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10 coisas que você deveria esquecer

Para se tornar um ator político democrático do século 21

10 COISAS QUE VOCÊ DEVERIA ESQUECER

Para se tornar um ator político democrático do século 21

1 – Esqueça o esquema interpretativo vazio que classifica as forças e os atores políticos segundo um espectro tomográfico: extrema-esquerda, esquerda, centro-esquerda, centro-direita, direita, extrema-direita. Isso não vale dois traques de gato. É uma classificação que confunde em vez de esclarecer, que tanto pode ser aplicada dentro do PCO, do PCC ou do Vaticano.

2 – Esqueça as classificações de forças e atores políticos a partir da ideologia que professam, tipo assim: socialismo (que seria de esquerda), liberalismo (que seria de centro) e conservadorismo (que seria de direita ou, quando reacionário, de extrema-direita). O caráter de uma força política não pode ser conhecido a partir dos discursos de seus ideólogos (líderes e dirigentes) e sim, somente, a partir do comportamento de seus militantes.

3 – Esqueça a ideia de que há uma imanência na história, de que a história vai para algum lugar, de que a história é regida por leis que podem se conhecidas por quem tem a teoria verdadeira e o método correto de interpretação da realidade.

4 – Esqueça a ideia de que a luta de classes é o motor da história (inclusive na sua variante contemporânea de luta identitarista).

5 – Esqueça a concepção (e a prática) da política como continuação da guerra por outros meios (já que, em sociedades de classes, a luta de classes seria uma espécie de guerra permanentemente presente). Isso leva, inexoravelmente, ao “nós” contra “eles”.

6 – Esqueça a ideia de que a igualdade (ou a redução das desigualdades) é pré-condição para a liberdade. Se fosse assim, a democracia não teria surgido na Atenas do século 5 a.C., em pleno escravismo. E a Nova Zelândia não seria uma democracia liberal das mais avançadas do planeta, embora seja muito mais desigual do que a Etiópia (que é uma ditadura).

7 – Esqueça a ideia de que o populismo contemporâneo é demagogia, irresponsabilidade fiscal, assistencialismo e clientelismo. Isso era o velho populismo, do século 20 para trás. Os populismos do século 21 são alternativas guerreiras, são modos de erodir a democracia por meio da conversão da disputa eleitoral numa espécie de guerra civil fria (onde os adversários são tomados como inimigos).

8 – Esqueça a ideia de que só existe populismo de extrema-direita (como o populismo-autoritário ou nacional-populismo que quer converter democracias liberais e democracias eleitorais em autocracias eleitorais). Não! Existe também o neopopulismo de esquerda, cujas raízes são marxistas (volte aos itens 3, 4, 5 e 6) e cujo objetivo é parasitar as democracias eleitorais impedindo-as de ascender à condição de democracias liberais.

9 – Esqueça a ideia de que existe um populismo do bem, que seria aquele que, em nome da instauração de uma ordem social mais justa ou menos desigual, usa um líder carismático, com alta gravitatem, para fazer uma relação direta com o povo, bypassando as mediações institucionais e, com isso, sendo capaz de dar um curto-circuito na política das elites. Todo populismo é i-liberal ou não-liberal e, assim, é um adversário da democracia liberal.

10 – Esqueça a ideia de que o liberalismo político tenha alguma coisa a ver com as doutrinas do liberalismo-econômico ou com o chamado neoliberalismo (mercadocentrismo, Estado mínimo, desregulamentação etc.). O liberalismo político democrático é aquele que toma a liberdade (não a ordem, nem a ordem mais justa do universo) como sentido da política, que sabe que a minha liberdade começa onde começa (e não onde termina) a liberdade do outro, ou seja, que ninguém pode ser livre sozinho. Para todos os efeitos práticos, nos dias que correm, ser um democrata liberal, no sentido político do termo, é a mesma coisa que ser um democrata não-populista.


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