A sociedade brasileira está doente, profundamente doente. E não é apenas, nem principalmente, da Covid-19 que já contaminou uma parcela considerável da população – quase 20 milhões, estima-se – e levou à morte, até agora, em números reais, muito mais do que os 107 mil óbitos das contagens oficiais do meio de agosto de 2020.
Há uma doença mais profunda, não causada por um agente patogênico e sim pela degradação moral, propriamente humana, que atinge uma parte considerável da população.
Quanto às nossas elites econômicas, não há mais dúvidas sobre isso. Quando sobe – segunda o Datafolha, em menos de dois meses – de 48 para 58% o apoio dos empresários a Bolsonaro, exatamente porque ele tem se insurgido e sabotado, criminosamente, as medidas de distanciamento social para salvar vidas, é sinal de que essa camada, muitas vezes considerada a nata da sociedade, apodreceu. Predadoras que, no geral, sempre foram, agora perderam parte do que lhes restava de humanidade.
E nas camadas médias, que continuam ou não apoiando o autocrata, psicopata e corrupto, que ocupa a presidência, também houve uma perda considerável de alma. Boa parte dos seus integrantes não se importa mais com a pandemia e deve pensar, toda vez que viola as medidas cautelares recomendadas, mais ou menos assim: tudo bem que morra gente, desde que sejam os outros. E os que não valorizam nem a vida dificilmente tomarão a democracia como valor universal e a liberdade como sentido da política.
Houve manifestações de solidariedade, por certo, mas elas foram poucas diante do egotismo exacerbado da maioria. Os que morrem, em maior quantidade, são pobres, são pretos, são excluídos e não se pode reprová-los por ficarem felizes como pinto no lixo quando recebem mensalmente o auxílio emergencial do Congresso, do qual o governo se apropriou.
Por outro lado, nem esses mais pobres devem ser imunes às críticas. Assim como a riqueza, a pobreza também não é uma virtude. A compaixão e a solidariedade com os carecimentos do próximo só são qualidades morais para os que as exercem, não necessariamente para quem recebe seus benefícios. Não se trata aqui da solidariedade dos que têm para com os que não têm. Pelo contrário, fala-se, sobretudo, da solidariedade entre os mais pobres, que explica o milagre da sobrevivência de quem percebe individualmente menos de 200 reais por mês. Há indícios preocupantes de que até essas redes subterrâneas de sobrevivência estão se esgarçando.
Repete-se, corretamente, que não há solução sem política e não há saída fora da democracia. Os democratas, apostamos nisso. Mas o mundo político atual, ao que tudo indica, não aposta mais. Várias forças políticas, insensíveis, ficam calculando o que terão a ganhar com a permanência de Bolsonaro no governo, seja apoiando-o para se locupletarem com dinheiros e cargos públicos, seja para deixá-lo se enlamear ainda mais, para que seja mais fácil substituí-lo em 2022. Direita e esquerda chafurdam nas tragédias sanitária e política que estão acontecendo. Poucos se salvam.
A doença da alma brasileira, neste final da segunda década do século 21, leva à uma espécie de transe. Pessoas e organizações estão narcotizadas. Movimentos e partidos políticos parecem drogados a ponto de perderam a capacidade de ver a realidade. Quando coisas assim acontecem, é sinal de que uma força maléfica, do ponto de vista da vida e da liberdade, está presente. Uma força anti-humana. E, por origem ou decorrência, pouco importa, antidemocrática.
Entenda-se bem: essa força não é extra-humana, não é composta pelos reptilianos das narrativas conspiracionistas, e sim feita mesmo por humanos que se desumanizaram. Estes são os focos da doença da alma de que tratamos. Alma, aqui, não é uma espécie de substância imaterial aprisionada em corpos e sim o que se forma entre nós quando interagimos amistosamente. É disso que se fala. Das configurações de rede que foram deformadas e que fazem com que grandes contingentes de brasileiros não aceitem mais o outro no seu espaço de vida como um legítimo outro na convivência – condição básica para experimentar a democracia como modo-de-vida. Quando isso acontece, a alma decresce. E quando há perda de alma, tanto faz que o outro morra. E tanto faz que o outro possa não ter aquela liberdade (originariamente democrática) que só se alcança ao interagir na polis diversa e plural, aprendendo a conviver com o diferente.
Nada disso caiu, como se diz, da árvore dos acontecimentos. Foi e continua sendo estimulado por um poder destruidor que age a partir da presidência da República. Destruidor da vida (das pessoas e dos ecossistemas) e destruidor da democracia.
Somente o deficit de democratas explica porque chegamos a esta situação. E pode explicar, inclusive, por que não se interrompeu ainda o mandato do malfeitor Bolsonaro. Seus recuos táticos, baseados em cálculo político egotista, para não sofrer impeachment ou para não ser derrotado nas urnas de 2022, não lhe absolvem, nem como presidente, nem como cidadão e nem como ser humano. Sim, suas espertezas recentes, aliando-se ao núcleo mais fisiológico e corrupto da política, podem lhe dar alguma sobrevida, mas não apagam os malfeitos que, aproveitando-se do cargo, vem praticando há um ano e oito meses. Do ponto de vista da humanidade, não importa as piruetas que faça para o eleitorado, ele continua sendo um assassino.
As pesquisas revelam, entretanto, que a população – em todos os seus estratos – não consegue ver isso. Está cega. Essa cegueira é um dos sintomas da doença da alma que contraiu.
Para sair desta situação não basta a velha luta política tradicional. Será necessário uma espécie de exorcismo coletivo que só um amplo movimento humanizante poderia operar. O problema é que não temos ainda um número suficiente de democratas para puxar uma nova ação da cidadania contra a destruição da vida e pela democracia.
Os democratas – enquanto formos tão poucos – não devemos apenas nos preparar para atravessar a longa noite escura que virá. Devemos aprender a trabalhar na escuridão, usando nossas pequenas luzes para multiplicar, de baixo para cima, em todas as cidades onde for possível, o número de democratas no país.


