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Conservadores x inovadores não é a mesma coisa que reacionários x revolucionários

Consideremos aqui as designações – conservadores e inovadores – no sentido político do termo e não apenas, nem principalmente, nos sentidos muito amplos em que elas são comumente empregadas quando se consideram todos os elementos de uma cultura. Toda cultura é conservadora, é da sua própria natureza conservar circularidades que são inerentes à redes de conversações e que são capazes de transmitir comportamentos (de modo não-genético). É impossível separar totalmente costumes, crenças e valores que se replicam na sociedade (na esfera privada das pessoas), de direitos, normas e instituições que vigem no mundo político (e habitam a esfera pública). Mesmo assim será preciso, para tratar adequadamente da questão, focalizar as diferenças entre conservadores e inovadores como dois tipos de comportamentos políticos.

Os verdadeiros conservadores – sobretudo os liberais-conservadores – têm um pensamento e um modo de interagir políticos respeitáveis. Eles fazem falta em qualquer sociedade democrática. Talvez se possa dizer que eles mantêm viva a tensão entre manutenção e mudança. Sempre há costumes, crenças, valores, direitos, normas e instituições, que devemos conservar e outros que devemos mudar. Por exemplo, devemos conservar as normas e instituições da democracia liberal, até como condição para que outras normas e instituições pós-liberais possam surgir (pois em regimes i-liberais não há ambientes favoráveis ou propícios ao surgimento do novo).

Outra coisa – muito diferente dos conservadores – são os retrogradadores: revolucionários para trás, ou seja, reacionários. E outra coisa, ainda, são os revolucionários que acham que estão caminhando para frente, mas querem implantar modelos pré-concebidos de sociedade que sacrificam a liberdade presente em nome de um impossível reino futuro da liberdade (e impossível porque não se pode chegar a mais liberdade futura a não ser expandindo a esfera da liberdade presente – que é a única liberdade que existe). Estes dois últimos, em geral, são autocratas, ainda que aceitem usar a democracia contra a democracia (concorrendo a eleições, por exemplo), mas apenas como um meio tático para se apossar do poder.

A tensão própria – e que é benigna – da democracia, não é entre conservadores e revolucionários (nos sentidos acima) e sim entre conservadores e inovadores. Desgraçadamente, certo pensamento político conservador se estruturou em contraposição ao pensamento dito revolucionário. É claro que se você quer ser inovador, não será um conservador (seria uma contradição em termos). Mas, para não ser conservador, ninguém precisa ser revolucionário: basta ser inovador.

Há, portanto, diferenças importantes entre conservadores e inovadores. Embora sejam capazes de conviver com a democracia, os conservadores não a teriam inventado e reinventado. Aliás, a principal inovação na política foi a invenção da democracia, quer dizer, da política propriamente dita (a política que toma como sentido a liberdade) como um modo de regulação não-guerreiro de conflitos. Os democratas atenienses, na passagem do século 6 para o século 5 a. C. foram inovadores ao ensaiarem um regime inédito, que dispensava um senhor (mas seria impensável para qualquer conservador admitir tal possibilidade). E os democratas modernos, que reinventaram a democracia no século 17, também foram inovadores ao introduzirem a representação, a noção de império da lei e o Estado de direito, a separação e o equilíbrio entre os poderes, os mecanismos de freios e contrapesos, a noção de que a legitimidade democrática é uma consequência da combinação de vários critérios (ou princípios), como a liberdade, a eletividade, a publicidade (ou transparência), a rotatividade (ou alternância), a legalidade e a institucionalidade.

Diante da crise da democracia dos modernos (incorretamente chamada de democracia liberal, pois toda democracia deve ser liberal no sentido político do termo e a maioria das democracias modernas não é suficientemente liberal), os inovadores se preocupam mais com a continuidade do processo de democratização (que pode levar a outras reinvenções da democracia) do que com a manutenção de um modelo (o modelo setecentista da democracia representativa). Além disso, os inovadores estão preocupados com a expansão da democracia como modo-de-vida ou de convivência social (nas instituições da sociedade) e não apenas em reproduzi-la como modo de administração política (do Estado) – coisa que todos os conservadores olham com grande desconfiança.

Sim, conservadores desconfiam das mudanças, mesmo quando as aceitam. Michael Oakeshott, um conservador de verdade, escreveu em 1962 – em Rationalism in Politics – que “ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica”. Tudo bem. Em democracias é bom que existam pessoas que digam coisas assim. Desde que não existam somente pessoas que digam coisas assim. Dizendo coisas assim, pessoas como Oakeshott jamais teriam inventado ou reinventado a democracia. Sem inovadores, repita-se, a democracia dos antigos e a democracia dos modernos não teriam surgido. Sem inovadores, a democracia liberal atual corre o risco de se estiolar e, progressivamente, desaparecer. E não é pela repetição ad nauseam de que a democracia liberal é o melhor regime já inventado que será possível salvá-la da atual recessão ou desconsolidação democrática.

Inovadores democráticos, como democratas no sentido forte do conceito, não são propriamente os democratas formais (que compõem a maioria dos atores políticos nas democracias realmente existentes) e, nem mesmo, apenas os liberais-políticos (que querem defender as democracias liberais que temos porque acham que foi o melhor regime político já inventado para garantir direitos políticos e liberdades civis acima de certo patamar). Inovadores democráticos defendem as democracias que temos porque sabem que só nesse tipo de regime será possível caminhar em direção às democracias que queremos. Em Cartum, Pyong Yang ou Riade, isso é impossível (pois que nestes países não há democracia alguma a ser mantida) e em Ancara, Budapeste ou Caracas isso hoje é muito mais difícil. Mas não temem explorar e tensionar os limites da democracia liberal em busca de novas formas de democracia que respondam mais adequadamente aos desafios contemporâneos; ou seja, que sejam mais distribuídas, mais interativas, regidas mais pela lógica da abundância do que da escassez, mais vulneráveis ao metabolismo das multidões e mais responsivas aos projetos comunitários, mais cooperativas e lastreadas na confiança entre as pessoas, mais diversas e plurais (não admitindo apenas uma única fórmula internacional, mas múltiplas experimentações glocais).

O que um inovador não pode ser de jeito nenhum é um revolucionário (nos dois sentidos descritos acima). Ou seja, não pode querer fugir para trás, como os reacionários, nem para frente, como os ditos revolucionários. Ambos, como se afirmou acima, sacrificam as liberdades presentes (e, portanto, desqualificam a política), seja em nome da instauração de uma ordem pretérita, seja em nome do sucesso de uma estratégia para conduzir as pessoas rumo a uma imaginária liberdade futura (sacrificando sua liberdade presente). Revolucionários – sejam para trás ou para frente – querem, na verdade, fugir da política (ou voltando ao “regime dos nossos pais”, como os oligarcas atenienses que se denominavam patriotas e queriam restaurar uma ordem pregressa, ou avançando em direção a uma nova ordem imaginária, utópica, quer dizer, distópica). Reacionarismo e revolucionarismo – ao buscarem uma perfeição e uma pureza que estavam no passado ou estarão no futuro – são proteções contra a experiência presente da política. São rejeições da condição humano-social, ou melhor, recusas de aceitação dos seres humanos concretos com todas as suas imperfeições e sujidades, que vêm à tona quando interagem livremente (sem que alguém mais perfeito e mais puro – um sábio, um santo, um herói ou um guia genial -, que lhes esteja acima, os conduza). A política erra (e o erro nada mais é do que comportamento aleatório sem o qual não há auto-organização), mas eles querem sempre acertar (apostando na hetero-organização). A política é suja, então eles querem limpá-la. De um ponto de vista radicalmente democrático são, a rigor, movimentos antipolíticos.

Nas democracias cabem perfeitamente conservadores (em especial, se forem liberais-conservadores) e inovadores. Os reacionários e os revolucionários que usam a democracia contra a democracia também cabem, desde que fiquem nas margens (ou nos extremos do espectro), como remanescências vestigiais da cultura patriarcal, hierárquica e guerreira que, entretanto, se forem ativadas, autocratizam a democracia ou a tornam menos liberal (no sentido político do termo) e mais majoritarista. Por isso, quando qualquer um destes (reacionários ou revolucionários) acumula força suficiente para assumir e dominar o centro político, a chamada democracia liberal fica ameaçada e pode decair para uma democracia apenas eleitoral (menos liberal ou i-liberal), para uma autocracia eleitoral ou, pior, para uma autocracia fechada.

Em democracias estáveis a tensão entre conservadores e inovadores é bem-vinda. Quando, porém, a tensão (e mais do que isso, uma polarização) se estabelece entre reacionários e revolucionários, ou seja, entre revolucionários para trás e revolucionários para frente, triunfa a antipolítica e a estabilidade democrática corre o risco de ir para o ralo. E o pior é que em vez de assistir a um instrutivo debate entre Roger Scruton e Anthony Giddens ou entre Michael Oakeshott e Ralf Dahrendorf, o distinto público é aviltado por uma troca de insultos entre Olavo de Carvalho e Guilherme Boulos.


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