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Onde está a oposição democrática?

Oito pontos do meu sermão aos peixes

Vos estis sal terrae. Mateus, 5:13.

Parte da imprensa comprou a ideia de que vai começar um novo governo. Só falta ficarem surpresos se Fernando Haddad (ou outro enganador qualquer do seu séquito) for nomeado ministro da Fazenda.

Até o ajuizado Gabeira entrou na onda de apoiar o “novo governo”, escrevendo hoje no Estadão o seguinte:

“O campo que se abre para Lula parece mais amplo do que o aberto em 2022. Não apenas pela intensa mobilização do segundo turno, mas também pela análise da votação. Tudo indica que os eleitores do campo da direita que, no primeiro turno, votaram em Cury, Zema, Renan e Caiado, no segundo turno, preferiram majoritariamente Lula. Isso significa que a possibilidade de uma política de frente pode isolar a direita mais radical e realizar o trabalho que não foi possível em 2022”.

Ora… Não haverá corte de gastos. Não haverá reforma administrativa. Não haverá renovação na presidência das casas parlamentares. Não haverá investigação de membros do STF. Não haverá movimento para o centro. E não haverá pacificação. Mas os tolos estão chamando isso de “novo governo”.

Lula acaba de comprar a reeleição por cerca de 400 bilhões de reais. E não há uma oposição democrática para denunciar isso?

Nossos políticos, como se sabe, são eleitoralistas. Os eleitoralistas são meio analfabetos democráticos. Só fazem oposição quando uma eleição se aproxima. Não acham que a existência de oposição faça parte do metabolismo normal do regime democrático. Com a eleição distante, muitos espertos aderem à situação já planejando sair mais adiante para, aí sim, fazer oposição – mas só se isso for necessário para serem eleitos ou reeleitos.

Vejam o drama. Não há mais centro democrático na política institucional. O PSDB e o Cidadania (coalhados de adesistas) estão desaparecendo (e em 2030 serão cadáveres ambulantes ou já estarão imóveis: enterrados mesmo). O PSD (de passagem adquirida com antecedência) e o MDB (pulsilânime) vão embarcando no governo. Partidos do chamado Centrão estão sendo comprados no atacado ou seus membros alugados no varejo.

Uma oposição democrática só haverá se for organizada a partir da sociedade. Falta achar os peixes.

Onde está a oposição democrática?

Padre Antonio Vieira, em 13 de junho de 1654 (dia de Santo Antônio de Pádua), proferiu no Maranhão esse famoso sermão aos peixes no qual o português Fernando de Bulhões (canonizado menos de um ano depois de sua morte, ocorrida em 1231), sabendo que os pregadores são o “sal da terra”, mas não são ouvidos, decide voltar-se para o mar e pregar aos peixes.

Seguem os oito pontos do meu sermão, sem muita esperança de que eles sirvam a alguma posteridade.

1 – Governo existe em qualquer regime. Oposição democrática só nas democracias.

2 – Não há um só caso de democracia liberal sem oposição democrática. Por isso os democratas liberais reconhecem e valorizam as oposições como players legítimos e indispensáveis ao bom funcionamento do regime democrático.

3 – Fazer oposição não é torcer contra o país. É uma atuação legítima e necessária em qualquer democracia.

4 – A oposição política ao governo não pode ficar nas mãos de forças políticas que não valorizam democracia. E a democracia não pode funcionar bem sem oposição democrática. Eis a razão pela qual é um imperativo a organização de uma oposição democrática no Brasil.

5 – Precisamos de uma oposição que rejeite tanto o golpismo da extrema-direita populista quanto o hegemonismo da esquerda populista.

6 – Precisamos de uma oposição que não seja antipluralista, iliberal e avessa à rotatividade ou alternância democrática.

7 – Precisamos de uma oposição que não seja populista: não divida a sociedade em uma única clivagem “povo x elites” e que não pratique a política como guerra do “nós contra eles”, deslegitimando os adversários ou transformando-os em inimigos.

8 – Precisamos de uma oposição que aceite a pluralidade política, rejeite a polarização e lide com a diversidade de opiniões por meio de um debate aberto e livre, valorizando a negociação, a moderação e a busca do consenso (ou uma ecologia de múltiplos dissensos coligados).

Quem fará oposição democrática ao governo Lula 4?