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Quarta reflexão terrestre sobre a democracia

Uma síntese

A política é um tipo de interação entre seres humanos, quer dizer, entre os entes sociais que chamamos de pessoas.

Nem o ser humano propriamente dito (a pessoa, não o exemplar da espécie Homo Sapiens ou do gênero Homo – que é humanizável, mas só se torna humano quando humanizado pela interação com outros humanos) é um animal, nem existe nada como um Zoon Politikón (o animal político inventado por Aristóteles). A política acontece no entre-os-seres-humanos, ou seja, não existe uma substância política original.

Esse tipo de interação enseja que os humanos possam se conduzir socialmente (ou se auto-conduzir) sem terem um senhor, sem serem escravos nem súditos de ninguém (*), a partir do livre-proferimento de suas opiniões. Isso foi chamado de democracia, a política que tem como fim a liberdade (e não a ordem).

Não é necessário – conquanto seja desejável – que os humanos que interagem na comunidade política sejam iguais do ponto de vista sócio-econômico. Assim, pode haver desigualdade sócio-econômica e, mesmo assim, a democracia se exercer, mas o que não pode haver é desliberdade, isto é, desigualdade política.

A democracia também não exige que seus interagentes sejam virtuosos, nem que tenham as mãos limpas. Não é um sodalício de seres puros, retos e perfeitos, como queriam os pitagóricos (e por isso eles eram autocratas, não democratas). É apenas um modo não-guerreiro de regulação de conflitos em uma comunidade de seres humanos realmente existentes, que não querem – repita-se – ter um senhor, mas com todos os seus vícios, impurezas, curvaturas e imperfeições. Portanto, nada disso – dessas imperfeições humanas – ameaça de morte ou inviabiliza a democracia, senão a vontade, levada à prática, de alguém (mesmo que seja o ser mais honesto e limpo do planeta, um clone de Mahatma Gandhi ou de Francisco de Assis) de estabelecer um domínio sobre a comunidade dos imperfeitos e sujos humanos.

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(*) Esta é uma das mais antigas referências à natureza da democracia dos atenienses. E surge assim definida por Ésquilo: o regime daquele povo que não tem um senhor. “Não são escravos, nem súditos de ninguém”. A peça foi produzida em 472 AEC., em conjunto com outras duas tragédias e um drama satírico (hoje perdidos), e com elas Ésquilo teria ganho o festival ateniense das Grandes Dionísias daquele ano. Os persas é a mais antiga peça de teatro de que se conhece o texto completo. É de assinalar igualmente que é das tragédias gregas clássicas a única cujo tema se baseia em fatos contemporâneos do autor e não em histórias mitológicas. A ação decorre em Susa, capital da Pérsia, por alturas da Batalha de Salamina (480 a.C.), da qual Ésquilo participou como soldado. Curiosamente, esta batalha é analisada pelo lado do inimigo dos gregos, os derrotados persas. A trama roda assim em torno do comportamento dos persas, sobretudo dos nobres persas (representados no coro, logo na abertura), de Xerxes, o rei derrotado perante sua mãe, Atossa, e o fantasma do pai, Dario.

Personagens  —  Coro, composto de anciãos, distinguidos por nascimento e mérito. Eram os chamados fiéis. | Atossa, viúva de Dario, mãe de Xerxes. | Mensageiro Sombra de Dario | Xerxes, rei da Pérsia, filho de Dario.

“Corifeu
Vencida Atenas, submeter-se-á toda a Grécia.

Atossa
É pois o exército dos atenienses?

Corifeu
Tal como é muitos males já causou ao medas.

Atossa
Tem eles recursos, riquezas suficientes?

Corifeu
Possuem uma mina de prata, tesouro da terra.

Atossa
São arcos e flechas que lhes armam as mãos?

Corifeu
Não; mas fortes espadas, firmes escudos.

Atossa
Quem é seu senhor? Quem lhes comanda o exército?

Corifeu
Não são escravos, nem súditos de ninguém.

Atossa
Como poderão resistir e enfrentar o inimigo?

Corifeu
Não destruíram, porventura, o soberbo exército de Dario?

Atossa
Triste presságio para as mães dos que partiram.”


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