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Analisando o bolsonarismo como fenômeno social

Por que Bolsonaro desperta tantas paixões e mobiliza multidões

Quem acompanha a campanha de Bolsonaro, em especial sua chegada triunfal às diversas cidades que visita, nos aeroportos, mas não só, percebe claramente que há um fenômeno social implicado na ascensão do bolsonarismo.

Já tratei disso em mais de um artigo. O principal deles, de 10 de agosto de 2018, foi o intitulado Há um fenômeno social, ainda inexplicado, na ascensão do bolsonarismo. Penso que a maioria dos analistas não se dedica à questão simplesmente porque não sabe bem o que é um fenômeno social do ponto de vista das redes, quer dizer, da fenomenologia da interação social em mundos altamente conectados.

Boa parte das adesões a Bolsonaro não vem de militância organizada, no sentido tradicional do termo, quer dizer, politicamente organizada (como a militância do PT, por exemplo). Não! Há algo além aí. Além da presença do voluntariado (sim, não são cabos eleitorais pagos), há enxames de admiradores, seguidores, fãs, que se constelam, clusterizam e flokeiam (de floking: os mais maldosos diriam herding). Não há propriamente uma organização política por trás. Não há partido. O comando de campanha é pífio. Não há estrategistas e quadros políticos experimentados em tarefas de direção e de agitação e propaganda.

Como isso pode estar acontecendo?

A primeira resposta errada é atribuir tal sucesso de campanha (sim, pois é um sucesso inegável, seja qual for o resultado do pleito) às propostas de Bolsonaro. Errada porque o conteúdo não é variável relevante para explicar comportamentos coletivos. O conteúdo vem depois, quando o sujeito que se auto-mobilizou e contaminou as pessoas que se relacionam com ele é chamado a explicar o que está fazendo, justificar sua participação.

A segunda resposta errada é aquela que diz que isso acontece porque “o povo é de direita” (conservador nos costumes) e agora está tendo a chance de se manifestar politicamente (sobretudo em razão da disponibilidade das mídias interativas). Isso também está errado porque, embora tenha uma cultura conservadora e suas opiniões privadas coincidam com as verbalizadas por Bolsonaro, as opiniões públicas não são iliberais em termos políticos (como se sabe – ou não se sabe – opinião pública não é a soma das opiniões privadas dos indivíduos). Se as opiniões privadas dos indivíduos pudessem, por soma ou justaposição, virar opinião pública, habitando por reflexão, sem qualquer tipo de refração introduzida pelo debate público, o mundo da política, jamais poderia ter havido democracia, nem no Brasil, nem em lugar algum do mundo.

Pode-se dizer, para começar a explicar o fenômeno do ponto de vista das redes, que conformou-se uma configuração social que está permitindo a emergência do bolsonarismo (como fenômeno social mesmo, antes de ser fenômeno político). Bolsonaro, neste sentido, cumpre uma função social na rede (poderia ser outro qualquer que tivesse a sorte de casar tão perfeitamente pessoa com preparação). Ele cataliza o sentimento de revolta com a política, um ressentimento social, uma vontade de revanche, que não tem a ver somente, nem principalmente, com a exclusão social e política ou com a desigualdade econômica. Tudo isso instala um outro emocionar na sociedade, que contamina, por cloning (sem que alguém tenha que traçar um plano de mobilização), amplos extratos da população que são mais vulneráveis a esse tipo de estímulo (ou que estão prontos para respondê-lo). Repetindo: não é conteúdo, é emoção, desencadeada por atitudes, gestos, posturas, memes (no sentido corrente como a palavra foi deformada pelo uso nas mídias sociais, mais do que no sentido original do termo, introduzido por Richard Dawkins, no livro O gene egoísta, em 1976).

Há um fenômeno de rede no bolsonarismo. Não se pode explicá-lo sem entender a fenomenologia da interação social. Não estou me referindo somente à mídias sociais (incorretamente chamadas no Brasil de redes sociais). A rede é social, como o nome está dizendo, não digital ou virtual. Não é o uso de ferramentas de comunicação, de tecnologias, de dispositivos, que causa o fenômeno (embora os meios de comunicação interativos o potencializem). Alguma coisa está acontecendo, na estrutura e na dinâmica da sociedade brasileira, para permitir isso. Quem quiser tratar o problema apenas do ponto de vista da ciência política, digamos, tradicional, vai ter dificuldade de encontrar respostas.

Os hubs da rede que se configurou tendo Bolsonaro como centro principal não são os mais pobres e sim contingentes de setores médios da população, em boa parte com escolaridade média ou superior, que ganham mais de dois salários mínimos, não passam fome ou outras privações que afetam a maior parte da base eleitoral de Lula. Não são pessoas que lutam por mais direitos, contra a exploração (econômica), a opressão (política) e a dominação (cultural). São, significativamente, pessoas revoltadas com essas lutas do modo como elas foram promovidas pela esquerda e pelo PT.

Uma conjunção fortuita de vários fatores permitiu que se configurasse um campo com tais características. Em primeiro lugar, indiscutivelmente, o PT. Vinte anos de guerra de posição na sociedade e mais treze anos de aparelhamento do Estado, para tentar implantar um projeto neopopulista de esquerda, lulopetista, geraram revolta e indignação em amplos setores sociais e ensejaram a formação, por enantiodromia, de uma direita hidrófoba hoje majoritariamente bolsonarista.

Em segundo lugar, a vacilação, a leniência e a conivência do PSDB, que se omitiu de fazer oposição de verdade, durante mais de uma década, ao projeto neopopulista do PT. Aqueles que deveriam fazer oposição abandonaram o povo e as pessoas sentiram-se desprotegidas e se revoltaram.

Em terceiro lugar, a carona que pegaram, nas grandes manifestações pelo impeachment, malfeitores ideológicos como o autocrata Olavo de Carvalho, ofertando uma narrativa estruturada para o crescimento da militância bolsonarista. Isso não explica o fenômeno social, como foi dito, mas permite a sua justificação (começando pela auto-justificação).

E em quarto lugar, mas não menos importante, a instrumentalização política da operação Lava Jato que alavancou o moralismo presente na base da sociedade brasileira dando-lhe uma expressão política, ou pior, antipolítica (e promovendo a honestidade como valor universal em lugar da democracia). Como se o grande – e até o único – problema da política fosse a corrupção.

Mas as razões apresentadas acima não são suficientes para explicar completamente o fenômeno social. São razões políticas. O bolsonarismo pode crescer porque há uma deformação do campo interativo que possibilitou a instalação de forte polarização política, sim, mas quase que por fora da política. Grupos minoritários, quase marginais, que recusam a política, sempre existem em democracias e são metabolizáveis por ela. Quando, porém, eles crescem, formando rapidamente volumosas correntes de opinião com a dinâmica de enxame, é sinal de que algo mais está presente.

Não haveria bolsonarismo se não tivesse havido petismo. O bolsonarismo é o efeito rebote do petismo, não apenas no sentido político (o que chega a ser óbvio), mas sobretudo no sentido social (e entender isso é bem mais difícil).

Em próximo artigo vamos continuar expondo alguns resultados preliminares da presente investigação.


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