de competir com rivais mais esclarecidos. Bem, esse é apenas mais um mito reconfortante. Na prática, o poder da cooperação humana depende de um delicado equilíbrio entre a verdade e a ficção.

Se você distorcer demais a realidade, isso na verdade vai enfraquecê-lo, fazendo-o agir de maneira irrealista. Por exemplo, em 1905 um médium da África Oriental chamado Kinjikitile Ngwale alegou estar possuído pelo espírito da cobra Hongo. O novo profeta tinha uma mensagem revolucionária para o povo da colônia alemã da África Oriental: unam-se e expulsem os alemães. Para tornar a mensagem mais atraente, Ngwale proveu seus seguidores de remédios mágicos que, supostamente, transformariam as balas dos alemães em água (maji, em suaili). Isso deu início à Rebelião Maji Maji. Ela fracassou. Porque no campo de batalha as balas alemãs não se transformaram em água. Em vez disso, elas rasgaram impiedosamente o corpo dos mal armados rebeldes (10). Dois mil anos antes, a Grande Revolta Judaica contra os romanos foi inspirada, de forma parecida, por uma ardente crença de que Deus lutaria pelos judeus e os ajudaria a derrotar o aparentemente invencível Império Romano. Isso fracassou também, levando à destruição de Jerusalém e ao exílio dos judeus.

Por outro lado, você não será capaz de organizar com eficiência grandes massas sem se apoiar em alguma mitologia. Se ficar preso à realidade crua, poucas pessoas o seguirão. Sem mitos, teria sido impossível organizar não só as revoltas Maji Maji e judaicas, mas também as muito mais bem-sucedidas rebeliões dos Mahdi e dos Macabeus.

As histórias falsas têm uma vantagem intrínseca em relação à verdade quando se trata de unir pessoas. Se você quer calibrar a lealdade de um grupo, pedir às pessoas que acreditem num absurdo é um teste muito melhor do que pedir que acreditem na verdade. Se um grande chefe disser “o sol nasce no leste e se põe no oeste” não se requer lealdade para aplaudi-lo. Mas se o chefe disser “o sol nasce no oeste e se põe no leste” apenas os que lhe forem verdadeiramente leais baterão palmas. Da mesma forma, se todos os seus vizinhos acreditarem na mesma história absurda, você pode contar com eles em momentos de crise. Se só aceitam acreditar em fatos comprovados, o que isso prova?

Poder-se-ia alegar que, ao menos em alguns casos, é possível organizar pessoas mediante acordos consensuais e não por meio de ficções e mitos. Assim, na esfera econômica, dinheiro e corporações unem pessoas muito mais efetivamente do que qualquer deus ou livro sagrado, apesar de todos saberem que isso é apenas uma convenção criada por humanos. No caso do livro sagrado, um verdadeiro crente diria “eu acredito que o livro é sagrado”, enquanto no caso do dólar, um verdadeiro crente diria apenas que “eu acredito que outras pessoas acreditam que o dólar tem valor”. É óbvio que o dólar é apenas uma criação humana, porém pessoas do mundo inteiro o respeitam. Se é assim, por que os humanos não são capazes de abandonar todos os mitos e ficções, e se organizar com base em convenções consensuais, como o dólar?

Essas convenções, no entanto, não são claramente diferentes de ficção. A diferença entre livros sagrados e dinheiro, por exemplo, é muito menor do que pode parecer à primeira vista. Quando veem uma nota de dólar, a maioria das pessoas esquece que aquilo é apenas uma convenção humana. Quando veem o pedaço de papel verde com a figura do homem branco que já morreu, elas o veem como algo valioso em si mesmo e por si mesmo. Dificilmente pensam: “Na verdade, isto é um pedaço de papel sem valor, mas, como outras pessoas o consideram valioso, posso fazer uso dele”. Se você observar um cérebro humano num escâner de ressonância magnética funcional, verá que quando se mostra a alguém uma mala cheia de cédulas de cem dólares, as partes do cérebro que começam a zumbir excitadamente não são as partes céticas (“outras pessoas acreditam que isto é valioso”) e sim as partes gananciosas (“Puta merda! Eu quero isso!”). Inversamente, na grande maioria dos casos, as pessoas só começam a santificar a Bíblia ou os Vedas ou o Livro dos Mórmons após uma longa e repetida exposição a outras pessoas que os consideram sagrados. Aprendemos a respeitar livros sagrados da mesmíssima maneira que aprendemos a respeitar notas de dinheiro.

Daí que, na prática, não existe uma divisão clara entre “saber que algo é apenas uma convenção humana” e “crer que algo é inerentemente valioso”. Em muitos casos, as pessoas são ambíguas ou desatentas a essa divisão. Para dar outro exemplo, se você sentar e tiver uma profunda discussão filosófica sobre isso, quase todo mundo concordaria que corporações são narrativas ficcionais criadas por seres humanos. A Microsoft não é os prédios que possui, as pessoas que emprega ou os acionistas aos quais ela serve — e sim uma intricada ficção legal tecida por legisladores e advogados. Mas em 99% do tempo não estamos engajados em profundas discussões filosóficas, e tratamos as corporações como se fossem entidades reais no mundo, assim como tigres ou humanos.

Embaçar a linha entre ficção e realidade pode servir a muitos propósitos, começando com “divertimento”, até “sobrevivência”. Você não pode jogar jogos ou ler romances a menos que suspenda sua descrença, ao menos por um momento. Para realmente curtir o futebol, você tem de aceitar as regras do jogo, e esquecer, ao menos durante noventa minutos, que elas são apenas invenções humanas. Se não fizer isso, vai achar ridículo que 22 pessoas fiquem correndo atrás de uma bola. O futebol pode começar como diversão, mas depois se tornar coisa muito mais séria, como qualquer hooligan inglês ou nacionalista argentino atestará. O futebol pode ajudar a formar identidades pessoais, pode cimentar comunidades em grande escala e pode até mesmo ensejar motivos para violência. Nações e religiões são times de futebol hipertrofiados.

Humanos têm a notável capacidade de saber e não saber ao mesmo tempo. Ou, mais corretamente, eles são capazes de saber alguma coisa quando de fato pensam sobre ela, mas na maior parte do tempo não pensam sobre ela, por isso não sabem. Se realmente se concentrar, você se dará conta de que dinheiro é ficção. Mas normalmente você não se concentra. Se lhe perguntam sobre o futebol, você sabe que é uma invenção humana. Mas no calor de um jogo, ninguém lhe perguntará sobre isso. Se dedicar tempo e energia, você poderá descobrir que nações são elaboradas invencionices. Mas em meio a uma guerra você não tem tempo nem energia. Se você exigir a verdade suprema, constatará que a história de Adão e Eva é um mito. Mas quão frequentemente você exige a verdade suprema?

Verdade e poder podem andar juntos só até certo ponto. Cedo ou tarde vão seguir caminhos separados. Se você quer poder, em algum momento terá de disseminar mentiras. Se quiser saber a verdade sobre o mundo, em algum momento terá de renunciar ao poder. Terá de admitir coisas — como as origens de seu poder, por exemplo — que vão enfurecer aliados, desengajar seguidores e minar a harmonia social. Não há nada de místico nessa lacuna entre verdade e poder. Como testemunho disso, apenas encontre um típico americano protestante, anglo-saxão, branco e levante a questão de raça, localize um israelense da corrente majoritária e mencione a Ocupação, ou tente falar com um sujeito comum sobre patriarcado.

Ao longo da história, eruditos depararam com esse dilema repetidamente. Deveriam servir ao poder ou à verdade? Deveriam manter as pessoas unidas, garantindo que todas acreditassem na mesma narrativa, ou deveriam deixar que soubessem a verdade, mesmo ao preço da desunião? Os intelectualmente mais poderosos — fossem sacerdotes cristãos, mandarins confucianos ou ideólogos comunistas — puseram a união acima da verdade. E justamente por isso eram tão poderosos.

Como espécie, os humanos preferem o poder à verdade. Dedicamos muito mais tempo e esforço tentando controlar o mundo do que tentando compreendê-lo —, e mesmo quando tentamos compreendê-lo, normalmente fazemos isso na esperança de que compreender o mundo fará com que nos seja mais fácil controlá-lo. Por isso, se você sonha com uma sociedade na qual a verdade reina suprema e os mitos são ignorados, não pode esperar muito do Homo Sapiens. Melhor tentar a sorte com os chipanzés.

ESCAPANDO DA MÁQUINA DE LAVAGEM CEREBRAL

Tudo isso não significa que as fake news não sejam um problema sério, ou que políticos e sacerdotes tenham liberdade total para mentir descaradamente. Também seria errado concluir que tudo são apenas fake news, que toda tentativa de descobrir a verdade está destinada ao fracasso e que não existe diferença entre jornalismo sério e propaganda. Subjacentes a todas as fake news existem fatos reais e sofrimentos reais. Na Ucrânia, por exemplo, soldados russos estão realmente combatendo, milhares já morreram de verdade e centenas de milhares perderam seus lares. O sofrimento humano pode ser causado por crença na ficção, mas o sofrimento em si ainda é real.

Portanto, em vez de aceitar fake news como a norma, deveríamos reconhecer que é um problema muito mais difícil do que supomos, e que deveríamos nos esforçar ainda mais para distinguir a realidade da ficção. Que não se espere perfeição. Uma das maiores ficções de todas é negar a complexidade do mundo e pensar em termos absolutos numa pureza imaculada contra o mal satânico. Nenhum político diz toda a verdade e nada além da verdade, mas alguns políticos são bem melhores que outros. Se pudesse escolher, eu confiaria muito mais em Churchill do que em Stálin, embora o primeiro-ministro britânico não deixasse de dourar a pílula quando isso lhe era conveniente. Da mesma forma, nenhum jornal está livre de vieses e erros, mas alguns fazem um esforço honesto de descobrir a verdade, enquanto outros são uma máquina de lavagem cerebral. Se eu tivesse vivido na década de 1930, gostaria de ter tido o bom senso de acreditar mais no New York Times do que no Pravda e no Der Stürmer.

É responsabilidade de todos nós investir tempo e esforço para expor nossos vieses e preconceitos, e para verificar nossas fontes de informação. Como observado em capítulos anteriores, não somos capazes de investigar tudo sozinhos. Mas exatamente por causa disso precisamos ao menos investigar com cuidado nossas fontes de informação preferidas — seja um jornal, um site, uma rede de televisão ou uma pessoa. No capítulo 20 vamos explorar com muito mais profundidade como evitar a lavagem cerebral e como distinguir realidade de ficção. Aqui, gostaria de oferecer de improviso duas regras gerais simples.

Primeira: se você quer uma informação confiável — pague por ela. Se obtiver suas notícias gratuitamente, talvez o produto seja você. Suponha que um obscuro bilionário lhe ofereça o seguinte negócio: “Vou lhe pagar trinta dólares por mês, e em troca você permitirá que todo dia eu lhe faça uma lavagem cerebral durante uma hora, instalando em seu cérebro quaisquer vieses políticos ou comerciais que eu queira”. Você aceitaria esse acordo? Poucas pessoas mentalmente sãs o fariam. Assim, o obscuro milionário oferece um acordo um pouco diferente: “Você permitirá que eu lhe faça uma lavagem cerebral diariamente, e em troca não vou lhe cobrar nada pelo serviço”. Agora o acordo soa tentador para centenas de milhões de pessoas. Não vá por esse caminho.

A segunda regra geral é que se algum assunto parece ser importante para você, faça o esforço de ler literatura científica relevante sobre ele. E o que entendo por literatura científica são artigos avaliados por pares, livros publicados por editoras acadêmicas bem conhecidas e textos de professores de instituições respeitáveis. Obviamente, a ciência tem suas limitações e se envolveu com muitas coisas erradas no passado. Ainda assim, a comunidade científica tem sido nossa fonte mais confiável de conhecimento, durante séculos. Se você acha que a comunidade científica está errada quanto a alguma coisa, isso é bem possível, mas pelo menos conheça as teorias científicas que está rejeitando, e apresente alguma evidência empírica que sustente sua alegação.

Os cientistas, por sua vez, precisam estar muito mais envolvidos nos debates públicos atuais. Não deveriam ter medo de se fazer ouvir quando o debate se estender a seu campo de especialidade, seja a medicina ou a história. Silêncio não é neutralidade, é apoio ao status quo. É claro que é extremamente importante continuar a fazer pesquisa científica e publicar os resultados em revistas científicas que só uns poucos especialistas leem. Mas é igualmente importante comunicar as últimas teorias científicas ao público em geral por meio de livros de divulgação científica e até mesmo mediante o uso inteligente da arte e da ficção.

Isso significa que cientistas deveriam começar a escrever livros de ficção científica? Não seria má ideia. A arte desempenha um papel fundamental na maneira pela qual as pessoas concebem o mundo, e no século XXI a ficção científica é sem dúvida o gênero mais importante de todos, pois ela expressa como a maioria das pessoas compreende coisas como a IA, a bioengenharia e a mudança climática. De fato precisamos de boa ciência, mas de uma perspectiva política, um bom filme de ficção científica vale muito mais do que um artigo na Science ou na Nature.

Notas

1. Julian Borger, “Putin Offers Ukraine Olive Branches Delivered by Russian Tanks’ (The Guardian, 4 mar. 2014). Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2014/mar/04/putin-ukraine-olive-branches-russian-tanks>. Acesso em: 11 mar. 2018.

2. Serhii Plokhy, Lost Kingdom: The Quest for Empire and the Making of the Russian Nation (Nova York: Basic Books, 2017); Snyder, The Road to Unfreedom, op. cit.

3. Matthew Paris, Matthew Paris’ English History, trad. J. A. Gyles, vol. 3 (Londres: Henry G. Bohn, 1854, pp. 138-41). Patricia Healy Wasyliw, Martyrdom, Murder and Magic: Child Saints and Their Cults in Medieval Europe (Nova York: Peter Lang, 2008, pp. 123-5).

4. Cecilia Kang e Adam Goldman, “In Washington Pizzeria Attack, Fake News Brought Real Guns” (New York Times, 5 dez. 2016). Disponível em: <https://www.nytimes.com/2016/12/05/business/media/comet-ping-pong-pizza- shooting-fake-news-consequences.html>. Acesso em: 12 jan. 2018.

5. Leonard B. Glick, Abraham’s Heirs: Jews and Christians in Medieval Europe (Syracuse: Syracuse University Press, 1999, pp. 228-9).

6. Anthony Bale, “Afterword: Violence, Memory and the Traumatic Middle Ages”, in Sarah Rees Jones e Sethina Watson (Orgs.), Christians and Jews in Angevin England: The York Massacre of 1190, Narrative and Contexts (York: York Medieval Press, 2013, p. 297).

7. Embora a citação seja frequentemente atribuída a Goebbels, convém assinalar que nem eu nem meu dedicado assistente para pesquisa conseguimos verificar que Goebbels alguma vez tivesse escrito ou dito isso.

8. Hilmar Hoffman, The Triumph of Propaganda: Film and National Socialism, 1933-1945 (Providence: Berghahn Books, 1997, p. 140).

9. Lee Hockstader, “From a Ruler’s Embrace to a Life in Disgrace” (Washington Post, 10 mar. 1995).

10. Thomas Pakenham, The Scramble for Africa (Londres: Weidenfeld& Nicolson, 1991, pp. 616-7).


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