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Bolsonaro quer governar para 1/3, mas ele não tem 1/3 da população

Contém a lista mais completa já surgida dos hubs da rede descentralizada bolsonarista

Leiam a entrevista concedida por Marcos Nobre a Bernardo Mello de O Globo e publicada hoje. A entrevista é muito boa (por focalizar o caráter antissistema do governo Bolsonaro), mas Nobre comete o mesmo erro da maioria dos analistas políticos ao superestimar o tamanho da influência real do bolsonarismo.

Quase todos os analistas se guiam por pesquisas de opinião eleitorais. Mas pesquisas de opinião baseadas em expectativas eleitorais para 2022 não podem ser bons instrumentos para avaliar o estado da correlação de forças no final de 2019.

Marcos tem razão quando diz que Bolsonaro quer governar para 1/3 da população, mas não tem quando se esquece de dizer que ele não tem, efetivamente, esse contingente todo de apoiadores (possíveis futuros eleitores), não tem esse número de seguidores (pessoas capturadas e arrebanhadas, que não ultrapassam 5 milhões) e, muito menos, de agentes políticos ativos ou sequazes (bolsonaristas propriamente ditos, que não ultrapassam 50 mil pessoas: os tais bolsominions).

Leiam a entrevista toda. Volto ao final.

Marcos Nobre: ‘Bolsonaro é o primeiro a governar para só um terço’

Para Marcos Nobre, presidente quer manter a base mais fiel do seu eleitorado

Bernardo Mello, O Globo (28/10/2019)

Jair Bolsonaro é o primeiro presidente que governa pensando em apenas um terço do eleitorado , na avaliação do filósofo e cientista político Marcos Nobre . Presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento ( Cebrap ), Nobre vê o protagonismo do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) como chave para entender a radicalização do governo no primeiro ano de mandato. O racha alimentado pelo clã Bolsonaro no PSL é, segundo Nobre, a etapa de um projeto político mais amplo para 2022.

• Por que Bolsonaro briga até com o próprio partido?

Bolsonaro, na verdade, antecipou a corrida presidencial em três anos. A verdadeira eleição para ele é a de 2022. Agora ele precisa estar em campanha o tempo todo para transformar em algo orgânico, com substância, a confluência de fatores que o elegeu no ano passado. Seu primeiro mandato, portanto, é de destruição e enfrentamento das instituições.

• O sistema aprendeu a lidar com o presidente?

Bolsonaro surfou uma onda de descrédito institucional partilhada pela base mais fiel do seu eleitorado, que corresponde a 33% da população, segundo as pesquisas. Essa é a base que ele quer manter até 2022. Ele se tornou o primeiro presidente que governa para só um terço do Brasil. O sistema político tenta entrar nos espaços que Bolsonaro deixa em aberto, e ele deixa porque são temas que não mobilizam tanto este terço. A Previdência é um ótimo exemplo disso. Se os espaços são ocupados e Bolsonaro ainda fatura com isso, melhor ainda para ele.

• Esta postura não traz problemas ao governo?

Bolsonaro tem um objetivo eleitoral que não inclui, agora, conquistar a maioria. Isto exime Bolsonaro de governar de fato. Todo mundo reclama que não há articulação política. Mas não é para ter, porque não é este o objetivo. Ele monitora a parte mais ativa de sua base e toma as decisões. Quando algo ataca seus interesses, como a questão da CPMF, ele recua.

• É possível que este se torne o novo normal da política brasileira?

Acho espantoso o sistema político estar disposto a correr um risco desse tamanho. Todo mundo acha que a estratégia do Bolsonaro é insustentável, que a economia não vai andar, e por aí vai. E quem garante que ele perde em 2022? Se o Bolsonaro consegue a reeleição, aí ele tem margem para um governo verdadeiramente conservador ou autoritário.

• Qual é o papel que Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro exercem no projeto liderado pelo pai?

A radicalização do governo passa pelo afastamento do Flávio, por estar sob investigação. Ele é o filho com perfil mais próximo da política tradicional. Sua inutilização deu projeção ao Eduardo e à ideia de criar um movimento conservador no Brasil, inspirado nos EUA. Isso é uma estratégia de hegemonia com verniz de normalidade, mas é algo que não é normalizável.

• Por quê?

Porque não existe comparação possível entre Trump e Bolsonaro. Trump nunca apoiou um regime ditatorial nos Estados Unidos, que simplesmente nunca existiu. Imagine um conservador americano insinuar o fechamento da Suprema Corte, como fazem aqui com o STF? Pode haver uma impressão de que Bolsonaro está sendo contido pelas instituições, mas o que ocorre é uma autocontenção, já que ele só governa para um terço. O próximo passo, para ele, é transformar este terço em um movimento. As eleições de 2020 são uma etapa necessária neste projeto, por isso a ideia é assumir o comando do partido.

• As contradições do governo, por exemplo, no caso das candidaturas laranjas do PSL, podem desgastá-lo com seu eleitorado mais fiel?

É de fato contraditório o discurso de Bolsonaro, mas ele não tem oposição real. A eleição dele, como político antissistema, trouxe a reboque um descrédito da própria ideia de oposição. Quem discorda dele é visto como “sistema”. Ou seja, não tem credibilidade de saída. Há um impasse surgido pelo desenho das eleições de 2018. Diante da crise econômica e institucional que se vivia, as opções oferecidas foram manter as coisas como estavam ou quebrar tudo. O eleitorado resolveu quebrar tudo.

• Os militares perderam espaço no governo?

Os militares tentam fazer o governo funcionar. Só que não são um partido. É muito difícil, portanto, dar uma unidade de políticas de saúde, econômicas, de educação, e por aí vai. Este é o primeiro governo que não se obriga a ser coerente. O ministro Paulo Guedes (Economia) pode se aliar ao (presidente da Câmara, Rodrigo) Maia e brigar com ele na semana seguinte, como já ocorreu. É um governo feudalizado, com disputas por espaço, o que faz com que não tenha uma cara, a não ser o fator antissistema. E isso dialoga justamente com o terço da população mais fiel ao Bolsonaro. Por isso o primeiro mandato é pautado pelo enfrentamento institucional.

• As milícias digitais pró-governo são influentes nesta disputa por narrativas?

Minha preocupação é que as pessoas pensem que a manutenção desses 33% do eleitorado se dá só com mentira, manipulação de pessoas. Claro que existem robôs, tem algo artificial. Mas existe também uma mudança radical de fazer política. Bolsonaro se aproximou de pessoas conectadas no mundo digital, mas que se sentiam excluídas da política há muito tempo. Bolsonaro, o Steve Bannon (marqueteiro que atuou na campanha do americano Donald Trump), eles sabem operar nisso. As pessoas sentem, quando entram nessa corrente, que produzem efeitos reais. Que estão sendo ouvidas pelo líder. É muito importante não subestimar a parte viva dessas redes.

Pois é. Mas também é muito importante não superestimar.

Uma análise séria do bolsonarismo pode ser exposta nas sete sentenças (e links) abaixo:

1 – O bolsonarismo existe como movimento e como organização (ainda que incipiente e informal) revolucionária (para trás, quer dizer, reacionária).

2 – O bolsonarismo, no que tem de conteúdo ideológico, é basicamente olavismo (e bannonismo).

3 – Jair Bolsonaro e seus filhos – Flávio, Carlos e Eduardo – são bolsonaristas (quer dizer, olavistas e bannonistas), o mesmo se podendo dizer da maioria dos seus assessores estratégicos (como Filipe Martins).

4 – Jornalistas e analistas políticos, em geral, superestimam o tamanho do contingente bolsonarista.

5 – O bolsonarismo é reduzido: não se confunde com os simples simpatizantes, seguidores e eleitores de Bolsonaro.

6 – De certo modo, o bolsonarismo é um tigre de papel.

7 – O grande perigo para a democracia é o bolsonarismo dobrar ou, pior, triplicar de tamanho (circunstância em que ele deixará de ser metabolizável pela democracia).

A pirâmide da imagem abaixo dá um número estimado do contingente que pode ser chamado propriamente de bolsonarismo:

A lista abaixo (ainda incompleta, porém mais completa do que as anteriores já surgidas) nomeia pessoas que comandam o bolsonarismo (como Bolsonaro, seus filhos e seus gurus Olavo e Bannon – não mencionado na lista – e sequazes como Filipe Martins) e pessoas que cumprem, subjetiva ou objetivamente (porque até, às vezes, sem querer professar a fé no olavismo), o papel de hubs da rede descentralizada (mais centralizada do que distribuída) bolsonarista (o que alguns chamam de “influencers”).

Inclui também alguns jornalistas que viraram objetivamente influenciadores bolsonaristas, em grande parte por antipetismo, em parte porque querem ser de direita e, na ausência de uma direita propriamente dita no Brasil, acabaram virando reacionários de extrema-direita.

A lista não inclui os lavajatistas militantes que, de um modo ou de outro, contribuíram para a vitória de Bolsonaro e continuam atuando na vertente bolsolavajatista (como, por exemplo, os praticantes do jornalismo cafajeste de O Antagonista).

De qualquer modo, pode-se ver que os atores mais conhecidos ultrapassam em pouco a quantidade de 100 pessoas, como havia sido mapeado.

Abraham Weintraub

Alan Frutuoso

Alberto Silva (Giro de Notícias)

Alexandre Garcia (jornalista)

Alexandre Knoploch (deputado estadual PSL RJ)

Alexandre Pacheco

Allan dos Santos

Allienne da Costa Mendonça

Ana Caroline Campagnolo

Ana Paula

André Assi Barreto

André Petros Angelides Junior

Arthur Weintraub

Augusto Nunes (jornalista)

Bárbara Te Atualizei

Bene Barbosa

Bernardo Kuster

Bia Kicis

Bruno Engler (deputado estadual PSL MG)

Bruno Garschagen

Caio Coppolla (jornalista que se diz comentarista)

Camila Abdo (uma das “divas da opressão”)

Carla Zambelli

Carlos Bolsonaro

Carlos Jordy

Caroline de Toni

Célio Faria Júnior (membro do “gabinete do ódio”)

Claudia Wild (auxiliar de Allan dos Santos)

Claudio Humberto (jornalista)

Cleber Teixeira

Coronel Nishikawa (deputado estadual PSL SP)

Damares Alves (trata-se de uma fundamentalista-evangélica levada ao bolsonarismo pelas circunstâncias)

Daniel Ferraz

Daniel Lopes

Davy Albuquerque (editor do site Conexão Política)

Diego Garcia

Diego Rox

Dona Regina

Douglas Garcia (deputado estadual do PSL SP)

Edson Salomão (Direita São Paulo)

Eduardo Bolsonaro

Eduardo Matos de Alencar

Emílio Carlos (TV Nossa Senhora de Fátima)

Emilio Dalçoquio (empresário que puxou o locaute dos caminhoneiros)

Enzuh

Ernesto Araújo

Fábio ClickTime

Fabio Wajngarten

Fávio Gordon

Fernanda de Salles Andrade (do site Terça Livre, de Allan dos Santos)

Fernando Lisboa (o do Vlog)

Fernando Melo

Filipe Barros (deputado federal do PSL PR)

Filipe Eduardo

Filipe Martins (o Sorocabannon, o Robespirralho, que compõe o núcleo palaciano mais íntimo da família Bolsonaro e que, na prática, coordena o chamado “gabinete do ódio” homiziado no terceiro andar do palácio do Planalto)

Filipe Trielli

Filipe Valerim (e a galera do Brasil Paralelo, que se esforça para não aparecer)

Flávio Bolsonaro

Flavio Morgenstern (Flávio Azambuja Martins)

Flavio Rocha

Gil Diniz (o Carteiro Reaça, deputado estadual em SP)

Guilherme Fiúza (jornalista)

Gustavo Schmidt (deputado estadual do PSL RJ)

Helio Lopes

Ipojuca Pontes (jornalista)

Isentões

Italo Lorenzon

Jair Bolsonaro

Jhonatan da Silva Valencio Costa (John Valencio)

João Vinicius Manssur (advogado de Fakhoury)

Joice Hasselmann

José Carlos Sepúlveda

José Márcio Opinião

José Matheus Sales Gomes (membro do “gabinete do ódio”)

Josê Nêumane (jornalista)

José Roberto Guzzo (jornalista)

Josemi de Deus

Leandro Ruschel

Leda Nagle (jornalista)

Left Dex

Leonardo Barros (que se identifica como “Bolsonéas”)

Leonardo Oliveira (o tal L0en, publicitário)

Letícia Catelani

Lilo VLOG

Luciano Hang (dono das Lojas Havan)

Luiz Camargo

Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Marcelo Brigadeiro

Marcelo Frazão

Marcelo Reis

Marcio Labre

Marco Feliciano

Marcos Falcão

Mateus Matos Diniz (membro do “gabinete do ódio”)

Mauro Fagundes

Meyer Nigri

Nando Moura

O Ódio do Bem

Olavo de Carvalho

Onyx Lorenzoni

Osmar Stábile

Otávio Oscar Fakhoury (empresário do ramo financeiro, financiador do site Crítica Nacional e que se identifica como “milícia jacobina”)

Patriotas

Paula Marisa (que se identifica como “diva da opressão”)

Paulo Enéas (editor do Crítica Nacional)

Percival Puggina (jornalista, digamos)

Peruvian Bot

Pri & Ma

Ricardo de Aquino Salles

Ricardo Ribeiro

Ricardo Roveran

Roberto Alvim

Roger Moreira

Sara Winter

Sebastião Bomfim (empresário)

Silvano Silva

Silvio Grimaldo

Steh Papaiano (Stefanny Aparecida Ribeiro, “diva da opressão”)

Taiguara F. de Sousa

Tarciso Morais (Renova Mídia)

Tatiana Alvarez

Tércio Arnaud Tomaz (membro do grupo palaciano “gabinete do ódio”)

Tonho Drinks

Wellington Silva Santos

Excluindo, por óbvio, Bolsonaro e sua família – sem os quais nem haveria a palavra -, a existência do bolsonarismo depende dessas pessoas. Mas o mais importante é que, sem elas, o projeto populista-autoritário em curso no Brasil – que não depende apenas dos Bolsonaro – se desarticula e desmilingue. Na lista acima está a inteligência (ou desinteligência) autocrática que constitui hoje, além do jacobinismo lavajatista e do neopopulismo lulopetista, a maior ameaça i-liberal e majoritarista à nossa democracia.

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