A hipótese de liberar todo mundo, para todo mundo ser infectado pelo vírus SARS-CoV-2 adquirindo anticorpos – morrendo os que têm que morrer e vivendo os que têm que viver – acaba com a epidemia mais rapidamente. Mas é moralmente e socialmente inaceitável.
Antes de qualquer coisa porque não sabemos quem tem que morrer. Uma pessoa idosa e com várias doenças crônicas comuns na idade avançada tem que morrer? Einstein, quando tinha 65 anos, tinha que morrer (ele só faleceu 10 anos depois)? E Bertrand Russell devia morrer quando tinha 80 anos (ele ainda viveu mais 17 anos)? Privar a humanidade dessas sobrevidas teria sido bom?
Da mesma maneira, aquele senhora idosa que vive na Rocinha ou no Jardim Ângela, diabética e semianalfabeta, porém sábia com o que aprendeu na escola da vida, pode morrer com 65 anos? E os conselhos que ela ainda poderá dar à sua neta, que serão fundamentais para ela se tornar, quem sabe, um expoente da pesquisa genética que ajudará, anos mais tarde, a estancar uma nova pandemia mortal para grande parte da humanidade?
A verdade é: nós não sabemos quem deve morrer e quem deve viver. População economicamente ativa é um conceito produtivista obtuso, herdado do mundo fabril dos séculos passados. E a população intelectualmente ativa? E a população politicamente ativa? E a população socialmente (e culturalmente) ativa? Pablo Picasso não era força de trabalho útil à economia (ou ao empresariado), logo tanto fazia se ele tivesse morrido com 75 anos (e não com 92)? Giuseppe Verdi compôs Otello em 1884 (com 74 anos) e Falstaff em 1893 (com 80 anos). Imaginem se ele pegasse um vírus mortal com 60 anos.
O que chamamos de humanidade é um simbionte social em prefiguração. Nessa holarquia fractal de seres interdependentes não há partes descartáveis. Cada pessoa é a humanidade inteira. Por isso temos de preservar a vida de quem pudermos preservar.
Um sistema que não preserva a vida de seus componentes não é um sistema social, mas antissocial.
Assistam a bela interpretação do Mauai do texto acima:
E leiam um post do Guga Casari adicionado por ele como comentário à primeira versão do texto acima, no Facebook:
Passado – Futuro
Hoje eu me sinto velho, ou pelo menos já tenho a certeza de não ser mais o jovem que fui.
Nem tampouco me vejo em minha própria mente mais como um eterno adolescente. Sei que a morte, se não está batendo à porta, já está no meu país, talvez no meu estado e, eventualmente, chegará para uma visita. Claro, que seja amanhã e não hoje, mas será, um dia. Se eu viver bem ela será bem vinda, espero que seja assim.
Mas na realidade me afasto um pouco do que gostaria de dizer, que é como olhamos a realidade entre jovens e velhos de um jeito invertido, pois hoje quando eu vejo um jovem eu penso em um passado mais que um futuro.
Sinto na verdade que quem chegou no futuro, o futuro possível para cada um de nós, são os idosos, e que a jornada e desafios dos jovens são os desafios da antiguidade. Sinto que quem tem a chave do futuro são os velhos, ainda que não tenhamos talvez mais a mesma força para carregá-la.
Vejo alguns jovens sendo alienados do continuo dessa realidade, presas de questões pueris e medievais, achando que estão vivendo uma grande novidade, quando só repetem a vida cíclica ao não entenderem ou aceitarem a plataforma da experiência. Ao não aproveitarem a convivência com os velhos, ou até mesmo ver valor nisso, entrarão em ciclos de repetição e de aprisionamento nas mesmas questões e desafios.
Essa doença vem atingir mais esses, os que estão no futuro que caberá a cada um de nós. Não são estes os que chegaram ao fim da jornada, são estes o tesouro do futuro, a experiência consciente ou não, elaborada ou não, de vidas humanas completas, imperfeitamente com certeza, mas com certeza muitas e muitas são frutos doces e maduros, pérolas polidas e reluzentes, vinhos complexos, remédios potentes, poemas sonoros, olhares cheios de amor e de luz.
Cuide dos velhos, eles são um tesouro.


