Estamos vendo agora que vencer o Irã é impossível enquanto não for dissolvido o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica. Não adianta exigir do Irã que interrompa seu programa nuclear. Não adianta paralisar a produção de seus mísseis balísticos. Não adianta derrotar seus atuais braços terroristas (Hezbollah, Jihad Islâmica, Houthis, Hamas etc). E nem adianta matar os aiatolás e outros chefes religiosos, políticos ou militares iranianos. Se o corpo (Sepáh e-Pásdárán) não for dissolvido, nada feito.
É cabível um paralelo com o PT e a situação atual de degeneração das instituições da república brasileira, em que ministros do STF atropelam o parlamento e tornam nula a quebra de sigilo da empresa de um ministro. Protegem outro ministro que mente e concordam que ele use a corte para, em nota oficial da instituição, acusar falsamente uma instância do Congresso. A rigor, não há mais Estado de direito no Brasil e sim um Estado sob o arbítrio do STF. O império da lei virou império de um ente privado que age corporativamente para acobertar seus próprios malfeitos. E o que é pior: com objetivos políticos.
O que deve nos preocupar mais nem é o comportamento antidemocrático, ilegítimo e – como se vê agora – patentemente ilegal, de ministros da suprema corte. E sim ver que os militantes petistas estão negando tudo isso, dizendo que “Xandão está certo” e voltando a defender sua proposta histórica de “controle social da mídia” (sim, eles recuperaram seu velho slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”).
Reelejam ou não Lula, esses negacionistas continuarão por aí: no governo (se não em cargos de confiança, como funcionários concursados), no parlamento (ainda que em minoria), nos tribunais de justiça e no ministério público, em coletivos de juristas “pela democracia”, nos institutos de pesquisa de opinião e nas agências de checagem, na infantaria de jornalistas dos grandes meios de comunicação (que agora passaram a atacar), nas universidades (sobretudo nas áreas de humanas das federais), em muitas ONGs e movimentos sociais, nos sindicatos, centrais e associações profissionais, nos meios artísticos e culturais (via artistas famosos), nos partidos satelizados (alinhados ao eixo autocrático) – e… na maioria do STF.
São alguns milhões de agentes de conquista de hegemonia compondo uma espécie, mutatis mutandis, de “corpo da guarda da revolução islâmica”, alocados em postos chaves das instituições do Estado e das organizações da sociedade, com alta resiliência ou capacidade de resistir (como fizeram após a condenação dos seus principais dirigentes no mensalão e no petrolão e após o impeachment de Dilma e a prisão de Lula).
Isso não se resolve apenas com eleições. Mesmo que Lula perca a eleição de 2026, eles continuarão atuando e tentando inviabilizar o novo governo (como fizeram após serem derrotados nas urnas de 2018 – ainda que o vencedor daquele pleito também não fosse democrático).
A composição do STF não mudará em 2026 (nem em 2030) e a maioria da corte prosseguirá agindo com base na ideologia delinquente de “democracia militante”, que justifica adotar métodos autoritários contra os que consideram seus inimigos (tidos por inimigos da democracia). De sorte que o PT continuará usando o STF para anular a vontade dos eleitores. Como sabe que não tem – e não terá – maioria no parlamento, usará a suprema corte para invalidar as decisões do Congresso. Isso é um ataque ao coração da democracia, pois não adianta eleger deputados e senadores em grande número: a canetada de um agente do PT na suprema corte – de apenas um militante – prevalecerá sobre a vontade de dezenas ou centenas de legítimos representantes eleitos.
E tudo isso será normalizado pelo, por assim dizer, “eixo da resistência iraniana” que se incrustou na nossa república. A analogia à primeira vista parece forçada, mas faz sentido: basta ver como o governo do PT se alinha ao eixo autocrático na sua campanha de destruição das democracias liberais: apoia as ditaduras russa, chinesa, cubana, venezuelana, nicaraguense, angolana e, inclusive… iraniana!
A permanecer o atual desenho institucional não há saída para a democracia brasileira a não ser um amplo e vigoroso movimento da nossa sociedade que questione tudo isso.

