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O debate sobre o genocídio supostamente cometido por Bolsonaro é diversivo

É hora de abandonar polêmicas inúteis e de esquecer essa história de genocídio, como tipo penal ou como hipérbole. A controvérsia foi instalada por uma fala de Gilmar Mendes em live promovida pela revista IstoÉ e aquecido por declarações destemperadas dos militares.

O debate sobre genocídio é diversivo. Bolsonaro é responsável, objetivamente (ou seja, com ou sem intenção), pelo morticínio em curso de brasileiros pela Covid-19 (o segundo maior do mundo). Isto é o que importa: a política necrófila que fez seu governo adotar. Assim, ele cometeu vários crimes contra a vida dos cidadãos.

Vejamos por que:

1 – Negou desde o início a gravidade da pandemia (comparando-a a uma gripezinha, um resfriadinho).

2 – Desacreditou os números de infectados e mortos divulgados pelas autoridades sanitárias do seu próprio governo e pelas autoridades estaduais e municipais.

3 – Sabotou, por palavras e atos, as medidas de distanciamento físico. Não observou, pessoalmente, o distanciamento físico e não usou máscaras (correndo o risco de se infectar e infectar outras pessoas).

4 – Mentiu à população dizendo que pessoas menores de 40 anos não corriam nenhum risco.

5 – Desinformou a população afirmando que se pegasse a Covid-19 não sofreria nada em razão do seu físico de atleta. E insinuando que os brasileiros tinham algum tipo de proteção natural contra o SARS-CoV-2 na medida em que mergulhavam no esgoto e não tinham nada.

6 – Opôs os cuidados sanitários à economia, como se fosse uma questão de optar por uma coisa ou por outra, afirmando que tantas ou mais pessoas iriam morrer de falta de emprego do que infectadas pelo vírus. Tentou jogar sobre governadores e prefeitos a culpa pela crise econômica, afirmando que foi o distanciamento físico o responsável pela crise e não a pandemia.

7 – Não fechou os aeroportos em tempo hábil. E não orientou um isolamento para valer que poderia ter poupado dezenas de milhares de vidas.

8 – Não usou o poder de compra do governo brasileiro para adquirir respiradores e equipamentos de proteção individual em tempo hábil (talvez como um truque, para depois acusar governadores e prefeitos por irregularidades na aquisição a preços majorados desses itens).

9 – Recomendou, reiteradamente, o uso de remédio não comprovado pelas autoridades de saúde e pela imensa maioria dos cientistas. Aplicou dinheiro público para a fabricação desse medicamento (a cloroquina) e ordenou que o Ministério da Saúde empurrasse o medicamento goela abaixo da população e dos órgãos de saúde a nível nacional mentindo sobre a sua eficácia. Fez um subordinado seu, um general ocupando interinamente o posto de ministro da Saúde, impor um protocolo apócrifo (não assinado por nenhum médico) induzindo a prescrição da cloroquina. Por último, pressionou indevidamente instituições respeitadas (como a Fiocruz), a recomendarem o uso do remédio ineficaz. Tudo com o objetivo não de curar as pessoas, salvar vidas, mas de sabotar o necessário distanciamento físico (para que os brasileiros pensassem assim: se já há um remédio milagroso, não preciso manter o isolamento).

10 – Desorganizou o Ministério da Saúde, demitindo dois ministros em meio à pandemia e nomeando um militar para administrá-lo, retirando do ministério a capacidade de coordenação nacional do enfrentamento à pandemia.

11 – Desconfiou dos hospitais quando os registros contabilizaram 40 mil mortos, emitindo para seus seguidores a orientação de invadir os hospitais para desmascarar a imprensa, revelando que os leitos estavam vazios: “Arranja uma maneira de entrar e filmar” – disse ele.

12 – Quis, deliberadamente, esconder do público informações sobre a pandemia, seja abolindo as entrevistas coletivas diárias do Ministério da Saúde, seja tentando mudar a forma de totalização e o horário de divulgação dos resultados (para que não fossem notícia nos principais telejornais).

13 – Elogiou a Suécia como modelo de enfrentamento da pandemia, mesmo diante da evidência de que este país é o quinto colocado no ranking de mortos por milhão de habitantes (se tirarmos da lista países muito pequenos, como San Marino e Andorra).

Estes são apenas alguns exemplos. Mas há muitos mais.

Enquanto isso… o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial dos países infectados pelo coronavírus. Às 07h00 de 19 de julho de 2020, já tínhamos 2.075.246 contaminados e  78. 817 mortos, figurando vergonhosamente em centésimo-sexto lugar na lista dos países que aplicam testes para detectar o vírus por milhão de habitantes. Aqui pode estar mais um crime – por descaso, omissão – do responsável pelo governo.

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