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Inteligência Artificial e Inteligência Humana

Um novo programa de educação para um mundo de inteligência artificial

Seguem abaixo algumas pistas para ensaiar novos programas de aprendizagem baseados no netweaving (na articulação e animação) de redes humanas em um mundo invadido pela IA (inteligência artificial). O objetivo é ensejar a insurgência da IH (a inteligência tipicamente humana) por meio da livre-aprendizagem interativa.

Como vamos fazer isso?

Até hoje todas as análises apontam a insuficiência de capital humano (a ser suprida por robustas políticas educacionais) como responsável por baixo desenvolvimento e pouca produtividade. A saída para tudo é mais educação. E isso é pensado centralizadamente para todo o país. O Estado-nação é praticamente o único sujeito que pode tomar providências para combater déficits de capital humano (ou melhorar a educação).

E aí surgem sempre os exemplos da Coréia do Sul e, em alguns casos, da Finlândia (que seria mais inovadora). Caberia aos governos implantar políticas semelhantes e esperar que sejam alcançados os mesmos resultados desses países. Há, porém, vários problemas com essa abordagem.

O primeiro problema é que a sociedade não é sujeito do processo educacional e sim objeto, melhor dizendo, paciente da ensinagem estatal. A oferta de políticas educacionais é centralizada e não se modifica diante das diferentes demandas de pessoas e comunidades que compõem a população.

O segundo problema é que o baixo desenvolvimento não é resultado apenas de capital humano insuficiente, mas também – e principalmente – de déficits de capital social.

O terceiro problema é o que se entende por ‘educação’. Quando se fala genericamente “a educação” isso é uma abstração que abrange (e homogeneiza) diversos processos de aprendizagem.

Além disso ‘a educação’ é entendida como o conjunto dos processos de ensinagem (e não propriamente de aprendizagem), baseados sempre em escola (mais bem organizada, com melhores e maiores recursos e distribuída em todo o território nacional) e professor (melhor preparado, bem remunerado, mais vocacionado e incentivado). Não se pergunta se devemos melhorar a educação que temos ou mudar essa educação.

O quarto problema é que, com o surgimento da Inteligência Artificial, a escola não sabe mais o que deve ensinar, nem como deve se comportar.

O que a escola está ensinando hoje será útil para o mundo em que as crianças de 2026 e os jovens de 2036 irão viver daqui a duas ou três décadas? Ou seja, poucos questionam se a escola sabe realmente o que está fazendo (se ela sabe quais serão as habilidades e os conhecimentos que serão requeridos pelo mercado e pela sociedade em 2046 ou em 2056).

A sociedade tem de assumir responsabilidades pela educação, não apenas atuando como auxiliar o Estado; por exemplo, vigiando as famílias para ver se os pais estão colocando seus filhos na escola (e denunciando os desviantes). Não apenas os governos, mas as empresas, as organizações da sociedade civil e as comunidades de vizinhança, de prática e de projeto, têm que ser também comunidades de aprendizagem.

Para superar esse problema, que já se arrasta por décadas, será necessário um novo movimento, não promovido por uma organização centralizada, mas por uma rede distribuída de iniciativas convergentes. Agentes de educação, atuando de baixo para cima, podem fazer o netweaving dessa rede e podem cumprir, em cada comunidade de aprendizagem, o papel de catalisadores desse processo educativo distribuído.

Não é necessário substituir a escola, mesmo porque isso não vai resolver os problemas da sociedade escolarizada (que se reproduz em todo lugar, inclusive nas famílias, nas igrejas, nas empresas e em outras organizações governamentais ou não-governamentais). Não adianta nada substituir a escola para montar em casa uma burocracia do ensinamento semelhante, substituindo o professor-patrão pelo pai-patrão (ou pela mãe-patroa).

O que adiantaria é substituir o ambiente de ensinagem por ambientes de aprendizagem (no plural): isso pode ser feito em casa ou em qualquer comunidade (de vizinhança, de prática, de projeto); e pode ser feito, inclusive, em escolas (que tenham abertura suficiente para inovar). Homeschooling e communityscooling – ou, de preferência, homeunschooling e communityunscholing – devem ser permitidos, sem que isso signifique abrir uma guerra com as escolas.

É inútil tentar substituir as escolas. Não se trata de substituição e sim de transição.

PISTAS DE SOLUÇÃO

  • Uma startup de educação em cada empresa.

  • Uma comunidade de aprendizagem em cada organização.

Vamos conversar sobre isso?

Como nascem as democracias?