Estou propondo o seguinte aos meus amigos e amigas que articulam um polo democrático. Uma futura candidatura não-populista deve ser única e deve ser chamada de Primeira Via.
POR QUÊ?
Porque numa democracia, a via democrática sempre é a primeira via. Neste texto explico, entretanto, que não haverá uma candidatura não-populista em 2022 se não houver um movimento democrático (portanto, não-populista) para exigir o fim do governo Bolsonaro em 2021.
Há tempo para tanto?
Sim. Não haverá eleição amanhã e sim daqui a 492 dias (1 ano, 4 meses e 5 dias). Assim, dizer que haverá polarização Bolsonaro x Lula no segundo turno, não é bem uma avaliação, mas uma tentativa de determinar que o jogo já está jogado. Ao aprisionar o futuro, faz o serviço do lulopetismo. E do bolsonarismo.
É claro que existe um campo democrático no Brasil. Basta ver os resultados das últimas eleições (de 2020).
É claro que uma alternativa não-populista deve sair desse campo.
A PRIMEIRA VIA HOJE É UMA CAMPANHA COLETIVA
Se ainda não há um nome de consenso, que então os representantes desse campo democrático se apresentem conjuntamente e iniciem uma campanha coletiva. Mas tem que agir agora – em 2021 -, não ficar esperando 2022. Se alguém quiser sair ou quiser entrar, tudo bem.
O líder escolhido surgirá do movimento (e não o contrário). E esse movimento deve ser político:
1) por um lado, exigir – por qualquer meio não ilegal – a interrupção do mandato de Bolsonaro;
2) por outro lado, apresentar ao país o que deve ser mudado – agora e no próximo governo.
Não há outra saída se não quisermos sucumbir à polarização populista que manterá Bolsonaro na presidência, matando gente e erodindo a democracia, por mais 582 dias e, depois, nos exilará em algum lugar do passado por mais 4 ou 8 anos.
O BOLSONARISMO VAI FICAR ENTRE NÓS POR MUITO TEMPO
Bolsonaro pode ser removido constitucionalmente ou derrotado eleitoralmente. Mas o bolsonarismo não.
O bolsonarismo achou uma fórmula eficaz para infectar as pessoas com uma narrativa que faz sentido para elas: porque bate com seus velhos preconceitos, com seus profundos ressentimentos (por não serem levados em conta) e anima sua raiva, sua vontade de revanche e seu desejo de vingança. Além disso o bolsonarismo achou o meio ideal de montar um partido ideológico descentralizado: os grupos de WhatsApp (ou Telegram) familiares, de fiéis religiosos, de turmas de ex-alunos etc.
Formando uma corrente de sectários que chega a alcançar, no seu núcleo mais fiel, cerca de 15% da população, há dúvidas de se esse contingente de antidemocratas consegue ser metabolizado pela democracia.
Milhões de pessoas que nunca compareceram ao debate público viraram, em pouco tempo, parte significativa da população politicamente ativa. Não há como eliminá-las (e se houvesse, não seria correto), mas também não há como convertê-las (à democracia e, em alguns casos, à humanidade) pois seus espaços de interação são, em sua maior parte, privados. São pessoas-bot conduzidas por poucos hubs (cerca de 200), que atuam 24 horas por dia fazendo-as replicar fake news urdidas centralizadamente.
Mas se Bolsonaro é tão ruim, por que não tapamos o nariz e votamos logo em Lula para removê-lo eleitoralmente em 2022?
O LULOPETISMO ACIRRARÁ O BOLSONARISMO
Assim como a eleição de Biden não acabou com o trumpismo, a eleição de qualquer líder não bolsonarista não acabará com o bolsonarismo, sobretudo se for eleito um líder populista que pratica a política como guerra do “nós” contra “eles”. Sim, a eleição de Lula escalará o nível do conflito instalando uma guerra civil fria de longa duração. Isso significa que entraremos num período de maior recessão (senão de depressão) democrática.
Esse papo de que podemos votar em Lula porque ele não é de extrema-esquerda é enganoso. O perigo representado por Lula nunca foi o extremismo. É mais fácil erodir a democracia pelo neopopulismo do que à moda antiga: dando golpes e promovendo insurreições.
Alguém pode ser i-liberal e majoritarista sem ser extremista? Então o problema não é o extremismo. Sim, o problema não é o extremismo e sim o populismo. O problema do populismo lulopetista não é ser extremista (porque ele não é mesmo) e sim ser i-liberal e majoritarista.
Lula é neopopulista e, como tal, um adversário da continuidade do processo de democratização. Aceita a democracia que temos porque ela é o meio favorável à manutenção e reprodução da sua vida política. Ou seja, aproveita a democracia eleitoral não para chegar a uma democracia liberal, mas como um instrumento para a projeção do seu protagonismo.
Repita-se. Lula é iliberal e majoritarista, mas não representa uma ameaça iminente à democracia realmente existente (não quer derruir as instituições e sim ocupá-las, fazer maioria em seu interior e colocá-las a serviço do partido). Nesse sentido, Lula congela a democracia como democracia eleitoral, bloqueando a continuidade do processo de democratização que poderia nos levar a uma democracia liberal.
(Uso aqui a classificação dos quatro tipos de regimes políticos adotada pelo V-Dem – Universidade de Gotemburgo: democracia liberal, democracia eleitoral, autocracia eleitoral, autocracia fechada. Confira V-DEM Democracy Report 2021)
Dependendo da correlação de forças no campo propriamente político, do grau de enraizamento social de sua militância forjada na política como continuação da guerra por outros meios (o “nós x eles”) e do nível de impregnação ideológica conseguido em amplas parcelas da sociedade (a tal conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido), nos médio e longo prazos, seu projeto pode levar a um decaimento da democracia eleitoral à condição de autocracia eleitoral. Pois, para o neopopulismo (assim como para qualquer populismo contemporâneo), o fundamental é o processo eleitoral, não o processo de democratização.
MAS O QUE É O POPULISMO?
Os populismos são hoje, no Brasil e no mundo, os principais adversários da democracia. O bolsonarismo e o lulopetismo são populismos. É claro que são diferentes e que o primeiro é muito mais maligno. Mas ambos são i-liberais e majoritaristas.
Populistas creem que a sociedade está atravessada por uma única clivagem que opõe “o povo” às “elites”. Pretendem falar em nome do (verdadeiro) povo (composto por seus seguidores). Acham que são os únicos representantes legítimos (do povo) e que nada deve ficar no seu caminho.
Populistas pensam que democracia é a prevalência da vontade da maioria (majoritarismo). Em alguns casos os populismos de esquerda (como o lulopetismo) são hegemonistas. Acham que têm o direito de comandar (e só fazem alianças para ficar mais fortes e matar os aliados ao final).
Sim, existe populismo de esquerda. Todos os bolivarianismos – mais hards ou mais lights – são populismos: Chávez era populista, assim como Evo, Correa, Lugo, Funes, os Kirchners, Lula e Dilma. Maduro e Ortega são populistas (hards), assim como Obrador e Fernández (lights).
Aliás, Maduro e Ortega são populistas que viraram ditadores. São desvios (ou encurtamentos) do caminho neopopulista que propõe um processo lento e progressivo de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado controlado pelo partido para mudar o DNA da democracia.
Todos os populistas falam em nome da democracia (que confundem com processo eleitoral). Acham que, se foram eleitos por maioria, então têm legitimidade para fazer o que quiserem – até para não governar democraticamente.
A estratégia neopopulista de esquerda não quer dar nenhum tipo de golpe. Ela prevê ganhar eleições sucessivamente se delongando no poder por tempo suficiente para alterar a composição (e a natureza) das instituições democráticas. Mas tudo em nome da democracia.
Os populismos transformam democracias liberais em democracias apenas eleitorais. E, aos poucos, querem transformar democracias eleitorais em autocracias eleitorais (como está acontecendo, à direita, na Hungria e na Polônia e já aconteceu, à esquerda, na Venezuela e na Nicarágua).
Um flagrante de um encontro (nas exéquias de Fidel, em dezembro de 2016) de populistas de esquerda:
Se você não trabalha com o conceito de populismo, acha que não pode haver populismo de esquerda ou tem uma visão de que o populismo é benéfico (na linha Mouffe-Laclau), corre o risco de acabar na campanha Lula-2022, dizendo que ele é o maior democrata do planeta.
Mas todo o petismo pode ser reduzido a um populismo? Para entender a natureza do petismo é necessário perceber por que houve – e ainda há – antipetismo.
POR QUE HÁ ANTIPETISMO
Só há antipetismo porque houve petismo. E o que é o petismo (ou lulopetismo)?
1 – A política praticada como guerra fria do “nós” x “eles” e a divisão da sociedade em uma única clivagem: “povo” x “elites”.
2 – A pretensão de ser o único representante legítimo do povo (o único que pode falar em seu nome e interpretar seus interesses).
3 – O hegemonismo no trato com aliados (só se aliar a outra força política se for para ficar mais forte e matar os aliados ao final).
4 – O aparelhismo e o majoritarismo (entrar nas instituições para fazer maioria no seu interior visando colocá-las a serviço do partido).
5 – A prática inédita da corrupção coordenada nacionalmente, com objetivos estratégicos de poder (para financiar a criação e funcionamento de uma espécie de “Estado paralelo”).
6 – O tratamento das oposições como inimigas e não como adversárias.
7 – As tentativas reiteradas de estabelecer um controle partidário-governamental (disfarçado de social ou civil) dos meios de comunicação e da internet.
8 – O apoio – inclusive financeiro, com recursos do Estado brasileiro – a regimes ditatoriais (como Cuba, Angola, Venezuela e Nicarágua) ou neopopulistas-bolivarianos (como Bolívia, Equador, El Salvador e Paraguai).
9 – A criação (malfadada) de novas instâncias conselhistas arrebanhadas e controladas por “movimentos sociais” que atuam como correias-de-transmissão do partido para cercar a institucionalidade vigente e subordinar a dinâmica social à lógica do Estado aparelhado.
10 – O objetivo estratégico de estabelecer hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado controlado pelo partido, para tanto se delongando no governo e ganhando tempo para modificar (sem golpe, em doses homeopáticas) o DNA da democracia.
Como o petismo poderia esperar que não houvesse uma reação de setores da sociedade a esse comportamento político? Reação dos democratas (que viram o perigo) e dos antidemocratas (que queriam fazer a mesma coisa com o sinal trocado: foi assim que o petismo pariu o bolsonarismo).
Agora temos uma situação paradoxal. Para tomar o lugar de Bolsonaro, Lula e o PT têm um imperativo. Manter Bolsonaro acima de 20% de intenções de voto. Se Bolsonaro cai abaixo de 20% é sinal de que pode não ir para o segundo turno. É o pior dos mundos para Lula pois outra candidatura pode subir. E, dependendo de quem for, Lula perde a vantagem de receber os votos como o “menos ruim”. Portanto, é vital para Lula que Bolsonaro continue no patamar em que está (ou caia apenas um pouco, mas não muito).
RESUMINDO PARA CONCLUIR
A chamada “terceira via” não pode ser terceira. Numa democracia, a alternativa democrática deve sempre ser a primeira via. Mas ela não é uma candidatura e sim uma coalisão de forças políticas e sociais em defesa da democracia. Deve, portanto, agir para parar Bolsonaro. Agora. Se não agir, não será nada. E já tem um encontro marcado com o fracasso. Fracasso não da coalisão e sim da própria democracia.
Não caiam na conversa dos mesmerizados por Lula (mesmo que sejam renomados analistas políticos). Existe, sim, base social e eleitoral para uma alternativa que não seja populista (dita de direita ou de esquerda). Os democratas são os verdadeiros adversários dos populistas.
Bolsonaro mais uma vez, jamais.
Lula de novo, nunca mais.



