Consantino

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Um exemplo de como são conservadores os nossos liberais

O adepto do liberalismo-econômico Rodrigo Constantino, publicou ontem (12/09/2017), no seu blog na Gazeta do Povo, uma tradução livre do artigo de Dennis Prager, de ontem também, em Town Hall, intitulado Leftism Is Not Liberalism.

O propósito de Prager era mostrar que a esquerda atual ataca os principais valores liberais e que os (verdadeiros) liberais não são inimigos dos conservadores. Lendo o artigo, porém, vemos que o autor é um conservador, não um liberal.

Seguem a tradução livre publicada por Constantino, interpolada com observações críticas (em azul) e o texto original de Prager.

ESQUERDISMO NÃO É LIBERALISMO: A ESQUERDA ATACA HOJE OS PRINCIPAIS VALORES LIBERAIS

Rodrigo Constantino, Gazeta do Povo, 12 de setembro de 2017

Por Dennis Prager

Qual a diferença entre um esquerdista e um liberal? Responder a esta pergunta é vital para entender a crise que enfrentam hoje a América e o Ocidente. No entanto, poucos parecem capazes de fazê-lo. Ofereço o texto seguinte como um guia. Aqui está a primeira coisa a saber: os dois não têm quase nada em comum. Pelo contrário, o liberalismo tem muito mais em comum com o conservadorismo do que com o esquerdismo. A esquerda apropriou-se da palavra “liberal” de forma tão eficaz que quase todos – liberais, esquerdistas e conservadores – pensam que são sinônimo. Mas eles não são. Vejamos alguns exemplos importantes.

Sim, é verdade que um esquerdista não é liberal. Antes de qualquer coisa porque um esquerdista é, fundamentalmente, um estatista. Neste sentido, liberais se aproximam mais de conservadores (do que de esquerdistas), porém, não de quaisquer conservadores e sim de parte dos conservadores não-estatistas. Prager, como se verá na sequência destes comentários, quer transformar liberais em conservadores. Tal como os seguidores das doutrinas do liberalismo-econômico, ele não entende bem o liberalismo político.

Raça: esta é talvez a mais óbvia das muitas diferenças morais entre liberalismo e esquerdismo. A essência da posição liberal sobre a raça era que a cor da própria pele é insignificante. Para os liberais de uma geração atrás, apenas os racistas acreditavam que a raça é intrinsecamente significativa. No entanto, à esquerda, a noção de que a raça é insignificante é ela mesma racista. Assim, a Universidade da Califórnia considera oficialmente a afirmação “Existe apenas uma raça, a raça humana” como racista. Por essa razão, os liberais eram apaixonadamente comprometidos com a integração racial. Os liberais devem estar enojados com a existência de dormitórios negros e graduações separadas de negros em campus universitários.

“Diferenças morais” é um conceito que atravessa o samba. As diferenças a ressaltar deveriam ser de concepções políticas. De qualquer modo, raça é uma noção que não tem lugar na política.

Capitalismo: os liberais sempre foram pró-capitalistas, reconhecendo-o pelo que é: o único meio econômico de tirar grandes números da pobreza. Os liberais muitas vezes consideravam o governo capaz de desempenhar um papel maior para tirar as pessoas da pobreza do que os conservadores, mas nunca se opunham ao capitalismo e nunca foram pelo socialismo. A oposição ao capitalismo e a defesa do socialismo são valores de esquerda.

Não. Os liberais em termos políticos são a favor do livre-mercado, o que é bem diferente de serem pró-capitalistas (o que não significa, é claro, ser a favor do socialismo). Ora, livre-mercado não é sinônimo de capitalismo. O pensamento político liberal é anterior ao conúbio entre empresa monárquica e Estado hobbesiano que fundou o capitalismo. O que se pode dizer é que liberais não são anti-capitalistas (como os socialistas).

Nacionalismo: os liberais acreditavam profundamente no Estado-nação, se sua nação era os Estados Unidos, a Grã-Bretanha ou a França. A esquerda sempre se opôs ao nacionalismo porque o esquerdismo está enraizado na solidariedade de classe, e não na solidariedade nacional. A esquerda tem desprezo pelo nacionalismo, vendo nele o primitivismo intelectual e moral na melhor das hipóteses, e o caminho para o fascismo na pior das hipóteses. Os liberais sempre quiseram proteger a soberania e as fronteiras americanas. A noção de fronteiras abertas teria atingido um liberal como tão censurável como a um conservador. É emblemático do nosso tempo que os escritores de esquerda da revista do Superman tenham colocado o Superman anunciando alguns anos atrás: “Pretendo falar ante as Nações Unidas amanhã e informá-los que estou renunciando à minha cidadania americana”. Quando os escritores de Superman eram liberais, o Superman não era apenas um americano, mas um que lutou pela “Verdade, a justiça e o caminho americano”. Mas no pronunciamento dele, ele explicou que o lema “não é mais suficiente”.

Os liberais não têm nada a ver com a crença no Estado-nação (a atual forma de Estado, nascida da guerra, da Paz de Westfália – como, aliás, todas as outras cinco formas precedentes de Estado). Pelo contrário. Tanto é assim que apostaram na fórmula Estado democrático de direito para domesticar a voracidade do Leviatã, sem a qual teria sido impossível aos modernos reinventar a democracia (pois o Estado, cuja estrutura e dinâmica foram desenhadas para a guerra, acabaria guerreando seu próprio povo, invadindo a esfera dos direitos dos cidadãos). Liberalismo político, na verdade, se opõe a qualquer tipo de nacionalismo (que é estatismo). Liberais são anti-estatistas. Nacionalistas são, via de regra, estatistas.

Visão da América: os liberais veneraram a América. Assista filmes americanos da década de 1930 até a década de 1950 e você estará assistindo filmes abertamente patriotas, celebrando a América – praticamente todos produzidos, dirigidos e atuados por liberais. Os liberais entendem bem que a América é imperfeita, mas eles concordam com um ícone liberal chamado Abraham Lincoln que a América é “a última melhor esperança da Terra”.

Para a esquerda, a América é essencialmente um país racista, sexista, violento, homofóbico, xenófobo e islamofóbico. A esquerda ao redor do mundo detesta a América, e é difícil imaginar por que a esquerda americana seria diferente nesse quesito de outros esquerdistas de todo o mundo. Os esquerdistas muitas vezes se ofendem por ter seu amor pela América colocado em dúvida. Mas essas descrições esquerdistas da América não são a única razão para assumir que a esquerda tem mais desprezo do que o amor pela América. A visão esquerdista da América foi encapsulada na declaração do então presidente Barack Obama em 2008. “Estamos a cinco dias de transformar fundamentalmente os Estados Unidos da América”, disse ele.

Agora, se você conhecesse um homem que dissesse que queria transformar a esposa ou uma mulher que dissesse isso sobre o marido, você assumiria que amaram seu cônjuge? Claro que não.

Liberais não têm nada a ver com patriotismo (que é, no fundo, nacionalismo, ou seja, estatismo). “Venerar a América” é uma atitude conservadora, um preceito quase religioso, que pode ser anti-esquerdista, sim, mas não inspirado pelo liberalismo político. Por que diabos a América deveria ser a última ou a melhor esperança da Terra, como afirmou Lincoln? Essa esperança só se justifica, para os liberais, na medida em que os USA continuem sendo um país democrático. Ou seja, toda esperança dos liberais está na manutenção daquele “governo civil” de que falava Tocqueville, que depende do comportamento coletivo de pessoas concretas e não de qualquer entidade abstrata chamada América. Nunca é demais lembrar a frase genial de Hannah Arendt (1958) em A condição humana: “A polis não era Atenas e sim os atenienses”.

Liberdade de expressão: a diferença entre a esquerda e os liberais em relação à liberdade de expressão é tão dramática quanto a diferença em relação à raça. Ninguém estava mais comprometido do que os liberais americanos com a famosa declaração “Eu desaprovo o que você diz, mas vou defender [até] a morte seu direito de dizer isso”.

Os liberais ainda estão. Mas a esquerda está liderando a primeira supressão nacional da liberdade de expressão na história americana – das universidades ao Google para quase todas as outras instituições e locais de trabalho. Ela afirma apenas se opor ao discurso de ódio. Mas proteger o direito da pessoa A de dizer o que a pessoa B julga censurável é o ponto essencial da liberdade de expressão.

Claro que a liberdade está no core do pensamento (e do comportamento, posto que não estamos tratando de um credo) liberal. Mas isso não se reduz à liberdade de expressão, envolvendo todas as demais liberdades políticas e civis. É preciso ver o que Prager entende por liberdade (que compreende a liberdade de ser infiel, inclusive à sua origem nacional). Ah!… Aqui a coisa complica para conservadores que se metem, como ele, a ensinar o que seria o liberalismo.

Civilização ocidental: os liberais têm um profundo amor pela civilização ocidental. Eles a ensinaram em praticamente todas as universidades e celebraram suas realizações únicas morais, éticas, filosóficas, artísticas, musicais e literárias. Nenhum liberal teria se juntado ao Rev. Jesse Jackson de esquerda ao cantar na Universidade de Stanford: “Ei, ei. Ho, ho. A civilização ocidental tem que ir embora”. O mais venerado liberal na história americana é provavelmente o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt, que freqüentemente citou a necessidade de proteger não apenas a civilização ocidental, mas a civilização cristã. No entanto, os esquerdistas denunciaram por unanimidade o presidente Donald Trump por seu discurso em Varsóvia, na Polônia, no qual ele falou de proteger a civilização ocidental. Eles argumentaram não só que a civilização ocidental não é superior a nenhuma outra civilização, mas também que não é mais do que um eufemismo para a supremacia branca.

Não se sabe de onde Prager tirou isso. “Profundo amor pela civilização ocidental”? Este preceito só pode ter saído de uma pauta dos conservadores, dos que raciocinam a partir do choque de civilizações (seja lá o que for, pois, na verdade, vivemos todos, há mais de cinco milênios, na mesma civilização, que é a civilização patriarcal). Mas ele vai além: evocando Roosevelt, quer imputar aos liberais a defesa da civilização cristã. O que isso tem a ver com o liberalismo político? Nada. O liberalismo político não pode introduzir separações entre as pessoas por razões extra-políticas, sobretudo religiosas. Todos os que tomam a liberdade – e não a ordem – como sentido da política, desde os democratas atenienses, passando por Spinoza, até os democratas contemporâneos, como nós, são liberais. E assim como para nada importa a raça, para nada importa, igualmente, a religião.

Judaísmo e Cristianismo: os liberais conheceram e apreciaram as raízes judaico-cristãs da civilização americana. Eles mesmos foram à igreja ou à sinagoga, ou pelo menos apreciaram que a maioria dos seus companheiros americanos o faziam. O desprezo que a esquerda tem – e sempre teve – pela religião (exceto pelo Islã hoje) não é algo com o qual um liberal jamais teria se identificado.

Não se trata de desprezar a religião (ele quer falar de um subconjunto das religiões monoteístas patriarcais, como a judaica e a cristã) e sim de não levar em conta nenhum critério relacionado à adesão a qualquer credo como pré-condição para avaliar comportamentos políticos. O amor à liberdade (isto sim), que dá sentido e justifica o termo liberal, não tem nada a ver com a adesão a qualquer doutrina, laica ou religiosa.

Se a esquerda não for derrotada, a civilização americana e ocidental não sobreviverá. Mas a esquerda não será derrotada até que bons liberais entendam isso e se juntem à luta. Caros liberais: os conservadores não são seu inimigo. A esquerda é.

Aqui fica claro a intenção de Dennis Prager. Ele quer uma aliança entre liberais e conservadores para destruir a esquerda (o que até se entende do ponto de vista político), mas quer fazer isso emprenhando os liberais com um sêmen conservador. Ou seja, ele quer transformar liberais em conservadores, com esse papo furado de sobrevivência da civilização americana. Os liberais em termos políticos não desprezam o papel histórico relevante para o mundo que teve (e ainda tem) a formidável experiência de democracia na América, mas não podem transformar isso numa espécie de totem ou de farol perpétuo para a humanidade. Todas as experiências de democracia, que tentaram materializar o ideal de liberdade como autonomia, foram (e serão) singulares e precárias. Não há um referencial permanente, extra-político, para orientar a ação política. Os referenciais são fornecidos pelas experiências concretas de desconstituição de autocracia – sobretudo enquanto estão acontecendo.

Como é que um (autoproclamado) liberal, como Constantino, reproduz acriticamente um texto pedestre e conservador (a rigor iliberal) como este de Dennis Prager? Só há uma explicação. Nossos liberais não são tão liberais assim do ponto de vista político. Seguir qualquer doutrina do liberalismo-econômico (elaborada por von Mises ou por outro pensador economicista anti-marxista) não é suficiente para transformar ninguém em um liberal em termos políticos.

Abaixo a versão original:

Leftism Is Not Liberalism

Dennis Prager, Town Hall, 12 Sep 2017 

What is the difference between a leftist and a liberal?

Answering this question is vital to understanding the crisis facing America and the West today. Yet few seem able to do it. I offer the following as a guide.

Here’s the first thing to know: The two have almost nothing in common.

On the contrary, liberalism has far more in common with conservatism than it does with leftism. The left has appropriated the word “liberal” so effectively that almost everyone — liberals, leftists and conservatives — thinks they are synonymous.

But they aren’t. Let’s look at some important examples.

Race: This is perhaps the most obvious of the many moral differences between liberalism and leftism. The essence of the liberal position on race was that the color of one’s skin is insignificant. To liberals of a generation ago, only racists believed that race is intrinsically significant. However, to the left, the notion that race is insignificant is itself racist. Thus, the University of California officially regards the statement “There is only one race, the human race” as racist. For that reason, liberals were passionately committed to racial integration. Liberals should be sickened by the existence of black dormitories and separate black graduations on university campuses.

Capitalism: Liberals have always been pro capitalism, recognizing it for what it is: the only economic means of lifting great numbers out of poverty. Liberals did often view government as able to play a bigger role in lifting people out of poverty than conservatives, but they were never opposed to capitalism, and they were never for socialism. Opposition to capitalism and advocacy of socialism are leftist values.

Nationalism: Liberals deeply believed in the nation-state, whether their nation was the United States, Great Britain or France. The left has always opposed nationalism because leftism is rooted in class solidarity, not national solidarity. The left has contempt for nationalism, seeing in it intellectual and moral primitivism at best, and the road to fascism at worst. Liberals always wanted to protect American sovereignty and borders. The notion of open borders would have struck a liberal as just as objectionable as it does a conservative. It is emblematic of our time that the left-wing writers of Superman comics had Superman announce a few years ago, “I intend to speak before the United Nations tomorrow and inform them that I am renouncing my American citizenship.” When the writers of Superman were liberal, Superman was not only an American but one who fought for “Truth, justice, and the American way.” But in his announcement, he explained that motto is “not enough anymore.”

View of America: Liberals venerated America. Watch American films from the 1930s through the 1950s and you will be watching overtly patriotic, America-celebrating films — virtually all produced, directed and acted in by liberals. Liberals well understand that America is imperfect, but they agree with a liberal icon named Abraham Lincoln that America is “the last best hope of earth.”

To the left, America is essentially a racist, sexist, violent, homophobic, xenophobic and Islamophobic country. The left around the world loathe America, and it is hard to imagine why the American left would differ in this one way from fellow leftists around the world. Leftists often take offense at having their love of America doubted. But those left-wing descriptions of America are not the only reason to assume that the left has more contempt than love for America. The left’s view of America was encapsulated in then-presidential candidate Barack Obama’s statement in 2008. “We are five days away from fundamentally transforming the United States of America,” he said.

Now, if you were to meet a man who said that he wanted to fundamentally transform his wife, or a woman who said that about her husband, would you assume that either loved their spouse? Of course not.

Free speech: The difference between the left and liberals regarding free speech is as dramatic as the difference regarding race. No one was more committed than American liberals to the famous statement “I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it.”

Liberals still are. But the left is leading the first nationwide suppression of free speech in American history — from the universities to Google to almost every other institution and place of work. It claims to only oppose hate speech. But protecting the right of person A to say what person B deems objectionable is the entire point of free speech.

Western civilization: Liberals have a deep love of Western civilization. They taught it at virtually every university and celebrated its unique moral, ethical, philosophical, artistic, musical and literary achievements. No liberal would have joined the leftist Rev. Jesse Jackson in chanting at Stanford University: “Hey, hey. Ho, ho. Western civ has got to go.” The most revered liberal in American history is probably former President Franklin Delano Roosevelt, who frequently cited the need to protect not just Western civilization but Christian civilization. Yet leftists unanimously denounced President Donald Trump for his speech in Warsaw, Poland, in which he spoke of protecting Western civilization. They argued not only that Western civilization is not superior to any other civilization but also that it is no more than a euphemism for white supremacy.

Judaism and Christianity: Liberals knew and appreciated the Judeo-Christian roots of American civilization. They themselves went to church or synagogue, or at the very least appreciated that most of their fellow Americans did. The contempt that the left has — and has always had — for religion (except for Islam today) is not something with which a liberal would ever have identified.

If the left is not defeated, American and Western civilization will not survive. But the left will not be defeated until good liberals understand this and join the fight. Dear liberals: Conservatives are not your enemy. The left is.


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