Leonidas e Péricles

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Os democratas sempre foram minoria

Este é um texto propositalmente repetitivo, circular e desconcertante para as pessoas que pensam que sabem o que é democracia

Se consultarmos as opiniões sobre ordem, hierarquia, disciplina, obediência, fidelidade, governo e política, comando e controle, família e relacionamentos, educação e escola, deus, igreja e religião e sobre as formas adequadas de expressão da sexualidade e da imaginação criadoras dos indivíduos que compõem o que se chama de “o povo”, o resultado será sempre decepcionante (e às vezes, apavorante) para os amantes da liberdade, para os que desejam uma sociedade aberta e para os que prezam a democracia.

Se essas opiniões não surgem da interação entre as pessoas, mas são colhidas em estado puro, dos indivíduos abordados um a um, as respostas da maioria serão sempre problemáticas do ponto de vista da democracia. Não que na democracia as pessoas não possam pensar o que quiserem. A questão é que o substrato cultural que permite alguém aceitar a ‘democracia como ideia’ (para usar uma expressão de John Dewey), não está presente na maioria das populações da maioria dos países do globo.

Vejamos alguns exemplos. As pessoas, em sua maioria, pensam que:

Não se pode mobilizar e organizar a ação coletiva sem líderes destacados e sem um mínimo de hierarquia.

Os seres humanos, abandonados à sua própria sorte, sem uma direção política capaz de conduzi-los, acabarão entrando em luta uns contra os outros, instaurando um verdadeiro caos social.

Somos, os humanos, inerentemente competitivos, cada qual sempre querendo levar vantagem sobre os outros.

Trazemos dentro de nós uma besta-fera que só poderá ser domada pela civilização ou pela religião (pois, afinal, se não existe a crença em um deus, onipresente e onisciente, capaz de vigiar nossos atos, tudo é possível).

A obediência e o respeito à autoridade são as principais virtudes que devemos ensinar as nossas crianças.

A maioria de nossos problemas sociais estaria resolvida se pudéssemos nos livrar das pessoas imorais, dos marginais e dos pervertidos.

O que este país necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, é de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar a sua fé.

Não se pode dizer que todas as pessoas referidas acima têm exatamente todas essas opiniões e sim que a maioria tende a concordar com a maioria dessas opiniões.

Estamos falando de uma cultura na qual estamos imersos há milênios. Se alguém pudesse fazer uma pesquisa de opinião (com todos os critérios científicos) verificaria que a maioria das pessoas – de todas as pessoas que vivem no país – pensa mais ou menos assim. Aliás, já existem muitas pesquisas revelando isso.

Tudo isso está decantado no andar de baixo da nossa consciência. Em geral as pessoas não têm coragem de proferir cruamente algumas dessas opiniões no debate público. O que significa que não são variáveis políticas. Mas, em alguns momentos, essa borra que está no fundo do poço pode emergir como ideias capazes de embasar um projeto político, turvando então completamente a água. Estamos em um destes momentos.

Alguns ideólogos dizem que o povo pensa assim mesmo, o que seria uma prova de que o povo é “de direita”. Mas isso é mais uma ideologização.

Não se sabe o que é “o povo”, dito assim genericamente. Sabemos o que são pessoas, cada uma, aliás, unique. Então, quando ouvimos falar de “o povo”, isso soa um pouco estranho.

Os populistas falam sempre em nome do povo. Os demagogos gregos, no século 5 a. C., já faziam isso. Todos querem estar de acordo com os anseios do povo. Recorde-se que a palavra populus foi empregada, originalmente, para designar contingente de tropas… Algum significado essa raiz da palavra deve trazer para o presente.

Sim, é preciso dizer – e repetir – que os democratas sempre foram minoria, não maioria. Se fossem maioria, a democracia jamais teria sido inventada (a maioria teria inventado outra coisa, possivelmente um modo de viver melhor, sobretudo com mais segurança e prosperidade, sob o domínio de um senhor justo e bom). Tanto na Grécia antiga, passando pela Inglaterra no século 17, quanto hoje no Brasil, a maioria da população, ouvida individualmente, não quer – nunca quis – democracia.

As pessoas, em sua maioria, querem um bom pastor, querem alguém que cuide delas, não a ausência completa – e aterrorizante – de qualquer cuidador. Só os democratas – sempre uma minoria, em qualquer época – tivemos a petulância de dizer que não queremos fazer parte de rebanhos, que não desejamos ser súditos de ninguém, que não aceitamos viver sob o domínio de um senhor (mesmo que este senhor seja bom, sábio e competente na arte de cavalgar-nos com gentileza e de resolver os nossos problemas por nós).

Repita-se, mais uma vez: os democratas serem foram minoria. Foi assim na Atenas dos séculos 5 e 4 a. C., na Inglaterra do século 17 e nos países atuais que têm regimes representativos (como o Brasil). O papel dos democratas é o de serem agentes fermentadores da formação da opinião pública, não o de convencer individualmente a maioria da população de suas ideias (o que seria impossível e, de resto, inútil).

Fermento não é massa. As opiniões privadas da maioria da população não são favoráveis à democracia: mesmo quando formalmente declarem que apoiam a democracia, as pessoas – depois de 5 a 6 milênios de impregnação autocrática – carregam um conjunto de crenças e preconceitos autoritários que frequentemente entram em choque com a ‘democracia como ideia’.

A democracia só pode se instalar e perdurar quando (e enquanto) se forma uma opinião pública que lhe é favorável. Por isso não se pode trocar o processo político por uma pesquisa de opinião. Por isso, na democracia dos modernos, existe debate público de campanha antecedendo a deposição do voto na urna. Se fosse para recolher e somar opiniões privadas não seria necessária a política. As eleições não são pesquisas de opinião feitas por meio das urnas.

Se fizermos uma pesquisa de opinião com a pergunta abaixo, qual seria o resultado?

Quem você preferira ter no governo: Péricles, o principal expoente da democracia ateniense, que foi acusado pelo menos três vezes de corrupção e outros delitos (como falta de decoro e nepotismo) ou Leônidas, o autocrata espartano, totalmente honesto e íntegro (um verdadeiro varão de Plutarco)?

Já se sabe a resposta.

Pois é… a maioria da nossa população não valoriza mesmo a democracia (segundo pesquisa do Latinobarômetro, o número de brasileiros que concordam com a afirmação “eu não me importo com um governo não-democrático desde que resolva os problemas” subiu para 55% em 2016).

Há fortíssimos indícios de que essa porcentagem aumentou depois que a Lava Jato começou a fazer uma espécie de cruzada de limpeza ética de todo sistema político, confundindo a corrupção com motivos estratégicos de poder com a corrupção tradicional da política. Se a afirmação fosse: “eu não me importo com um governo não-democrático, desde que seja honesto (não-corrupto)”, a porcentagem dos que concordam seria ainda maior.

No entanto, se fizéssemos uma pesquisa de opinião entre toda a população (ou mesmo somente entre os homens livres) de Atenas, por volta do ano 470 a. E. C., é quase certo que a maioria também não aprovasse a democracia. Por que então, nós, os democratas, não desistimos da democracia? Nós, os democratas, só não metemos uma bala na cabeça porque sabemos que a soma das opiniões privadas (colhidas por pesquisas de opinião) não é a mesma coisa que a opinião pública.

A democracia é um modo não apenas de domesticar o Leviatã, o Estado-nação europeu moderno, fruto da guerra, da paz de Wetfalia, como fizeram os modernos com a fórmula Estado democrático de direito. Se isso não tivesse acontecido, como se sabe, o Estado avançaria contra os direitos dos cidadãos, guerreando contra os de seu próprio povo. A democracia é também um modo de desprogramar milênios de cultura autocrática. Experimentar processos democráticos – aquilo que chamamos de democracia como modo-de-vida – é a única maneira de evitar que preconceitos e conceitos autocráticos, depositados em camadas sobre camadas, no subsolo da consciência das pessoas, possam emergir e, dependendo das condições, em certas circunstâncias, oferecer uma base para que projetos políticos tenebrosos, de condução da sociedade, possam vingar.

Não, não é a civilização (ou a religião) que doma uma besta-fera que supostamente existiria dentro de cada um. Não existe tal besta-fera natural. Não há nada como um Homo Hostilis hospedado em nosso cérebro límbico. A besta-fera, se existe, foi introduzida por processos antissociais. Por seis a cinco milênios de cultura hierárquica e autocrática.

O velho código sacerdotal de pureza está no subsolo das consciências de quem vive, há milênios, imerso na cultura patriarcal. Por isso o moralismo é tão generalizado. E por isso os preconceitos da maioria não podem ser tomados como critério para reformar a política e conduzir a sociedade. Só a interação das opiniões, ensejada pelo processo democrático – gerando uma opinião pública – pode mudar isso, nunca a verificação e totalização das opiniões privadas dos indivíduos que compõem a maioria da população. Se for assim, teremos de adotar a pena de morte, a punição física de homossexuais, o ensino obrigatório da religião cristã nas escolas, a eleição de líderes fortes capazes de transgredir, em nome do bem, as regras do Estado de direito – pois tudo isso, segundo as pesquisas disponíveis, é o que a maioria da população acha, quando seus integrantes são ouvidos individualmente. Quem não entende isso, jamais vai entender que democracia não é prevalência da vontade da maioria.

Em outras palavras, o que se está afirmando aqui é que maiorias aritméticas não são necessariamente maiorias democráticas. É o processo político, a interação de miríades de opiniões, que pode alterar esse quadro, conformando uma opinião pública capaz de modificar as opiniões privadas individuais que estão na sua origem.

As pesquisas de opinião não são um método válido de verificação da vontade política coletiva na democracia.

Dizem que o eleitor não aceita mais os velhos políticos corruptos e seria por isso que Bolsonaro cresce. Mas se o eleitor rejeitasse mesmo corruptos, Lula – condenado e réu sete ou oito vezes – não estaria em primeiro lugar em todas as pesquisas.

O que as pesquisas de opinião chamam de “o eleitor” é uma abstração, não existe como entidade concreta e, se existisse, não seria um ser racional. Como é que cerca de 50 milhões de pessoas continuam a apoiar eleitoralmente o chefe da maior organização política criminosa de nossa história (Lula)? Se substituíssemos o processo político por pesquisas de opinião, Lula já seria o próximo presidente.

Se pesquisas de opinião fossem método válido de verificação da vontade política coletiva, dispensando o processo político:

1) Lula já seria o próximo presidente do país (e esperar que ele não seja eleito ou, se eleito, não tome posse, em razão da canetada de um juiz, não é propriamente uma aposta no processo político).

2) Teríamos de adotar a pena de morte.

3) Os homossexuais deveriam ser reprimidos e punidos.

4) A chamada “classe” política deveria ser abolida, o parlamento desfeito e o poder deveria ser entregue a um líder corajoso e não envolvido em corrupção, para limpar a política e botar ordem na casa (ainda que isso seja contraditório com o primeiro exemplo acima, mas “o eleitor”, se existisse, não seria um ser racional).

Enfim, nada disso revela uma aposta no processo político e na democracia.

Se pesquisas de opinião fossem método válido de verificação da vontade política coletiva, não haveria mais democracia, nem no Brasil, nem na imensa maioria dos países. As pessoas prefeririam ter um senhor bom e honesto do que não ter um senhor (que é genos da democracia).

Os democratas, portanto, não estão obrigados a concordar com as opiniões privadas da maioria da população.

Vejamos mais alguns exemplos:

Se a maioria da população for a favor do linchamento de bandidos, os democratas não somos obrigados a defender isso.

Se a maioria da população acha que “os homossexuais são quase criminosos e deveriam receber um castigo severo”, os democratas não somos obrigados a defender isso.

Se a maioria da população acha que “todos devemos ter fé absoluta em um poder sobrenatural, cujas decisões devemos acatar”, os democratas não somos obrigados a defender isso.

Recente pesquisa de opinião (Datafolha / Fórum Brasileiro de Segurança Pública: 2017) constatou que a imensa maioria das pessoas consultadas concordam, em alguma medida, com as afirmações reproduzidas acima entre aspas.

Mas – alguém pode perguntar – como você pode afirmar isso sendo um democrata? Pois é… A pergunta já revela profundo analfabetismo democrático: a democracia não é a prevalência da vontade da maioria. Os democratas não concordam necessariamente com o que pensa a maioria. Pelo fato de que eram minoria, os democratas atenienses não deveriam ter inventado a democracia?

A democracia é contra-intuitiva. Para entendê-la é necessário um certo esforço de pensamento (embora para experimentá-la, não: basta o desejo de não viver sob um senhor).


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