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Lula e a esquerda se merecem

Quem usa é usado. Lula usou a esquerda e foi o cara mais usado por ela.

Sim, Lula usou a esquerda, que se empolgou realmente com sua liderança. Construiu, aliás, um discurso para cativar e capturar intelectuais e militantes de organizações de orientação marxista. Assim como instrumentalizou e tapeou os operários de São Bernardo, negociando por trás dos panos com os patrões (criando um novo tipo de peleguismo sob a capa do chamado “sindicalismo autêntico”, meio no estilo Jimmy Hoffa).

Uma parte dos dirigentes das organizações de esquerda, porém, sempre desconfiou de Lula. No fundo esses dirigentes sabiam que ele era um herói sem caráter, mas ficaram com ele porque concluíram que era impossível chegar ao governo sem um grande líder, capaz de mesmerizar as massas e, com o tempo, a maioria dos eleitores. Assim, enquanto Lula usava a militância de esquerda como muque de campanha, a esquerda usava Lula como uma espécie de cavalo de troia para entrar na cidadela da burguesia, cujos portões eram inexpugnáveis para ela.

Em conversas reservadas, mesmo integrantes do Diretório Nacional do PT criticavam o comportamento de Lula, tanto do ponto de vista moral, quanto do ponto de vista da democracia. Sabia-se que ele era, no fundo, um oportunista e um populista. Mas a maioria jamais teve coragem de tornar públicas essas críticas. Afinal, Lula era (ou poderia se tornar, como de fato aconteceu) não apenas o campeão de popularidade e de votos, mas o chefe da maior tendência dentro do partido – a Articulação, que de fato dirigia o PT por cima e por fora da sua direção formal e, com o tempo, passou a ser assim uma espécie de “Partido Interno” (nos moldes daquele do romance 1984 de George Orwell).

Por outro lado – pensavam os estrategistas da esquerda – como abrir mão da única chance que temos de dar um curto-circuito no sistema de dominação das elites, bypassando a institucionalidade burguesa com um chefe capaz de se conectar diretamente ao povo?

Tudo mudou com a posse de Lula em 2003. Os que ficaram no partido engoliram as críticas e as restrições morais e políticas que tinham à Lula e à Articulação, para se refastelar e lambuzar de realpolitik.

Agora somos nós, pensaram. Agora é a hora de começarmos a detonar por dentro o sistema, conquistando hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido, para nunca mais sair do governo. Vamos ganhar primeiro o Nordeste e depois o resto, diziam alguns. Vamos usar os mesmos métodos que as elites sempre usaram, porém a nosso favor (quer dizer, a favor do povo, dos trabalhadores e não da burguesia, dos patrões) – pensaram outros, mas sem o dizer (foi daí que brotaram os grandes escândalos do mensalão e do petrolão). E, como ninguém é de ferro, vamos também aproveitar um pouco do que essa elite usufruiu às nossas custas durante séculos. E foi assim que a esquerda brasileira, abrigada no PT ou associada a ele, enveredou pelo crime, tanto pelo crime político, quanto pelo crime comum.

Surgiu uma nova “teoria”, uma mistura grossa de neomaquiavelismo com gramscismo. Da realpolitk maquiavélica cuidariam Lula, Dirceu e outros dirigentes, terceirizando-se o processo cultural de disputa ideológica, com vistas à conquista de hegemonia e à constituição de um novo bloco histórico, para os universitários, intelectuais, artistas, sindicalistas, onguistas, advogados, jornalistas etc.

As críticas internas à Lula cessaram completamente com a posse do Presidente Lula. Não porque os dirigentes de esquerda estivessem convencidos de que ele havia mudado. Não! Era puro realismo mesmo. Eis porque pessoas como Genoíno se perderam: para ter direito a um lugar no palco, trocaram por trinta dinheiros suas velhas convicções e se embriagaram com (o que acharam que era) o poder.

Após a posse de Lula, Brasília foi tomada por militantes partidários e sindicalistas que caíram na esbórnia dos hotéis cinco ou quatro estrelas, dos apartamentos funcionais, dos restaurantes caros, das viagens aéreas, dos privilégios oficiais e de uma remuneração certa no final do mês (coisas que nunca tiveram com tanta facilidade). Para os militantes que não privavam do núcleo duro da Articulação, era uma pequena esbórnia, todavia: uma espécie de compensação por sua luta tão árdua, anos a fio, carregando o palanquim onde iam aboletados seus dirigentes. Para esses dirigentes – como Lula, Dirceu, Gushiken, Palocci, Delúbio, Vaccari, Berzoini, Mercadante, Paulo Bernardo (todos da Articulação) -, hoje se vê nos vídeos gravados dos delatores, era uma grande esbórnia: milhões disponíveis, para quase tudo que precisassem ou simplesmente quisessem.

Mas mesmo a esquerda que era minoritária no PT, mais intoxicada pelas concepções marxistas-leninistas, adaptou-se aos novos tempos sem grande dificuldade. Seus dirigentes, sempre preteridos pela Articulação para qualquer coisa que pretendessem, ficaram ansiosos por prestar vassalagem à Lula, em troca de algum cargo ou benesse. O capo ia então administrando tudo isso com displicência, já que agora não dependia tanto dessa militância mais ideológica.

No fundo, porém, todos estavam usando Lula. Se antes para chegar ao governo, depois para se encaixar em algum aparato governamental ou conseguir um cargo em uma empresa estatal ou para-estatal. E continuam usando Lula, agora para voltar ao governo em 2018 – única chance, como sabem, do PT não se desintegrar completamente ou virar uma espécie de PCdoB.

Fora do PT ninguém via nada disso com clareza. Aliás, o PT e Lula continuam, em grande parte, desconhecidos do público e mesmo daqueles que se aliaram ao partido ou ao seu chefe. Continuam desconhecidos, inclusive, dos que se opuseram a eles (como os tucanos, que nunca foram capazes de entender a natureza do partido, a sua cultura e o seu projeto político e, muito menos, o caráter do seu grande chefe). E fora do círculo mais interno dos dirigentes do PT, até os militantes partidários não sabiam direito quem era Lula, para não falar dos seus eleitores (boa parte dos quais ainda não sabe da missa a metade).

Agora, afinal, outras pessoas estão vendo quem é Lula. A revista Veja, na sua edição que chegou hoje às bancas (19/04/2017), em artigo de Rodrigo Rangel, fez um resumo em um parágrafo.

“O Lula que emerge das delações da Lava Jato é um político pequeno, que não hesita em receber favores nem presentes de empresários, inescrupuloso e capaz de ações ousadas quando o problema envolve poder e dinheiro. Emílio Odebrecht percebeu isso – e vem, há quase três décadas, segundo confessou, fazendo contribuições rotineiras para aquele que representava a ‘ética no poder’.”

Antes, quando alguém chamava a atenção para o comportamento de cafajeste de Lula, era repreendido até mesmo por seus colegas ou familiares. Eu mesmo fui desacreditado e admoestado por amigos de longa data, que achavam que eu só podia estar ressentido, talvez em razão de alguma pequena rusga com o líder. Coisa menor, de caráter pessoal, que não deveria nunca embaçar minha visão e alterar meu juízo.

Mas não, não era ressentimento. Era observação atenta de um comportamento recorrente, tanto público quanto privado.

No artigo Psicopatas no poder mostrei que só um psicopata (ou sociopata) concederia em transformar o velório de sua mulher em comício. Aliás, há anos venho dizendo isso, a partir da observação pessoal do comportamento de Lula, que acompanhei de perto por uma década (de 1982 a 1993). E depois a partir da observação mais distante, porém não menos sistemática.

Lula tem grandes chances de ser um psicopata ou sociopata (vítima, talvez, do que a literatura médica chama de Transtorno de Personalidade Dissocial). Não consegue estabelecer uma real empatia com os outros. Usa-os conforme sua conveniência. Abandona ou entrega qualquer um para obter alguma vantagem ou salvar a própria pele, mesmo que seja seu camarada, mesmo que seja seu amigo, mesmo que seja seu parente. No passado, fez isso com Paulo Vidal e com Bisol. Depois fez o mesmo com Dirceu, Genoino, Delúbio, Silvinho, Vaccari. Não se duvide que ele possa fazer a mesma coisa com Palocci, Mantega, Okamotto e vários outros. E, se preciso, com seus próprios filhos. Foi essa mania de usar os outros, transformá-los em instrumentos de seus desejos e em objetos de sua atuação que ensejou, em contrapartida, as condições para que ele fosse tão usado.

Até agora Lula é réu em cinco processos, acusado de ter praticado os crimes de lavagem de dinheiro (211 vezes), corrupção passiva (17 vezes) e tráfico de influência (4 vezes), além de organização criminosa e obstrução da Justiça. Está sendo investigados em 12 inquéritos. E tudo isso – anote-se – é apenas o início. Qualquer pessoa com vestígios de superego ficaria ao menos envergonhada de estar nessa situação, mas não ele… ele não! E a esquerda… ora, a esquerda, apesar de tudo, continua defendendo Lula, mesmo já estando careca de saber que está seguindo um bandido.

A conclusão é simples. Lula e a esquerda se merecem. O oportunismo selou a aliança entre ambos.

 

 

 

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