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Bolsonaro e o fim do mito da educação

Em termos sociais, Bolsonaro é resultado de um fenômeno mais profundo, que nossos analistas políticos ainda não conseguiram decifrar. É a irrupção repentina de matrizes da cultura patriarcal – preconceituosa, intolerante, excludente, deslegitimadora do outro, do diferente, do divergente, não valorizadora do diálogo, do entendimento e da negociação e avessa aos direitos humanos – que sempre esteve no fundo do poço da consciência (ou inconsciência) da maioria da nossa população (e, a rigor, das populações de outros países).

Como já foi dito em outro artigo, o bolsonarismo se transformou num desaguadouro dessas matrizes de pensamento e comportamento mais incompatíveis com a democracia que repousam no baixo ventre da história (desde que existe Estado). A democracia surgiu precisamente como uma brecha nesse tipo de cultura patriarcal, hierárquica e guerreira. Só a democracia pode domesticar esse monstro que se esconde nos subterrâneos da cultura predominante no que chamam de civilização (que ainda é a civilização patriarcal).

Sim, o papel da democracia, como modo de administração política do Estado, é domar (ou drogar) o Leviatã (com a fórmula do Estado democrático de direito, capaz de conter, em parte, a fome pantagruélica, a belicosidade e a ferocidade do Estado-nação – um fruto da guerra, da paz de Westfália). Mas o papel da democracia como modo de vida é modificar, pelo processo interativo de fermentação de opiniões, inerente à formação da opinião pública,  esses elementos desumanizantes da cultura patriarcal, impedindo que eles irrompam em estado puro na cena pública e acabem definindo o rumo das sociedades. Toda vez que isso acontece, não pode haver democracia. Ora, como já mostrou Ralf Dahrendorf, não há democracia sem democratas. Como há um deficit de democratas atuando na cena pública brasileira, as portas do inferno se abriram e multidões de zumbis levantaram de suas tumbas.

De um ponto de vista político, pode-se dizer que o petismo é mais perigoso do que o bolsonarismo na medida em que tem força política organizada, enraizamento social, agentes infiltrados em todos os escaninhos do Estado, narrativa ideológica estruturada, apoio internacional e recursos de monta e de toda ordem. Mas o bolsonarismo, de um ponto de vista cultural (quer dizer, social), é a invasão dos bárbaros: a subida da lama que está depositada, camada sobre camada, no fundo do poço da cultura patriarcal.

A ameaça bolsonarista é mais perigosa do ponto de vista social do que político. É uma revivescência patriarcal, antissocial (no sentido em que Maturana emprega o termo). Pasme o leitor com o que vou dizer agora: Bolsonaro não tem muito a ver com isso. Ele está longe de saber avaliar a ameaça que ajudou a despertar.

Isso não tem nada a ver com educação (no sentido da imposição estatal do ensino obrigatório), como replicam os tolos. Até hoje as pessoas repetem, sem pensar, que nosso problema de fundo é educacional, que os eleitores elegem populistas por falta de educação, de conhecimento, de cultura (que não leem ou não sabem interpretar o que leram e só usam jornal para limpar a bunda).

Sim, o fato de Haddad ser forte nos rincões de baixa escolaridade pode revelar nossa falência educacional. Mas o fato de Bolsonaro ser forte nos setores de classe média e superior com alta escolaridade revela a falência da sociedade escolarizada. Você não entendeu? Leia Leon Tolstoi, Carl Rogers, Ivan Illich.

Quanto mais educação do mesmo tipo (da que temos hoje) oferecermos, mais o fenômeno ficará visível. A massificação do ensino escolarizante não vai resolver um problema que só a livre aprendizagem democrática, ensejando a surgimento de uma inteligência tipicamente humana, será capaz de resolver. Não é por falta de conhecimento que as pessoas apoiam Bolsonaro (do contrário ele não teria seus maiores índices de aceitação justamente entre os mais escolarizados).

A ascensão do bolsonarismo, como fenômeno social, está ajudando a quebrar o mito de que a educação (entendida como a oferta de mais escola, mais ensino, mais professores) vai resolver todos os nossos problemas.

POST SCRIPTUM

A recente pesquisa Datafolha (04/10/2018) confirma o que já havia sido divulgado por outros institutos. Vejam abaixo:


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