As autoridades estão encarando as políticas de contenção, diminuição ou delongamento da propagação do coronavírus como uma guerra.
Antes de qualquer coisa é preciso dizer que devemos ser a favor de todas as providências que, neste momento, estão sendo adotadas para tentar evitar, diminuir ou delongar a propagação (a higienização intermitente de corpos e superfícies, a redução da circulação de pessoas, até o confinamento ou o aumento da chamada “distância social”).
Mas isso não é guerra. O vírus não está em guerra contra os humanos. Não há qualquer guerra (propriamente dita). Os nossos anticorpos não são o exército do bem que deve ser arregimentado contra o exército do mal (até porque não sabemos fazer isso). São apenas meios de recepção de um ser estranho (o outro) para que ele não prejudique o organismo humano.
O SARS-CoV-2, por enquanto, não está conseguindo estabelecer um acoplamento estrutural com a holarquia fractal de seres interdependentes que constitui nossos corpos vivos (e aí entram 100 trilhões de bactérias, células humanas, componentes de células etc. até outros organismos vivos associados, como fungos e não vivos, como vírus).
Mas a ideia de guerra está tão entranhada em nossa mente coletiva no patriarcado, que tudo vira guerra.
Campanhas de vacinação viram guerras contra epidemias.
As políticas de emancipação da pobreza viram guerras contra a pobreza.
Eleições viram guerras e os partidos viram verdadeiros exércitos em combate.
Políticas de alfabetização viram guerras contra o analfabetismo.
Políticas contra a corrupção viram cruzadas antipolíticas de limpeza do mundo, guerras contra os corruptos.
Políticas de desestímulo do uso das drogas e de repressão (que deve ser policial, não-militar) ao tráfico de drogas viram guerras contra as drogas.
Políticas de segurança pública viram guerras contra os bandidos ou contra o crime.
O tratamento com antibióticos e antifúngicos vira guerra contra certos micro-organismos.
As redes humanas (de pessoas) e as redes que constituem nosso corpos humanos (biológicas) têm que aprender a “conversar” com o novo vírus. Vai demorar, mas é provável que consigamos fazer isso. Nada disso, porém, é guerra.
O pressuposto de quem transforma tudo em guerra é que, se nos organizarmos de forma guerreira, teremos mais sucesso no enfrentamento da epidemia porque poderemos estabelecer uma linha vertical comando-execução. Se isso fosse verdade, em todas as oportunidades em que nos organizamos assim teríamos sido bem-sucedidos. Mas na guerra sempre alguém perde, mesmo estando organizado militarmente. Na verdade, na guerra todos perdem.
A guerra não acontece, nós a fazemos. E a fazemos a não ser enquanto reproduzimos uma cultura hierárquica e autocrática, quer dizer, guerreira.
Provavelmente essa ideia-implante contaminou o mundo ocidental a partir da cultura patriarcal do tribalismo dório, sobretudo cretense e espartano. Foi essa a cultura que mais se opôs ao surgimento da democracia em Atenas, na passagem do século 6 para o século 5 a.C. E ela persistiu durante os séculos seguintes. A democracia nascente não teve o condão de alterá-la substancialmente, pois ela tem a ver com o padrão civilizatório em que vivemos, que não foi e não podia mesmo ser abolido pelo modo predominante de regulação de conflitos (o modo pazeante ou não guerreiro que é o DNA da democracia). Mesmo sob o regime democrático, os infectados por esse padrão de guerra continuaram infernizando a vida dos democratas.
Os oligarcas, a aristocracia fundiária apeada do poder pelas reformas de Clístenes, Efialtes e Péricles, chamando-se a si mesmo de patriotas (porque queriam voltar “ao regime de nossos pais”, quer dizer, à autocracia), continuaram tentando instalar uma guerra contra os principais expoentes da democracia. Perseguiram Protágoras, Anaxágoras, Aspásia, Fídias e outros membros da companhia de Péricles. Perseguiram o próprio Péricles, acusando-o de corrupção e nepotismo. Desferiram dois golpes sangrentos contra a democracia, em 411 e 404 a.C. e tentaram um terceiro (felizmente mal-sucedido) em 401 a.C. E, talvez o pior de tudo, sumiram com todos os escritos democráticos existentes, inclusive com toda a obra dos sofistas (que foi deturpada e atacada pelos discípulos autoritários de Sócrates, por Platão e membros da sua Academia e que não foi incluída na tradição doxográfica orientada por Aristóteles e sua turma do Liceu).
Toda guerra é contra a democracia porque o que chamamos de guerra é a autocracia (não é apenas que as autocracias promovam guerras e sim que a autocracia é a guerra, um modo guerreiro de regulação de conflitos). É preciso entender que a guerra não é o conflito violento e sim a construção e manutenção de inimigos como pretexto para organizar cosmos sociais de modo hierárquico e autocrático. O que os autocratas querem é viver em estado de guerra, pouco importa quem é o inimigo da vez (tanto faz se é a Eurásia ou a Lestásia, do 1984 de Orwell). O estado de guerra nem precisa descambar em confronto violento. O fundamental é mantê-lo para poder mandar nos outros, obrigá-los a fazer coisas contra a sua vontade, a agir sob comando até que eles se habituem a pensar sob comando.
Agora com a Covid-19, a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, estamos diante do dilema de deixar a população ser infectada para criar anticorpos (ou alcançar a chamada “herd immunity”) ou tentar impedir ao máximo a transmissão adortando políticas radicais de isolamento, ou seja, tentar desacelerar ao máximo a velocidade de transmissão para que haja menos doentes graves simultâneos. Os países estão adotando a segunda alternativa tendo em vista a precariedade dos seus sistemas de saúde, o conhecimento científico insuficiente sobre o comportamento do vírus (se poderá haver recidiva, se haverá mutação etc.) e por razões humanitárias (pela recusa em sacrificar uma parte – embora pequena – da humanidade para salvar a outra parte).
Mas isolamento não é guerra. O grande perigo é seguir o exemplo chinês, no início da epidemia. Aproveitar a existência do inimigo (o vírus) para centralizar e autocratizar ainda mais o regime. Fechar fronteiras pode ser uma medida justificada, desde que não venha acompanhada de ideias de que o estrangeiro é o inimigo, de que o vírus é estrangeiro e de que a culpa de sua chegada à América é da União Européia – como dizia Donald Trump até há pouco.
Não tardarão a aparecer ideias de controlar a difusão de informações que possam causar pânico social e isso será um avanço perigoso no controle da imprensa. Isolamento de corpos pode ser o pretexto ideal para criar um novo padrão de relacionamento, onde o contato físico e a livre sexualidade sejam desestimulados ou reprimidos, na linha Damares, mesmo depois da pandemia arrefecer.
Isso para não falar das ideias piradas dos conspiracionistas, de que o vírus foi usinado por um centro maligno (dos comunistas aliados aos grandes capitalistas) para devastar a civilização ocidental judaico-cristã. Ou de que a pandemia não tem a gravidade que é apregoada e divulgada pelos meios de comunicação, pela extrema-imprensa que quer fabricar um clima de histeria, como disse, várias vezes, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Guerra é guerra. E na guerra vale tudo. É uma oportunidade de ouro para os adversários da democracia.
Como tuitou ontem (17/03/2020) Carlos Andreazza:
Quero sublinhar que o ambiente de crise – a projetada formação de uma tempestade perfeita – oferece a temperatura perfeita para medidas de exceção. Atenção. Uma coisa é limitar a circulação, outra é usar a necessidade sanitária para exercício autoritário de poder.
A guerra contra o vírus, de qualquer modo, é uma guerra. Um estado de guerra prolongado contra a pandemia pode ensejar a autocratização do regime político e, inclusive, da vida cotidiana, enfreando o processo de democratização nas sociedades. Sim, depois teremos de analisar com calma os efeitos sociais dessa pandemia (decréscimo de confiança, separação e aprisionamento de corpos, fechamento de fronteiras, o outro como morbo-agente potencial etc.) Talvez sejam maiores e mais profundos do que os seus efeitos, já tão graves, em termos de saúde.


